Pão quentinho

Aqui em casa, não temos campainha. Essa é uma daquelas coisas que eu e o Gabriel dissemos que iríamos consertar assim que nos mudássemos para o apartamento, mas, com o tempo, simplesmente nos acostumamos a viver sem. Afinal, quem é que recebe visitas imprevistas em pleno 2019?

Pois estávamos entre um episódio e outro de Star Trek: Discovery, afundados no sofá, quando um “toc toc” nítido e determinado ecoou pela sala de estar. “Nossa, acho que tem alguém na porta!”. “Quem será?”. “Nem ideia!”. “Toc toc”.

Era o Juan.

O Juan, vejam bem, é nosso vizinho de andar. Ele e sua esposa (me sinto mal por não saber o nome dela, mas nem sabia o dele até poucos dias atrás) vieram morar no 54 há alguns meses, depois que o antigo inquilino decidiu que o aluguel estava pesado demais. Sabemos disso porque dividíamos as vagas da garagem com ele e, agora, é com esse novo casal. Continuo detestando dividir as vagas.

Eu e o Gabriel não sabíamos quase nada sobre eles, exceto que eram cariocas e que alguém ali naquele apartamento cozinhava muito, muito bem. Era só abrir a porta do elevador a qualquer hora do dia para se sentir abraçado por um bife acebolado, um feijão temperadinho, uma comida de vó, das boas. Mas eles eram tímidos, disso eu sabia, e levou um bom tempo para que o estranhamento ocasional no hall de entrada virasse um sincero “boa tarde” ou “boa noite”, acompanhado de um carinho deles na nossa cachorra, a Cacau.

“Toc toc”, enfim.

Era o Juan.

E ele trazia uma travessa de vidro grande com um pão quentinho, recheado de calabresa. “Acabamos de fazer, vocês não querem?” – virei o rosto em câmera lenta, desconfiando dos meus ouvidos. Ele estava mesmo na porta, segurando seu pão recém-assado, sem jeito e esperançoso de que a resposta fosse sim. É claro que era sim. “Nossa, obrigado! Caramba, não esperava…”

A gente nem sabia o que fazer, essa é a verdade. Nossa reação deve ter sido toda atrapalhada, mas espero que o sorriso que abrimos de orelha a orelha tenha falado por nós. Porque a felicidade era sincera (e a fome também).

Aceitamos, agradecemos, passamos o resto da noite pensando em como retribuir.

Porque, com um gesto assim inesperado, o Juan nos lembrou de que a gente não precisava ter medo de quebrar o gelo incômodo que se colocava o tempo todo entre nós e qualquer outra pessoa que não conhecêssemos tão bem. Ele sabia que as pessoas só precisavam de um pouco de gentileza, de um sorriso e de uma boa intenção para se darem bem, e ele estava certo.  Afinal, por que é que conviver tinha que ser sempre tão difícil?

Nada é difícil quando se tem pão quentinho.

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