Animais Fantásticos 2 chega aos cinemas cheio de liberdades

Quando uma série adaptada se desprende de seu material original, coisas inesperadas, necessárias e um pouco incômodas costumam acontecer. Tem sido assim com os episódios mais recentes de Game of Thrones e, cada vez mais, tem sido assim com a franquia Harry Potter. “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, segundo prequel da saga bruxa que chega aos cinemas neste mês já sem nenhum livro concreto no qual se basear, é prova disso.

Sem tempo de ler? Ouça a crítica:

Um spin-off elaborado

O longa dá sequência aos eventos de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, filme ambientado várias décadas antes do nascimento do “garoto que sobreviveu” e baseado, vagamente, num livro didático apenas mencionado na saga original. A autora, J.K. Rowling, participou intimamente da construção dos roteiros dos dois filmes, mas é evidente que estes são uma obra separada dos livros, com vida própria e com muitas, muitas mãos envolvidas além das duas dela.

“Os Crimes de Grindelwald” traz de volta os personagens de “Onde Habitam”, agora encaminhando-se a Paris, onde Credence (Ezra Miller) se esconde numa trupe circense (acompanhado de uma personagem beeem familiar) e onde Gellert Grindelwald (Johnny Depp) planeja reunir seus seguidores e declarar guerra aos “trouxas” e aos aurores.

Volta ao mundo em 134 minutos

“Por que Paris?” é uma pergunta pertinente, mas a resposta tem mais a ver com uma massagem no ego dos fãs (aparentemente, a série viajará o mundo e pode até passar pelo Rio em breve, como já sugeriu um tuíte da autora) do que com qualquer necessidade prática da história. De qualquer forma, funciona: o cenário, que também passa por Londres e por sua icônica escola de magia e bruxaria (senti falta da Beauxbatons, mas seria puro fan service), tem uma névoa permanente e um tom mágico muito mais natural das ruelas europeias do que das largas avenidas americanas que abrigaram o capítulo anterior.

A internacionalização, contudo, não para por aí. Entre os novos “animais fantásticos”, que são muitos, conhecemos um simpático Chupacabra (o nome foi divulgado numa linha de bonecos Funko, apesar ser chamado no filme apenas de “Antonio”); um belo Cavalo-do-Lago, inspirado no Monstro do Lago Ness; alguns Matagots, gatos pretos inspirados no folclore francês; e um magnífico Zouwu, criatura gigante que lembra muito os animais de pano usados nas festas do Ano Novo Chinês. Este, é claro, é o que mais aparece, considerando o tamanho do público chinês e sua importância para Hollywood.

pelucio

Quanto aos velhos conhecidos, nem preciso dizer que o fofo Pelúcio agora tem filhotes, porque toda franquia fantástica que se preze precisa de um pequeno batalhão de bichinhos caóticos.

Personagens

É nesse contexto cheio de criaturas mágicas que o zoólogo Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra Jacob (Dan Fogler), Queenie (Alison Sudol), Tina (Katherine Waterston) e até Albus Dumbledore (numa versão mais jovem vivida por Jude Law), seu professor e mentor, além da antiga namoradinha do colégio Leta Lestrange (Zoë Kravitz). Surpreendentemente, a trama acaba se desenrolando muito mais em torno da história de Leta do que de Newt ou mesmo de Dumbledore, cuja relação romântica com o vilão Grindelwald é amplamente conhecida pelos fãs, mas meramente pincelada no longa.

Isso porque o foco, aqui, não é tanto o passado do professor ou do seu amante transformado em antagonista (o que provavelmente será trabalhado no futuro), mas sim a descoberta da verdadeira identidade de Credence, o poderoso bruxo instável do primeiro filme que todos suspeitam ter uma ligação com a família Lestrange, e que Grindelwald quer desesperadamente atrair para o seu lado da guerra.

Mais sombrio, mais divertido… E menos fiel

Em termos de enredo, “Os Crimes de Grindelwald” soa muito mais melodramático do que os outros episódios da franquia, com toda a intriga em torno dessa identidade ocupando tempo demais da aventura. Apesar disso, o filme tem um tom mais sombrio do que o anterior, aproximando-se bastante dos dois últimos títulos da série “Harry Potter”, e é também mais divertido, entregando mais magia, mais criaturas interessantes e mais easter eggs para o público se deliciar.

“Os Crimes de Grindelwald”, aliás, tem muito mais jeito de prequel para “Harry Potter e a Pedra Filosofal” do que de sequência para “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.

Os fãs, porém, talvez se alarmem com algumas liberdades que o roteiro toma em relação ao cânone escrito por Rowling, tanto dentro dos sete livros quanto fora deles (em textos divulgados no site oficial Pottermore ou em comentários feitos publicamente pela autora). As árvores genealógicas, por exemplo, parecem ganhar certos adendos convenientes, a especialidade de Dumbledore é trocada (de Transfiguração para Defesa Contra as Artes das Trevas) e a data de nascimento de outra personagem importante é categoricamente ignorada para aproximar o filme da saga mais famosa.

Escrito para o cinema (e para os fãs)

Todas essas mudanças podem ser detalhes, mas também podem ser sintoma de algo muito mais amplo. Como escritora, é notável o quanto J.K. Rowling conhece o próprio universo, tendo o hábito de criar uma rede imensa de personagens e histórias antes mesmo de colocá-los em ação. Porém, para o cinema o processo tende a ser diferente e, provavelmente, a autora não teve nem tempo nem autonomia para desenvolver tudo o que viria a ser mostrado na tela.

O resultado é que os novos filmes parecem muito mais improvisados do que detalhadamente planejados como foram os livros e, consequentemente, os filmes da saga principal. A sensação é mesmo de que eles estão inventando as coisas à medida que avançam, e que estão levando mais em conta as vontades dos fãs do que as de seus personagens.

É verdade que a experiência de assistir aos “Crimes de Grindelwald” é intensa e empolgante, sem contar visualmente maravilhosa (sério, os animais são lindos), mas seus protagonistas vêm e vão sem deixar pegadas mais profundas, nem pisar por um segundo que seja fora de suas caixinhas. Então, passado o calor do momento, o que sobra é uma coleção de criaturas curiosas, lugares charmosos e feitiços incríveis… Mas os sentimentos, em si, desaparecem como se tivessem sido apagados por magia.

Obliviados.

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