Um passo atrás

Todo mundo sabe que, às vezes, é preciso dar um passo atrás antes de seguir em frente. Paciência, padawan, já diria o sábio Yoda – mas haja paciência para segurar o pé que quer pisar no próximo degrau e equilibrar a perna no ar enquanto o resto da multidão continua a subida.

Já faz algum tempo que me vejo nessa posição esquisita: parada no meio da escada, apoiada num pé só, caprichando no semblante pleno para disfarçar o pânico. Não posso dar mais um passo, mas também não quero voltar… Por sorte, tem algumas mãos firmes por perto que não vão me deixar cair. Eu acho. Obrigada.

Eu sei que ninguém pode ficar parado hoje em dia, né? É feio. É errado. E, definitivamente, não é muito bom para a sua conta bancária. Mas o que fazer se o caminho para cima não parece mais tão certo?

A dúvida me pegou cerca de um ano e meio atrás, quando percebi que não queria passar o resto da minha vida (ou do ano, que fosse) fazendo as coisas como eu achava que “as outras pessoas esperavam que eu fizesse”. Tinha ouvido esse conselho a vida inteira, mas não entendia o quão verdadeiro ele era até acordar de madrugada sentindo saudade de mim mesma.

Não que eu já não tivesse um trabalho incomum numa área que eu gostava, que eu não tivesse este blog (mais ou menos), que eu não inventasse umas maluquices de vez em quando, que eu já não fosse excêntrica o suficiente para quem me conhecia direito (ou talvez só para mim mesma)… Mas tudo o que me propunha a fazer sempre vinha com aquela preocupação anexa de “como fazer do jeito certo”. Porque tinha que ter um jeito certo, não?

Entendi, então, que eu estava escrevendo o que eu achava que “devia” escrever, não o que a pequena Ju saltitante dentro de mim sonhava em colocar no papel, porque o que ela pensava nunca parecia muito bom. (Pobre Ju, sempre motivo de vergonha!) Notei que vivia lamentando não desenhar como antigamente, mas não me arriscava a voltar porque achava que “ninguém ia querer ver esse tipo de desenho”.

Amava cantar, mas não queria incomodar ninguém com meus gritos empolgados. Comprava roupas lindas que não tinha coragem de usar. Colecionava batons vermelhos e roxos e azuis e os guardava até uma lendária “ocasião especial”. Ela nunca vinha, é claro; e, se vinha, eu tinha medo que alguém reparasse em como eu estava diferente de todos os outros dias. Pode me julgar. Eu sei.

Escrevo no passado mas quase tudo isso ainda vale para hoje. O que mudou é que eu percebi que estava me escondendo dentro do armário (não aquele armário, mas ainda assim um armário) e, conscientemente, concluí que não podia continuar assim. Mas é difícil, né? Como é difícil. Só que eu tinha que tentar.

You have to kill the person you were born to be in order to become the person you want to be. (Do filme Rocketman, porque sim.)

Tentei. Evoluí. O dinheiro apertou, a consciência pesou. Voltei atrás. Não dava, eu já não era a mesma. Tentei de novo. Cá estou eu, pé no ar.

Enquanto rodopiava na escada feito bailarina, escancarei o armário e criei coragem para redescobrir o que estava guardado ali. Me matriculei numa aula de canto, comecei uma terapia (ainda em dúvida sobre essa parte), aprendi a cuidar de plantas, entrei para o pole dance, arrisquei um ou outro movimento de yoga, comecei a caminhar, reduzi a carne vermelha, prestei um mestrado, voltei a desenhar – a meta agora é aprender a pintar. Queria eu ter conseguido escrever mais nesse tempo, mas talvez o “passo atrás” esteja nisso também: preciso me reconectar comigo para achar minhas palavras. Preciso daquela criatividade colorida que só o traço solto tem.

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O caminho tem sido bom, não posso mentir, mas também tem sido difícil. Todos os dias me pergunto se esse processo vai levar a algum lugar ou apenas vou chegar ao fim e descobrir que perdi tempo – meu e dos outros. E perder tempo é pecado, né? Mais um pouco e não vou ter lugar no mercado, ou no mundo ou em casa, sei lá. A gente pensa coisas horríveis quando tem medo.

Pois a busca tem sido mais longa do que eu esperava, e isso dá medo. Mas paciência você deve ter, jovem padawan.


P.S.: tem um post do blog Desancorando (q eu descobri hoje!) que complementa incrivelmente bem esse sentimento, aqui. Ela fala da nossa necessidade boba de “pertencer” e de como isso pode ser uma cilada.

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