Mestre de coisa nenhuma

Voltei a estudar há mais ou menos três meses e, há três meses, tenho convivido com a mesma pergunta: por que mestrado, afinal? E, já que estamos aqui… Por que Letras, hein? 

Porque duvidar de mim é o que faço melhor, às vezes sou eu mesma que levanto a questão. Lembro-me rápido de que eu bem gosto de literatura – e de gramática, coisa rara! E de dar aula também. Então, parece certo. Talvez eu tenha perfil de professora, talvez só tenha dificuldade para confiar. 

E às vezes eu acredito nisso. De verdade. Mas às vezes não. 

Pois, se vou ser professora, o que é que eu, que tenho bicado na superfície de tema em tema, serei possivelmente encarregada de ensinar? Eu, que trago no currículo um mix sinestésico de jornalismo esportivo, crítica de cinema, poesia, aquarela, gramática, ficção científica, feminismo, insegurança, timidez e uma tendência irrefreável de dizer o que não se deve? 

Eu, que só sei fazer perguntas onde deveria enxergar respostas, olho para a página toda rabiscada de temas que ainda não ganharam forma ou aprovação, olho para a folha em branco onde deveria constar meu projeto de pesquisa e encaro, de perto, a dúvida. Procuro na origem da jornada qualquer vislumbre de nitidez, ou sanidade – na esperança de que o porquê me leve ao o quê. Ou ao quem. Sempre o quem.  

Mas não, claro que não leva. “Quem sou eu” não está em nenhum lugar para ser encontrado, muito menos ali. Não sou nenhum daqueles temas, não sou Letras, Jornalismo, nem Artes, nem mestre de coisa nenhuma. 

Porque talvez “quem eu sou” não seja sequer a pergunta certa. 

E talvez a única coisa que faça diferença, no fim das contas, seja como eu vou fazer o que quer que seja que eu escolha fazer. Como eu vou aprender. Como eu vou ensinar. Como eu vou entender o mundo e o reinventar, e provocar e organizar e alimentar e motivar. Eu não sei o que diabos estou fazendo aqui, e talvez nunca descubra, mas o “como” não me assusta tanto. Com o “como” eu posso lidar.

Se quer uma resposta, escolhi Letras porque será interessante, eu espero. E mestrado porque vai me fazer pensar (e alguém me disse umas semanas atrás que “conhecimento é felicidade” e nada nunca fez mais sentido). Agora, como eu vou fazer tudo isso pelos próximos dois anos?

Acho que vou ter que fazer do meu jeito. Isto é, duvidando.

 

2 comentários em “Mestre de coisa nenhuma

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