O tiozão mais feliz da balada

E de repente me vi: pés descalços, óculos de plástico verde-limão segurando os cabelos como tiara, tirinhas luminosas nos pulsos em múltiplas cores, boá de plumas cor-de-rosa enrolado no pescoço, saia arrastando no chão sem piedade, braços indo e vindo em movimentos tolos e ritmados. Um sorriso que virava risada, um passinho para cá e outro para lá, uma careta para a foto. Tinha me transformado no tiozão da balada. E o tiozão era o cara mais feliz da balada.

Ok, talvez eu esteja exagerando aqui. Do alto do meu metro e meio (os saltos, afinal, estavam debaixo da mesa) e dos meus trinta e um anos eu poderia, no máximo, ser uma tiazinha na balada. Mas o sentimento de liberdade, aquela certeza de que eu poderia dançar como bem entendesse sem que isso afetasse minha reputação (pff!) me colocava em sintonia direta com essa figura mítica das festas de família. Era um casamento, afinal, e há poucos espaços mais adoravelmente patéticos do que a pista de dança de um casamento – todo o respeito aos noivos.

O ponto é que existe uma beleza em deixar de se preocupar com o que você deveria estar fazendo (dançando sensualmente, executando uma coreografia perfeita ou contendo os movimentos com polidez quando não se sabe fazer nenhum dos dois) e simplesmente balançar o corpo, porque sim. É rock? Dá para dançar. É funk? Dá também. Disco? Nasci para isso. Mas ninguém está dançando? Ora, alguém tem que começar.

…como é estranho viver tentando corresponder a essa expectativa de ser bonita, delicada, sexy, discreta, alegre na medida, sóbria na medida…

Talvez seja consequência da idade, talvez apenas um surto de bom humor, provavelmente é bobagem. Mas não consigo deixar de pensar que vejo sempre tantos tiozões na balada – mas raras tiazonas e zinhas – porque se preocupar obsessivamente, inconscientemente e inseguramente com o olhar dos outros o tempo todo é uma coisa tão automática para a gente, aqui do lado feminino da Força, que ninguém nem percebe mais. E esquece como é estranho viver tentando corresponder a essa expectativa de ser bonita, delicada, sexy, discreta, alegre na medida, sóbria na medida, cuidadosa com o vestido, o batom, a unha, o sapato, o cabelo, os quilos, os olhos dos outros, até a fidelidade dos outros. Que baita desperdício de energia.

Agora imagina se, de repente, a gente não fosse nenhuma dessas coisas? Ou se, de repente, você não precisasse provar para ninguém que o jeito como você dança merece o  respeito de desconhecidos, a admiração dos amigos, a aprovação da família, a atenção daquele cara, e simplesmente quisesse dançar por dançar? Por você, para variar? 

Eu vou te dizer o que aconteceria: você deixaria seus saltos no canto e seria o tiozão mais feliz da balada.

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