Menininha

Todo mundo tem uma história vergonhosa da infância. A minha (uma delas) é essa: quando tinha meus 4 ou 5 anos, eu costumava me agarrar ao corrimão na casa da minha avó e chorar descompensadamente, bradando aos sete ventos que eu queria ir à escola de saia, não de calça. Fazia uns 10 graus.

Lembrei dessa cena, que só conheço de tanto ouvir minha mãe contar para todas as visitas que já passaram pela casa, alguns dias atrás quando pensava no que desenhar (coloquei a mim mesma o desafio de desenhar todo dia alguma coisa, por meia horinha que seja). Então, lembrei que sempre gostei de desenhar roupas, e que sempre neguei essa inclinação tão teimosamente quanto esperneava ao pé da escada. Eu? Gostar de moda? Cruz credo!

É que eu tinha uma reputação a zelar. A essa altura ela já foi para o espaço, mas quem me conheceu em qualquer momento depois daquele escarcéu sabe que coturnos e calças jeans se tornaram meus melhores amigos, e que saias viraram um acessório raro para dias de planetas alinhados, muito sol e um excepcional bom humor. O que é curioso, se você considerar que elas ocupam a maior parte do meu armário.

Eu realmente amo coturnos e calças jeans, não menti para ninguém. O que eu não quis admitir, por muito tempo, é que eu também amava saias, vestidos, cor-de-rosa, bonecas, bichos de pelúcia, piruetas, flores, coisas “de menina”. Eu também gosto de preto, rock ‘n roll, filmes do Stallone, video-game e coisas “de menino”. Mas as “de menina” sempre foram mais difíceis de admitir. E vocês querem saber por quê?

Porque eu queria ser respeitada.

É… Percebi que a resposta era essa enquanto pensava neste texto, e isso me deu uma angústia do tamanho do mundo. Por que eu tive tanto receio de abraçar meu lado “menininha”? Por que é que eu tinha a sensação de que uma saia ou um salto alto me fariam ser vista de um jeito que eu não queria de jeito nenhum? Por que eu não queria “lutar como uma menina?”.

Porque eu estava cansada de ouvir que “menina não podia jogar” (ou lutar). Que “menina tinha que ir ficar com as outras meninas fazendo coisas de menina”, porque menina “só entendia de roupa, cabelo e unha”. Porque eu era menina, mas mas não queria ser só isso. Eu queria brincar com os meninos também. E jogar jogos de tabuleiro ao invés de fazer as unhas na sala de aula. Ou estudar. Ou ler. Ou correr. Ou trocar figurinhas. Ou fazer as unhas, quem sabe – o que eu só não queria porque eu morro de aflição de lixas.

Talvez parte do meu ódio de ser chamada de “bonequinha” (coisa que acontece basicamente toda semana, porque tenho um metro e meio) venha daí. Bonecas são perfeitas, delicadas e simbolizam tudo o que há de feminino no imaginário geral. Mas o feminino na vida real é bem diferente disso. Ele tem, sim, certa delicadeza, mas também pode ser bruto, forte, ágil e ganhar uma Copa do Mundo, com ou sem as unhas feitas.

Feminino na literatura, como eu tenho lido muito ultimamente, pode significar um tipo de história que não depende necessariamente da mitologia do herói, mas que abraça um universo de outras possibilidades dramáticas. Parece uma loucura, mas quando você lê… Cara, leiam Ursula K. Le Guin. Leiam Dancing at the Edge of the World e  The Carrier Bag of Fiction. Vai mudar sua vida, mas não vou explicar por quê, porque todo o meu projeto de mestrado vai girar em torno disso. Aguardem.

O caso é que eu demorei a perceber que a Hermione, a Leia, a Holy Golightly e a Sailor Moon eram heroínas tão badass quanto a Sarah Connor, a Ellen Ripley e a Lisbeth Salander. Que dava para ser feminina e forte ao mesmo tempo, e que ser forte, aliás, nem sempre era a coisa mais importante. Ser inteligente também era legal. Ser elegante era legal. Ser sensível podia salvar vidas, o mundo e a lua.

E o mais incrível de pensar feminismo com toda essa bagagem ficcional é perceber que ser mulher, ser menina, ser menininha, significa poder fazer qualquer coisa e, se você quiser, ainda fazer isso com leveza. É poder expressar sua criatividade pelas roupas tanto quanto pela sua arte, é abraçar todas as cores e todas as formas, incluindo o rosa e o círculo, o floral e os tons pastéis. É explorar as velhas formas de contar histórias e depois criar novas formas que façam mais sentido para você, e mostrá-las ao mundo.

Ser menininha é bom, afinal, e ser mulher é melhor ainda.

E, depois que você entende isso, ninguém mais pode te desrespeitar.

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