Meus favoritos de 2018

Chamem-me de piegas, mas sou daquelas pessoas que aproveitam o período entre dezembro e janeiro para fazer o “balanço” do ano que passou e anotar os projetos, metas e tendências para o ano que vem. Retrospectivas são comigo mesmo e talvez esta seja a única época em que eu realmente vejo sentido em fazer listas. Então, antes de olhar para 2019 com olhos curiosos, quero compartilhar com vocês um pouco do que eu vi, li e descobri em 2018. Vamos?

Filmes, séries e livros que descobri em 2018

Filmes

2018 foi um ano em que eu questionei diversas vezes se deveria ou não continuar escrevendo sobre cinema. Por isso, vi menos filmes que nos anos anteriores – foram 164 em 2017 e, até agora, cheguei apenas aos 99 em 2018. Mas ainda deu tempo de ver muita coisa bacana, dos grandes blockbusters e filmes do Oscar a pequenas surpresas que me tocaram de alguma forma.  Lá vão 10 desses, em nenhuma ordem específica:

1. Poderia me Perdoar? 

O drama literário estrelado por uma Melissa McCarthy rabugenta e cheia de falhas só estreia oficialmente em 2019, mas passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro e não vai sair da minha cabeça tão cedo (talvez porque eu tenha me identificado um pouco demais com a personagem). Melissa é Lee Israel, uma escritora que, depois de ser desprezada por sua agente, começa a falsificar cartas pessoais de autores famosos e a vendê-las no mercado de luxo. Faz pensar, e muito, sobre o que querem os leitores e o quanto um nome assinado conta no valor de uma obra.

2. Um lugar silencioso

Terrores psicológicos mais lentos e, bem, silenciosos, têm estado muito em alta no último ano. Meu favorito foi “Um Lugar Silencioso”, estrelado pelo casal mais fofo de Hollywood (John Krasinski, que estreou na direção, e Emily Blunt) e com uma cena final simplesmente perfeita. Além de ter um roteiro original, o que é raridade, o filme extrai todo o seu pavor da expectativa, e não de sustos ou rostos dilacerados – no caso, a expectativa de que alguém, numa família com três crianças, vá fazer algum barulho em algum momento e, assim, atrair as criaturas que podem matá-los.

3. As boas maneiras

Que. Filme. Lindo. Esse é o único jeito de descrever “As Boas Maneiras”, longa brasileiro que abusa do realismo fantástico e que não tem medo de misturar o horror mais clássico e intocável com um cenário muito local e contemporâneo. O filme conta a história de duas mulheres: uma rica, filha de fazendeiro que foi afastada da família e agora vive sozinha em São Paulo; e outra que mora na periferia, também sozinha, e é contratada para ajudar a primeira durante uma gravidez complicada e toda misteriosa. 

4. A noite devorou o mundo

Outro terror low-profile que passou pelos cinemas neste ano, desta vez colocando um apocalipse zumbi como o pano de fundo para uma história sobre solidão, isolamento e um coração partido. O protagonista é um músico francês que, após dormir numa festa, acorda e descobre que é o único sobrevivente dessa infestação em todo o bairro e decide se trancar dentro do prédio e organizar sua vida. Ah! A questão do som também é importante aqui – uma metáfora para a liberdade, talvez?

5. Pantera Negra

Não dá para passar 2018 e não mencionar Pantera Negra. Pessoalmente, achei um filme muito superior a qualquer outra megaprodução envolvendo super-heróis, pelo cuidado com a construção de um mundo e uma cultura ficcionais cujas bases estão num continente até então ignorado por quase todo o ocidente. Ou seja: haja trabalho de pesquisa e criação para reinterpretar tudo isso para um público leigo e de massa. 

Mas, além disso, a trama ainda envolve decisões políticas que dialogam com a atualidade e que colocam esse país africano (futurista e militarizado) na pele dos países privilegiados, que hoje lidam com a decisão sobre compartilhar ou não seus privilégios com refugiados. Para completar, o elenco é quase completamente formado por atores negros e a maior parte da ação fica nas mãos das mulheres. Ou seja… Mesmo se “Pantera Negra” não fosse divertido e deslumbrante,  ele já estaria nesta lista. 

6. Trama fantasma

“Trama Fantasma” me incomodou muito quando eu o assisti. Não sou nenhuma fã incondicional de Paul Thomas Anderson e não tinha grandes expectativas para um filme sobre um estilista possessivo, mas… A ousadia da relação que ele criou entre o personagem de Daniel Day-Lewis e a musa-parceira vivida por Vicky Krieps, tão revoltante e interessante e absurda, ficou martelando na minha cabeça por horas, dias, meses e até hoje. 

7. Um Tiro na Noite 

Aqui incluo também alguns filmes que assisti pela primeira vez em 2018, mesmo que tenham sido lançados há muito tempo. “Um Tiro na Noite” foi um desses casos: eu e meu marido cruzamos com ele uma noite enquanto zapeávamos a Netflix, e bastou o nome “Brian de Palma” para nos convencer. Lançado em 1981, o filme acompanha um técnico de som (John Travolta) que testemunha um crime e acaba gravando um áudio que pode ajudar a solucionar o caso. Recomendo para qualquer pessoa que ame cinema, rádio e um bom suspense.

8. Sr. Sherlock Holmes 

Este drama maravilhoso com Ian McKellen foi lançado em 2015 no Reino Unido e, desde então, eu vinha de olho no calendário de estreias para pegá-lo no cinema. Mas ele veio diretamente para o streaming e foi na Netflix que o assisti. O filme traz o famoso detetive já idoso, vivendo isolado numa casa de campo com a ajuda de uma empregada e seu filho. Holmes está começando a esquecer pequenas coisas e se torna obcecado em recuperar os detalhes de um antigo caso que nunca resolveu. E, olha, eu não choro em filmes… Mas deus do céu o que é esse mcKellen!

9. Aniquilação 

Ainda tenho sentimentos divididos com este que é o segundo filme de Alex Garland (gosto mais de Ex Machina), mas sem dúvida ele deixou aquela pulga atrás da orelha. Baseado no livro homônimo de Jeff VanderMeer, “Aniquilação” conta a história de um grupo de mulheres que parte numa expedição praticamente suicida para dentro de uma zona misteriosa, envolta num domo que se expande engolindo tudo à sua volta, dentro do qual as leis da biologia, como a conhecemos, não se aplicam. Se, pelo menos à primeira vista, o filme não faz muito sentido, é fato que ele provoca muitas sensações e decifrá-las é que é o mais interessante aqui.

10. O Plano Imperfeito 

Em meio ao renascimento das comédias românticas bobinhas (que andavam sumidas, mas foram redescobertas pela Netflix), eu tive que escolher pelo menos uma para figurar nesta lista, representando todas as noites de guilty pleasure encaradas sozinha, tomando vinho e comendo chocolate. Minha eleita foi “O Plano Imperfeito”, talvez a menos adolescente da safra. Ela traz no centro dois estagiários (ou assistentes, nos seus vinte e poucos anos) que estão exaustos com seus chefes workaholics. A solução, é claro, é juntar os dois e tentar fazê-los se apaixonarem para, quem sabe assim, desapegarem um pouco do trabalho. Ah! Quem faz a chefe da Zoey Deutch é a Lucy Liu

Não couberam na lista

Três Anúncios Para Um Crime” e “Visages, Villages” teriam entrado na lista, se eu não os tivesse assistido em 2017, na Mostra de SP. De 2018, destaco também “O Primeiro Homem”; “Me Chame Pelo Seu Nome”, “Homem-Aranha no Aranhaverso”, “The Post – A Guerra Secreta”, “Com Amor, Simon”, “Os Incríveis 2”, “Jurassic World – Reino Ameaçado”, “Ilha dos Cachorros”, “Buscando…”, “Em Chamas”, “Culpa” e “A Favorita”. 

Séries

Confesso, sou uma péssima, péssima maratonista de séries. Diferente dos filmes, essas são obras que eu vejo apenas nos momentos de lazer (que são poucos), para relaxar e mergulhar em mundos interessantes, mas que não me façam dormir deprimida ou (muito) perturbada. Com isso em mente, listei 5 títulos que fizeram meu ano mais feliz.

1. O Mundo Sombrio de Sabrina  

Como eu amei essa série! Nunca tinha assistido à versão dos anos 90, mas fiquei curiosa quando comecei a ouvir que esta era mais sombria e barra pesada, mesmo sendo essencialmente adolescente. E, realmente, a nova Sabrina fala de satanismo com a desenvoltura de quem fala de boy bands, e a série tem uma abordagem perfeitamente natural para falar de feminismo, de dilemas adolescentes (banais ou não) e para abraçar personagens diversos sem soar panfletária. Queria eu ter tido uma série assim lá pelos meus 16 anos!

2. Maniac 

Cara, que série estranha, né? Admito que não amei a conclusão de “Maniac”, mas ver Jonah Hill e Emma Stone contracenando na TV como dois desajustados, interpretando personagens diferentes a cada episódio, era algo que eu não podia perder! O melhor é que a série é curtinha e super experimental: são 10 capítulos de cerca de 40 minutos e dificilmente haverá sequência, já que não foi um sucesso muito grande. Gosto assim!

3. The Good Place

Em termos de série, meu guilty pleasure foi a deliciosa “The Good Place”, que só descobri este ano, mas já tem três temporadas. Ela conta a história de quatro pessoas que morrem e vão para o céu, mas começam a desconfiar que aquele talvez não seja o paraíso. Uma comedinha leve de episódios curtinhos para ver no intervalo do trabalho e descansar a mente!

4. Star Trek Discovery

Fã de ficção científica que sou, finalmente me rendi aos encantos da nova série do universo Star Trek (com apenas uma temporada, o que ajudou muito), e viciei. No centro, está uma humana criada entre vulcanos (Sonequa Martin-Green) que é responsável pela morte de sua capitã e, anos depois, acaba recrutada por uma nova equipe e precisa enfrentar seus demônios, ao mesmo tempo em que descobre novos planetas e lida com diferentes espécies. Diversidade sempre foi o forte da franquia e, aqui, com uma protagonista feminina e negra, ela ganha ainda mais peso – ao lado de todos os dilemas políticos, sociais e éticos que envolvem uma expedição espacial.

5. She-Ra e as Princesas do Poder

Decidi assistir à nova versão da She-Ra na Netflix em parte por interesse profissional, em parte por pura curiosidade – afinal, é a She-Ra, né? Pois fiquei muito feliz com a nova animação: ela consegue manter toda a simplicidade das aventuras clássicas, atualizando os valores e as lições com personagens mais adequados à nova geração. Achei uma série bem infantil e inocente, mas gostosa de assistir.

Livros

Parte do motivo para eu ver tão poucas séries é que elas concorrem com os livros no período da noite. E, bem, livros são livros, né? Este ano, mergulhei em alguns autores que eu nunca tinha lido, incluindo clássicos e novos nomes que eu não conhecia. Listei 5 destaques

1. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil

Diversidade tem sido mesmo a palavra do ano, mas poucos artistas conseguiram reunir um elenco tão diverso com tanta criatividade e sensibilidade quanto Becky Chambers em seu romance de estreia. O livro acompanha a tripulação de uma nave que constrói buracos de minhoca sob encomenda, viajando para lugares pouco acessíveis pelo universo para cumprir suas missões. A bordo, estão personagens das mais estranhas espécies, com anatomias, hábitos e necessidades absolutamente diversos. Entre as inspirações de Becky, está o trabalho de Ursula K. LeGuin (e ela entendeu direitinho). 

2. Sobre a Escrita

No meio da minha crise profissional, corri para as prateleiras para buscar ajuda e encontrei a maior inspiração na obra autobiográfica de Stephen King, “Sobre a Escrita”. Nela, ele fala sobre toda a sua trajetória enquanto escritor, desde a infância até os primeiros livros, a crise com o alcoolismo, os grandes sucessos e as lições aprendidas com tudo isso. 

3. História da Sua Vida e Outros Contos

Quem me conhece sabe o quanto eu me apaixonei pelo filme “A Chegada”. Pois meu marido também percebeu e me deu de presente o livro que contém o conto que inspirou o longa. O autor, Ted Chiang, tem uma visão muito particular sobre a ficção científica, unindo conceitos técnicos e matemáticos complexos (sua formação é em ciências da computação) com uma abordagem religiosa ou filosófica muito profunda. O resultado são contos que propõem mundos impensáveis e reflexões que mexem com nossas convicções – é difícil ler mais de um conto por noite, já que a tendência é fechar o livro e ficar digerindo a história por um bom tempo. 

4. Orgulho e Preconceito

Um clássico é um clássico. Para poder falar com propriedade de todas as milhares de adaptações e interpretações da obra de Jane Austen (como minha amada Bridget Jones), era mais do que hora de conhecer o original. E digo que a leitura, mesmo que leve alguns capítulos para engatar, é deliciosa. Os diálogos incomodam um pouco pelas repetições e afetações da época, e é desesperador ver o quanto a vida daquelas mulheres girava em torno do casamento, mas, uma vez que nos acostumamos com isso, a história flui como uma boa comédia romântica. Uma dica: não se assuste com os asteriscos (como em ***shire) – alguns nomes de cidades foram publicados assim originalmente para não associar a trama a nenhum local real. Não é falha da tradução ; ) .

5. Modernidade Líquida

Pensei duas vezes antes de comprar o box completo com a série “líquida” do Zygmunt Bauman porque não sabia se a leitura ia fluir, então fiquei apenas com a “modernidade”. Mas a preocupação não poderia ser mais infundada. A escrita do filósofo (que faleceu em 2017, velhinho, mas mais lúcido sobre coisas como internet e vida contemporânea do que muitos de nós) é como aquela aula do seu professor mais querido do colegial: interessante, divertida e cheia de metáforas que facilitam o aprendizado. Só não li o livro inteiro em uma sentada porque quero parar a cada página para destacar um parágrafo e, pela primeira vez na vida, peguei um marca-texto para me acompanhar na leitura. Herege, mas feliz.

Esses foram os títulos que mais me marcaram no ano (até agora), mas não quer dizer que sejam os melhores – apenas que me provocaram mais do que os outros e que vou lembrar deles por mais tempo. E vocês? Que filmes, séries e livros fizeram a diferença em 2018? 

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