Tinta Bruta: vencedor do Teddy Awards usa delicadeza e poesia para falar de repressão

Pedro não gosta de lugares públicos. Apesar disso, todas as quintas-feiras ele liga sua webcam e dança nu, banhando-se em tinta neon e tocando seu corpo colorido para uma plateia fiel e pagante. O vencedor do Festival do Rio e do Teddy Awards (troféu voltado para filmes queer no Festival de Berlim), “Tinta Bruta”, finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 6 de dezembro trazendo essa história melancólica e quase trágica para brilhar na tela. Isso, se o público estiver pronto para ela.

“Tinta Bruta”, apesar do título, encontra na delicadeza a sua linguagem e nem mesmo seus frequentes nus frontais ou sua abordagem franca de temas como prostituição e violência poderiam fazer dele um filme agressivo. Essa violência, tão familiar a seus protagonistas gays, lésbicas, negros ou plus size, aparece como um ímã invisível que os puxa constantemente para dentro de suas conchas, mais como um inconveniente obstáculo do que como a força que dita todos os seus movimentos.

Eles são livres, afinal, mesmo que nem sempre pareçam assim. Pedro (Shico Menegat), por exemplo, está respondendo por um processo. Os detalhes, descobrimos depois, têm a ver com uma situação de assédio moral e com um reflexo que lhe rendeu a expulsão da faculdade, o isolamento social e o presente trabalho como performer virtual. Hoje, a webcam é o item mais precioso na sua vida reclusa – ela e sua irmã, Luiza (Guega Peixoto),que está de mudança.

A história de Pedro é uma de libertação, mesmo que sua jornada, para quem olha de fora, possa parecer o oposto. É que essa liberdade vem de dentro e é lá que os diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (os mesmos de “Beira-Mar”) instalam suas câmeras. Também é de lá que vemos chegar Leo (Bruno Fernandes), um dançarino que se apresenta primeiro como concorrência e, depois, como possibilidade: de confronto, de criação e de uma vida que não é apenas virtual.

Leo também é performer, mas não vê nisso a sua realização. Seus olhos estão voltados para o lado de fora, para uma companhia de dança, uma bolsa, um futuro possível em palcos concretos. Os de Pedro, ainda não. Mas dê-lhe tempo… De cinco em cinco minutos cronometrados sob o sol, de cerca em cerca escalada e vencida sob o luar, ele aos poucos deve aprender a sair de seu casulo. E a dançar fora de seu quarto em todos os tons de neon.

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