Em cima do muro

Em cima do muro tinha uma mochila. E uma bolsa de praia, e quatro pares de chinelos. A praia era uma tripa de areia que se encolhia a cada respiro da maré, que subia e subia. Subia tanto que o acesso para não-condôminos estava bloqueado, cheio de pedras traiçoeiras debaixo de um metro e meio de água. Era uma praia dentro de um condomínio, dentro de um condomínio, mas era uma praia. E era pública.

Entramos por dentro do condomínio (dentro do condomínio), e demos nossos nomes a duas portarias. Na segunda esperamos por um guarda, que deveria nos acompanhar mas não quis subir a ladeira. Ele acenou e apontou a curva que dava numa escadinha com o pequeno portãozinho de madeira, e agradecemos. O portãozinho cortava o muro próximo ao píer e, alguns passos à frente, outro portão igual dava a uma casa o acesso à areia. Outro portão, outra casa, e logo acabava a praia que mal justificava seu título. Uma senhora de uniforme desceu para fechar um deles, a pedido de alguém que não apareceu. Eram simbólicos, os portõezinhos, não escondiam nem protegiam muita coisa, mas estavam ali fechados. Todos menos aquele primeiro, observado de longe por aquele guarda. 

Apoiamos nossas coisas sobre o muro para que não se molhassem com a maré e entramos na água. Não muito, é claro, pois a uns quinze ou vinte metros dali ficavam as lanchas, muitas delas. E jet skis. A praia era deles, como todas ali – veículos estacionados, pincelando o horizonte azul com borrões de branco e bege. Mas cada cidade tem suas manias, e não sei muito sobre lanchas e jet skis para opinar. Tampouco sou de nadar, então aquela pequenez era suficiente para mim, satisfeita em sentir a areia sob meu pé e a água sob meu pescoço, e a ondulação suave que antecipava a chuva. A água estava morna e me fez pensar em silêncio. 

Mas ele foi quebrado pelo guarda, mal me apresentei ao mar. Ele correu até o portãozinho, aflito, e fez um sinal: na mureta não. Na mureta não.

A água já tocava o portão, veja bem. E toda a areia, exceto talvez o espaço de um chinelo, que não resistiria à próxima investida, já tinha aquele tom acinzentado de solo molhado. A água já espirrava na mureta, atrás da qual um morrinho de grama protegia a casa da maré e, acima dele, uma mulher segurava um bebê olhando a praia com a mente em outro lugar. Um grupo de senhores e meninas de biquínis seguravam cervejas em volta da piscina na varanda ao lado e, mais acima, cinco ou seis mulheres se juntavam para a selfie, costas para o mar.

Nadamos de volta meio sem saber como proceder. Deixássemos as coisas no chão, e elas seriam levadas ou encharcadas em minutos. Tínhamos celulares e documentos ali. Que as mantivéssemos sobre a mureta (que era o meu voto), e quem sabe qual seria o próximo capítulo? Já pensava em chamar a dona da casa e negociar, pois ir embora soava como uma opção amarga demais. Mas ela não parecia totalmente dentro de si para colaborar. 

Então, um homem que chegara pouco depois do nosso grupo teve a ideia: e se pendurássemos nossas coisas na lixeira? Ou no suporte da lixeira, para ser mais exato? Pois deixamos, sem questionar. Achei simbólico, e fiquei pensando se o guarda, ou a moça com o bebê, ou a senhora de uniforme, ou alguém ali na praia mesmo olharia aquilo e pensaria o mesmo que eu pensei. Se pensaria estar num mundo invertido e errado, e que sentiria algo parecido com vergonha.

Mas não, é claro que não. Nossas coisas continuaram ali, a alguns centímetros da mureta de pedra molhada. E em cima da lixeira passou a ter uma mochila, e duas ou três bolsas de praia e um punhado bem grande de chinelos. Todos apoiados uns nos outros, como deu. 

E em cima da mureta, nada. Absolutamente nada.

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