Quando é preciso desconectar

Longe de mim ser a pessoa que vai dizer que os tempos eram melhores antes da internet. Vivo e respiro nela desde muito cedo e, introvertida que sou, sempre encontrei na rede uma forma mais fácil de conviver do que nas esquinas exaustivas da vida real. Tampouco sou dependente dela, diga-se de passagem: quando ocupada, quase sempre deixo o celular de lado e não me importo em checar notificações até que esteja no caminho de casa – e, se a bateria acaba, dou de ombros sem nenhum trauma. Sério, vocês deviam experimentar.

Mas até eu, que me julgava numa relação tão saudável com minha existência virtual, acho que estou precisando desconectar. Talvez não da internet como um todo, provavelmente não. Mas do Facebook, de alguns agregadores de notícias… E de uma bolha muito apertada que já não me compreende mais.

Mas até eu, que me julgava numa relação tão saudável com minha existência virtual, acho que estou precisando desconectar.

Tive essa certeza meio por acaso quando, numa tarde como todas as outras, dei de cara com um sentimento que há tempos não me arrebatava: a vontade de me aprofundar em alguma coisa. E de fazer isso do meu jeito, sem seguir a cartilha do que “está funcionando para os outros segundo a especializada autoajuda das redes sociais”. Nesse dia, tinha passado a manhã inteira entre conversas e experiências (totalmente offline) e me reconectara, quase sem querer, com um lado que há muito tempo vinha estagnado – um lado curioso, acadêmico, interessado em aprender e em ensinar. E sabia que precisava alimentar isso ou o perderia de novo, num estalo.

Mas o hábito não morre fácil e, em tempos tão pós-modernos, onde procurar respostas se não nos corredores da web? Não demorou, é claro, para que eu voltasse à minha velha e confortável barra de rolagem vertical.

É impressionante a velocidade com que uma pequena visita ao Facebook, ao Instagram, ao Twitter ou a qualquer que seja sua rede preferida pode sugar sua atenção de volta ao não-lugar do consumidor-passivo e podar num só clickbait qualquer impulso autêntico de criatividade. O que parecera essencial apenas minutos antes agora se confundia com gostos artificiais, sugeridos por algoritmos que só podem ter aprendido seu ofício com a experiência das avós – aquelas que descobrem que você gosta de bolo de cenoura e te empanturram com o mesmo sabor até você esquecer por que um dia o apreciara.

Quanto mais inspiração eu buscava nesse oceano de “informação”, mais percebia que já tinha decoradas todas as frases, todas as imagens e todos os vídeos que se empilhavam na tela vestindo o selo de “novidade”. E eu, que procurava por qualquer coisa diferente, inusitada, imprevista, só conseguia rever o que já reconhecia: mais um político corrupto, mais um assédio, mais uma declaração inaceitável, mais um trailer, mais uma sequência, mais um remake, mais um meme. Mais do óbvio, mais do mesmo, mais do que já não me importa mais. E mais um café, por favor, para ajudar a descer.

E eu, que procurava por qualquer coisa diferente, inusitada, imprevista, só conseguia rever o que já reconhecia

Imersa nessa dieta forçada de assuntos nada diversos em timelines idênticas, é fácil perder de vista o que era mesmo que me interessara em primeiro lugar. Foi assim que me percebi intoxicada.

Hoje, passado o susto, não sei se posso realmente me desconectar – é meu trabalho, afinal. Mas o ano está acabando e me parece o momento perfeito para pelo menos reduzir, fazer a faxina, desapegar. E limpar o espelho turvo em que me vejo embaçada até enxergar de novo o que há de certo em mim.

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