Mato até os joelhos

Na minha rua, as pessoas gostam muito de plantas. O que é saudável, eu acho… Exceto quando não é. Que é quando as plantas desistem de esperar por uma poda e resolvem crescer além do limite combinado, invadindo o asfalto, a calçada, os buracos, a passarela, os pneus dos carros abandonados e qualquer outro cantinho que tenha sido esquecido temporariamente ou permanentemente, criando um grande e preciso mapa do cansaço (ou da preguiça) de seus colegas humanos. O que, se você me perguntar, é um pouco rude da parte delas. 

Na esquina que dá para a praça, por exemplo, existe uma árvore na calçada. Há muito tempo suas raízes se rebelaram contra a estrutura de concreto que prometia delimitar seu quadrado, e elas se tornaram parte da paisagem. Nenhum problema com isso, é uma árvore linda. Mas, de uns tempos para cá, tenho notado um aumento na rebeldia. Além das raízes gordas e espaçosas, a passagem agora conta com uma folhagem nova, que se estende no chão por 4 ou 5 metros e sobe até os joelhos, surpreendendo o pedestre no entorno do tronco com algumas dúzias de espécies de fungos, incluindo cogumelos suculentos que fariam o quarteirão inteiro cantar Yellow Submarine dando pulinhos de êxtase. (Felizmente, minha cachorra não se interessou pela novidade.)

Em época de chuvas, a velocidade de crescimento do mato aumenta num ritmo absolutamente incompatível com a força de vontade dos moradores da rua, e chegamos num ponto-limite. É quando as ações acontecem: outro dia vi uma mulher tentando botar a árvore rebelde de volta ao seu devido lugar. Ela estava agachada, de avental grosso e tesoura grande nas mãos, o olhar determinado como quem vai à guerra… Julgando pelas chuvas que não pararam, suponho que ela só tenha adiado o inevitável, mas quem sabe até onde chegaríamos sem sua intervenção? 

Cenário idêntico se repete em pelo menos outros três pontos da rua, que, vale notar, se encerra em dois quarteirões. Num canto, um arbusto se combinou a uma trepadeira para formar um romântico (porém relativamente intransitável) portal florido, recentemente podado com o mesmo otimismo da senhora na esquina. Mais à frente, outra árvore teve seu tronco transformado num cenário de Alice no País das Maravilhas, criaturas indecifráveis brotando de suas extremidades úmidas. Já a passarela que dá acesso à avenida virou território de ervas daninhas, e nós apenas ousamos invadir seu espaço quando a necessidade nos obriga. Cacau, coitada, sempre sofre as consequências, e retorna com lembretes verdes e pontiagudos fincados em seu pêlo para que não esqueçamos quem é que manda ali. 

No fim, morar diante de tanta natureza enquanto estudo cenários pós-apocalípticos tem sido uma experiência curiosa. Andei pensando que, se um dia não estivermos mais aqui – nenhum de nós, humanos –, fico tranquila pensando que ela ficará bem, e que seus ramos verdes se encarregarão facilmente de limpar nossa sujeira e trazer o planeta de volta ao equilíbrio. Por outro lado, se ainda estamos aqui… Talvez seja prudente lembrar que ela também está (a natureza, essa entidade da qual fingimos teimosamente não fazer parte), e que talvez devêssemos tentar nos entender um pouco melhor – porque ela é forte, muito mais forte do que aprendemos a acreditar. E ela não vai nos deixar ignorá-la, não importa quantas podas façamos em épocas de chuva.

Um comentário em “Mato até os joelhos

  1. Gostei, as plantas estão aqui antes de nós, embora as pessoas insistam em tapá- Las e embrulhá-las em caixas de asfalto e concreto, elas voltam e pedem seus lugares. A natureza vem e nós deveríamos não somente nos aproveitar de suas sombras, enfim se não cuidarmos a limpeza pública que não o fará.

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