O fim de tudo, o recomeço, ou nada disso.

Décadas de distopias não nos prepararam para isto. Zumbis, alienígenas, vírus implacáveis, macacos inteligentes, máquinas inteligentes, terremotos, tsunamis… Todos os cenários partiam da premissa de que a humanidade era, de certa forma, um organismo único, estático e previsível, que reagiria ao horror como qualquer outro animal: com pânico, violência, instinto de sobrevivência, agitação. Talvez até com solidariedade, perto do fim. Mas isolamento com Netflix, paciência, negação, medo de perder o emprego ou de acabar o papel? Isso, você não viu nos cinemas.

O que a ficção falhou em perceber¹  foi que o humano é, acima de tudo, um ser cultural, e, antes de pensar na sobrevivência física, bruta, óbvia, de si ou de todos os outros, ele concentraria toda a sua angústia e apreensão na sobrevivência do seu estilo de vida, e com ele, especialmente, na manutenção do sistema econômico em que aprendeu a viver. Afinal, o que acontece quando uma economia criada para crescer eternamente é obrigada a parar – completamente, mundialmente, sem aviso prévio ou plano de contingência?

Devidamente versadas em cultura pop, as pessoas talvez saibam o que fazer quando um inimigo externo ameaçar suas vidas (elas devem lutar ou fugir, matar ou morrer, e os filmes nos dizem que só precisamos nos preocupar com isso), mas elas não têm ideia de como proceder quando a rotina de uma vida inteira é posta na berlinda. O que fazer quando o dinheiro, essa coisa invisível que media praticamente todas as nossas relações, está fadado a não circular? O que fazer com o tempo “livre”, quando não são só os introvertidos que se trancam dentro de casa com seus cachorros, gatos e livros? O que fazer quando a escolha é entre sair e ser contaminado ou ficar e passar fome, ter a energia desligada, deixar de comprar um remédio para outra doença? E o que fazer, enquanto sociedade, quando o próprio capitalismo ameaça ruir, podendo ou não levar consigo mais vidas do que o vírus que o paralisou? Ninguém sabe exatamente o tamanho do estrago que isso pode trazer, nem tampouco o potencial de mudança que isso pode provocar. Mas é certo que não estamos preparados.

Para a ficção científica, afinal, o apocalipse era simbólico e seria salvo por um grupo restrito de sobreviventes-heróis que, depois do fim, no silêncio de um cenário livre das distrações mundanas da civilização, teria tempo de refletir, resistir e recomeçar. Porque é de recomeço que realmente falam as distopias, todas elas secretamente utópicas em suas visões do fim-do-mundo – como nos explicava Susan Sontag lá em 1965², o que nos atrai na ideia do fim é “a fantasia de ocupar a cidade deserta e começar tudo de novo”. Mas não se iluda, não é isso que vamos fazer. 

Ninguém quer começar tudo de novo, porque recomeçar (de um jeito diferente) não é bem o nosso forte. Se fosse, talvez nos apegássemos menos a coisas como o papel higiênico, o ponto eletrônico ou a bolsa de valores… Mas somos criaturas de hábito e tudo o que queremos é nos manter, mais ou menos, sempre no mesmo lugar. Mesmo que esse lugar nos seja, já há algum tempo, suficientemente apocalíptico.


¹ A ficção mainstream, especialmente no cinema. Na literatura, há exceções brilhantes, como o romance Estação Onze, de Emily St. John Mandel, que aborda o papel do teatro em tempos pós-apocalípticos.
² No artigo The imagination of disaster.

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