Em Chamas: suspense coreano seduz com trama ambígua e cheia de entrelinhas

Há muito pouco fogo no sul-coreano “Em Chamas”. Muito pouco diante das câmeras, quero dizer, porque, por trás delas, pode haver quantas labaredas você quiser imaginar. E é disso que se trata o suspense psicológico de Lee Chang-Dong, longa que representa seu país no Oscar 2019 depois de ter sido indicado à Palma de Ouro e vencido o prêmio da crítica em Cannes: imaginação.

Sem tempo de ler? Ouça a crítica:

“Em Chamas” traz no centro um trio peculiar. Ah-in Yoo é o protagonista Jong-su, um aspirante a escritor que vive numa zona rural e toca sua vida numa eterna indignação passiva desde que sua mãe saiu de casa e seu pai o obrigou a queimar todas as roupas dela numa grande fogueira. Nunca vemos esse fogo, realmente, mas sentimos cada faísca dele.

Jong-seo Yun é Haemi, uma antiga vizinha que reencontra Jong-su por acaso e passa a considerá-lo seu “único amigo”. Criativa, cheia de energia e capaz de dormir em qualquer lugar, Haemi fala de coisas que não estão ali e da “grande fome” e pede para ele cuidar de seu gato (que também nunca vemos, ou vemos?) enquanto ela viaja. Na volta, porém, para a surpresa de Jong-su, ela desembarca com um novo amigo.

Ben.

Ben é interpretado por Steven Yeun, que você provavelmente reconhecerá como o Glenn de “The Walking Dead”, e seu personagem é uma definição ainda mais precisa do termo “coisas que não estão ali”. Ele fala em metáforas, desvia, se esquiva, lança pequenas pistas de quem é ou do que deseja sem nunca, de fato, estar completamente presente. Jong-su o descreve como um “Gatsby” por sua riqueza, bons modos e pelo fato de que ninguém sabe direito o que ele faz. E ele realmente é tudo isso, mas também há um quê de tristeza disfarçada em sua arrogância, de solidão disfarçada na extroversão. E há um ar de mistério que pode ou não ser sinônimo de perigo.

O incêndio vem de dentro

A chegada de Ben quebra o relacionamento que Jong-su vinha idealizando com Haemi (mesmo que ele não a enxergasse tanto quanto enxergava a luz perfeita que atingia o quarto dela no fim da tarde) e força uma amizade que já nasce carregada de tensão. Então, quando Ben revela ao novo amigo seu hobby mais secreto, Jong-su se vê ao mesmo tempo atraído e repelido pela ideia, e o que se segue parece ter mais a ver com a imaginação desse escritor desafiado do que com a realidade que se apresenta a ele. Mas não se pode dizer ao certo…

O interessante de “Em Chamas” é que ele não oferece fatos, mas sim sensações, como a de uma constante pulga atrás da orelha. Não sabemos o que aconteceu entre Haemi e Ben, mas sentimos a angústia dela e a indiferença dele. Não sabemos se as histórias que ela conta a Jong-su são verdadeiras, mas sentimos sua necessidade de contá-las, e a necessidade dele de acreditar nelas.

O filme tem o mesmo diretor e roteirista do belíssimo “Poesia” e, como aquele, também convida o espectador a refletir mais do que a conhecer uma história. “Em Chamas”, entretanto, é inspirado por um conto do escritor japonês Haruki Murakami, o que lhe dá uma vocação bem maior para o suspense, resultando num equilíbrio interessante entre a contemplação e a ação. Por conta disso, as duas horas e meia passam sem que se desgrude os olhos da tela, mesmo que a maior parte das chamas estejam queimando dentro dos personagens. Pois mesmo ali, invisíveis, elas são intensas e hipnotizantes.

O longa chega aos cinemas no dia 15 de novembro.

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