Super-heróis

Mais um Rei Leão, mais um Blade, mais um(a) Thor, mais um Top Gun, mais um Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado. Mais super-heróis, mais super-vilões, mais histórias conhecidas com soluções confortáveis, vinganças catárticas e finais felizes. É difícil não se seduzir pela memória de tempos melhores, eu sei, especialmente quando os tempos são… Bem, estes.

Mas como lidar com o pesadelo de um tempo quebrado, senão afundando-se no aroma afetivo da pipoca com manteiga? Talvez a resposta do mundo nos últimos anos tenha sido a pior possível: negar o próprio tempo e viver eternamente num presente quase ficcional, que lembra mais aquela sala fechada do que o céu aberto e cinzento do lado de fora. Um presente fácil demais de entender. Falso demais. 

Nesse mundo photoshopado, costuma habitar um indivíduo que, sozinho, representa todas as maldades e todos os erros da humanidade e, ao seu lado, outro indivíduo que, sozinho, toma para si toda a responsabilidade de combater esse mal. Um vilão e um herói, ambos eleitos pelo espectador tolo que se crê inocente. Vocês sabem do que estou falando, não sabem?

Sempre um herói da semana, sempre um vilão da semana, quase sempre o mesmo que muda de lado e se “revela” um enganador.

Poderia ser o roteiro de um desenho animado dos anos 90, mas é o noticiário brasileiro de todos os dias. Quando o PT era vilão, Moro foi o herói. Quando o Ministro da Educação foi vilão, Tabata Amaral surgiu como heroína – por alguns segundos apenas. Agora, enquanto Moro desponta na vilania, é Glenn Greenwald que faz as vezes de Scooby Doo e tira o saco de sua cabeça. A próxima briga parece ser entre Bolsonaro e a OAB. Sempre um herói da semana, sempre um vilão da semana, quase sempre o mesmo que muda de lado e se “revela” um enganador. Como assim, você não era o herói que nos prometeram? O Salvador, o Escolhido, a própria reencarnação da deusa Athena?

Não é de espantar que essa reinvenção tão infantil da realidade tenha sido potencializada pela internet e as redes sociais. Suas bolhas tão bem customizadas nos mostram um contexto ainda mais recortado do que mostravam os jornais impressos, o rádio ou a televisão, e nele acreditamos sem questionar, envaidecidos e enraivecidos. Recortadas por quem, porém, me pergunto? Pelo próprio usuário? Pelos marketeiros dos candidatos políticos? Por empresas especializadas em manipular a psicologia de todo um país como a Cambridge Analytica? Desculpem, andei assistindo ao documentário Privacidade Hackeada na Netflix e um pouco de neurose é inevitável.

De qualquer forma, é difícil manter a compostura diante de tão generalizada cegueira. Um povo (e não é só o brasileiro) que conta tanto com um Super-Homem (sempre homem) para se salvar, que não aprende com a própria ingenuidade e segue iludido escândalo após escândalo, só pode ser incapaz de enxergar a si mesmo, incapaz de ver-se como o problema e de corrigir-se para corrigi-lo. E o problema se agrava, e a bola de neve cresce e esmaga a Amazônia, a comunidade LGBT, os direitos humanos, a educação, a cultura. A bola de neve cresce e não há superpoder que possa derretê-la. Só há você. E eu. E nós, especialmente nós.

Hora de subir os créditos e encarar a tempestade.

 

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