Cinco poemas para uma noite quente

1.

É que preciso de arte, você vê?

Preciso dela como preciso de comida (e você bem sabe o quanto preciso de comida…). Preciso de palavras, imagens, cores, de acordes dissonantes e temperos raros. Preciso daquilo que brota sem motivo, e que não serve para nada. Eu me alimento de nadas.

Cultivo em mim uma pequena plantação de inutilidades.

Vivo de coisas belas e inessenciais que não merecem ser pagas. Coisas oblíquas que não podem sequer ser estudadas.

Mas estudo, mesmo assim. Estudo e vivo, e vejo. E ouço. Soluços por toda a parte.

Medo por toda a parte.

É que todo mundo precisa de arte, você vê… Mas não sabe.

E seguem tapando o buraco com moedas, remédios, gritos e balas.

2.

Lá longe, o pôr-do-sol. O azul já pálido derrete em amarelos e vermelhos, tingindo de uma melancolia calma outra segunda-feira. Falta-lhe intensidade, mas sobra calor; prenúncio de dias mais tranquilos, despidos da tensão dos músculos sufocados sob camadas de lã e moletom. É hora de respirar de novo – pela pele, pelos poros, pela alma. É hora de começar de novo.

Outra vez.

A noite morna se aproxima cheia de promessas.

 

3.

Citronela no ar

Asas no chão

Esperam o ano inteiro só para dançar sob as luminárias na primeira tarde de verão.

 

4.

E você, o que faz?

Eu escrevo e desenho

Para mostrar ao mundo

O que ele não sabe que é.

 

5.

Quando tudo parece óbvio demais para ser dito, opte pela poesia.

 

 

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