Versos livres

Tenho colocado poucas palavras no papel. Meus pontos finais andam cada vez mais raros e já não sei o que dizer para a tela em branco, o caderno de bolso ou a parede preta pintada de tinta-lousa. Passei os últimos meses procurando sem sucesso pelo texto que se desmanchava entre sonhos dormidos e acordados, mas talvez procurasse, sem saber, pelos pedaços que se perderam de mim.

Esbarrei em interrogações, parênteses e reticências nos lugares onde esperava encontrar um ponto redondo e definitivo. Sem saber o que fazer com tão indecisas conclusões, minha caneta hesitou, pigarreou e engasgou. Hoje chacoalho esse tufo de insegurança para dentro do texto e fora de mim.

Talvez minhas palavras quisessem dizer, pelo silêncio, que se sentiam trancadas numa caixinha sem janelas. Que os lugares aonde as levei não lhes saciava a fome por sentimento e verdade. Pois escrever é um ofício sincero – pessoal demais para caber nas expectativas do mundo e inquieto demais para caber numa jornada diária de oito horas mais almoço com uma ou duas pausas para o café de máquina.

Escrever não cabe em nenhum lugar que não seja dentro do escritor. E, dentro de mim, há caos.

E poesia.

Dentro de mim há versos livres e frases inacabadas.

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