O que sua parede diz sobre você?

Vou fazer uma pergunta indiscreta: quem é você sem maquiagem? Com a parte de baixo do pijama escondida sob a mesa, camisetinha mal passada e cabelos presos para não pentear, sem salto, sem celular, sem aquele toque intelectual-chic do copo descartável do Starbucks, sem crachá, sem uniforme, sem pressa, sem gente em volta de você? O que aquela parede nua diante da câmera do seu computador conta de verdade?

É que, em tempos de quarentena, muita gente tem pensado em como ocupar o tempo livre (um tempo ainda misterioso para mim, ocupada como sempre ou ainda mais que o normal), como entreter as crianças, como continuar trabalhando, ganhando dinheiro, como convencer os idosos a ficarem em casa, contrariando o que disseram na TV, como se exercitar. Mas a explosão de videoconferências tem tido um efeito colateral um tanto interessante: a exposição repentina das nossas casas, sem preparo e sem dress code. Estamos vendo no celular, no notebook e na televisão um desfile de casas de verdade, sem produção de revista, sem iluminação profissional, sem cenografia montada para a entrevista ou para a reunião. Casas de professores e alunos e chefes e estagiários e especialistas e repórteres e doutores, tudo misturado. 

E são as paredes, em particular, que me têm fascinado. Algumas exibem quadros antigos que parecem ter acompanhado uma família por décadas a fio, até que ninguém mais sabe direito de onde veio ou por que está lá. Outras dão para janelas fechadas, pretas ou metálicas, do tipo que o prédio não deixa personalizar. Muitas apoiam estantes, livros compondo o habitat natural de acadêmicos e jornalistas, e ainda não vi plantas, mas aguardo ansiosamente. Mas muitas, também é verdade, exibem uma imensidão de branco, bege, acinzentado, vez ou outra com um antigo suporte de TV já sem utilidade ainda preso à altura do rosto, um prego que sobrou do quadro tirado ou um furo que ainda não foi tampado. (Prevejo um aquecimento no mercado do design de interiores, anotem aí.) E, se você der sorte, pode vislumbrar camas, sofás, portas de armários, cães, gatos, filhos, pais, maridos e esposas correndo de um lado a outro na esperança da invisibilidade (ou justamente o contrário). 

Videoconferenciar nos tem dado a chance de espiar toda uma vida até então disfarçada em escritórios e salas de aula, coberta de um figurino social calculado à perfeição com base em gerações inteiras de experiência e know-how. Para a distância, porém, não há modelo: temos que aprender a lidar com pessoas despidas de suas personas profissionais e revestidas, mesmo que sem querer, de uma humanidade que nos arrebata tanto pela estranheza quanto pela familiaridade. De alguma forma, de repente fica óbvio o quanto somos iguais.

E não consigo deixar de pensar que talvez isso nos diga alguma coisa importante sobre ficção. Sobre o fato de que o que dizemos ser “real” tem na verdade muito de “ficcional”, já que cobrimos nossas vidas por todos os lados de histórias que contamos sobre nós – umas verdadeiras, outras nem tanto, e quem é que pode dizer qual é qual? O que sei é que, sem essas histórias, nos tornamos todos mais parecidos do que gostaríamos de acreditar, e ficamos vulneráveis, expostos, sem controle. Mas ficamos mais próximos também. Pois sob as histórias públicas escondem-se sempre outras narrativas não-contadas – domésticas, pessoais, nossas e de mais ninguém, pelo menos até agora. E é certo que podemos nos importar mais ou menos com isso, mas todos estamos dando nossas caras a tapa. Ou nossas casas. E as paredes, nuas ou decoradas, estão aí para nos denunciar.

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