Apenas mais um dia no Apocalipse

Tenho apelidado estes tempos estranhos de “Apocalipse”. Chame-me de pessimista ou herege, mas penso nele como um apelido carinhoso – menos sanitário que “pandemia”, menos específico que “quarentena”, familiar o suficiente para amenizar a alta dose de nonsense da situação (é preciso buscar na ficção qualquer imagem simbólica que ajude a entender a vida real). Então achei que era uma palavra elegante, capaz de englobar tudo isso e falar com propriedade de um cenário maior: o fim das coisas como as conhecemos, uma crise que é diferente das outras, que atingiu o mundo inteiro a um só tempo, e um cenário de incerteza sobre o que faremos quando a fase de hibernação passar e tivermos que encarar um mundo quebrado. Quebrado de um lado e reconstruído do outro, familiar e ao mesmo tempo exótico, novo e velho.

Hoje é sábado, 21 de março, e no Brasil é mais ou menos o primeiro sábado desde que as coisas ficaram sérias. A quarentena, pra valer, começou na segunda-feira, com uma ou outra empresa fechando as portas desde a quinta anterior e algumas teimosas resistindo até a sexta seguinte, ontem. Daqui para a frente, só trabalham no “front” os médicos, caixas de supermercado, farmacêuticos, feirantes, motoristas, os essenciais. Para mim e para o Gabriel, mais do que acostumados ao home office (apesar de ele ter sido obrigado a frequentar a empresa nos últimos dias, organizando a quarentena no braço porque ninguém queria se responsabilizar), hoje será o primeiro dia de rotina verdadeiramente alterada. Não ficamos ociosos durante a semana como tanta gente parece ter ficado, enlouquecendo em maratonas da Netflix e jogos de Stop nas redes sociais. Mas hoje… Bem, hoje é sábado, e não vamos bater perna no Centro, na Liberdade, na Paulista, no shopping, no parque, em nenhum lugar. Não vamos chamar amigos para tocar violão, nem visitaremos nossa sobrinha, ou nossa afilhada, nem nossos familiares. Não vai ter cinema, exposição, nem um jantar num lugar legal. 

Não sei se alguém imaginou que o Apocalipse seria assim, tão pacato e silencioso, mas eu fui pega um pouco de surpresa. Adoro o silêncio, de verdade, mas há algo de sinistro neste aqui. Tinha visualizado minha versão do isolamento maravilhosamente produtiva (shame on me) – tenho pilhas e pilhas de leituras me aguardando e aparentemente nem todo o tempo do mundo é suficiente – mas apenas me concentrar já tem sido um desafio. Vocês também estão se sentindo assim?

Acho que o sentimento que me pegou foi o de estar fora da realidade. Não é o distanciamento, não é falta do que fazer, não é medo de adoecer: é a sensação de chão insólito e paredes a desmoronar. Como um personagem de um conto de Philip K. Dick que já não sabe se os prédios à sua volta são meras simulações, se ele é mesmo humano ou sequer existe de verdade. Fico pensando que, qualquer dia desses, irei mencionar a pandemia a alguém que fará uma cara de susto, de interrogação. “Mas que pandemia? Do que você está falando?”, e então saberei. Era tudo um sonho, uma alucinação, um momento de delírio provocado por excesso de leitura ou falta de socialização. Será que fiquei em casa tempo demais?

Mas esta foi só a primeira semana e as coisas tendem a se normalizar. Digo, a encontrar um novo padrão de normal, que nem de longe será o que chamávamos por esse nome até a semana passada. Uma hora, vamos nos acostumar com as relações à distância, com videoconferências, com um perpétuo ‘casual friday’ e com cumprimentos sem beijinhos ou apertos de mão. Apreciaremos distância, mas desejaremos no fundo uma proximidade que até então parecia bobagem. Mensagens de texto talvez virem ligações; emojis, mensagens de voz. Abraços ficarão mais raros, e mais longos, e mais sinceros. Mas raros.

Lavaremos nossas casas, faremos nossa própria comida, talvez nossos cabelos fiquem desajeitados por um tempo. Vamos nos exercitar em casa, todo mundo acompanhando o mesmo treino no youtube – faremos Yoga, funcional, quem sabe uma Zumba já que ninguém está olhando. E vamos compartilhar memes e rir disso tudo, enquanto houver internet. 

Mas não celebraremos aniversários. Nem casamentos. Daremos os parabéns detrás das telas dos nossos celulares e desligaremos antes que nos vejam chorar.

E é provável que reduzamos radicalmente o consumo. E que vários pequenos produtores, criadores, realizadores caseiros por situação, passem a fazer mais sentido do que algumas grandes empresas desertificadas. E que eles se ajudem, se reinventem, e redescubram o poder do coletivo – mesmo à distância. E que nós os ajudemos, nos reinventemos, e redescubramos o poder do coletivo, principalmente à distância. E que essas grandes empresas não venham a quebrar, mas percebam que são capazes de mudar, e ajudar. E de participar, e doar, e colaborar como todo mundo. Porque sair dessa vai ser mesmo um trabalho de todo mundo. Um trabalho criativo de todo o mundo.

E vamos ter menos dinheiro, eu sei. Alguns de nós, nenhum. Mas quem sabe não passemos a olhar com mais carinho para as coisas públicas, para o outro, para o idoso, para a ciência, a filosofia, e quem sabe não troquemos o mito da eterna competição pelo da natural colaboração? E quem sabe no meio de toda essa reinvenção não repensemos, também, nosso impacto nas florestas, nas águas, no ar, no mundo fora do nosso mundo?

Quem sabe.

Mas hoje é só mais um dia no Apocalipse, e tudo ainda soa como um sonho vívido ou um longo feriado. Por aqui, vamos tirar o pó do apartamento, fazer comida para a Cacau e, enquanto o Gabriel prepara uma foto, vou terminar este texto antes que ele me devore. Depois, sei lá. Jogar video-game? Assar um bolo de chocolate?

Porque sem chocolate não há mesmo futuro possível.

5 comentários em “Apenas mais um dia no Apocalipse

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