Escrever ficção

Acho que o sonho da minha vida era escrever ficção. Assim, daquelas que você devora numa noite, vendo um capítulo puxar o outro e esperando que tudo se amarre no final, revelando uma rede bem desenhada, brilhante, pincelada em detalhes espertos ao longo de uma narrativa que não te deixa dormir… Mas… A verdade é que nunca consegui terminar nem mesmo um microconto. E dizem que admitir é a parte mais difícil, né?

Eu sei que parece loucura. Quem me conhece sabe que eu posso construir cenas interessantes com quase qualquer coisa que alguém jogue para mim (sabe aqueles desafios malucos: escreva um parágrafo que contenha um papagaio, um fósforo aceso, cinco adjetivos e a cor azul? Adoro.), mas dificilmente faço isso porque sei que não vai dar em nada. Uma hora, na segunda ou na décima página, dificilmente mais longe que isso, vai bater a certeza de que nada daquilo faz sentido. Vou dizer que falta uma história maior que seja tão convincente quanto cada quadro, e que falta objetivo. Falta verdade.

Você pode não perceber, mas eu vou saber que aquela história, sedenta por um começo, um clímax e um fim, nunca existiu antes de cair de pára-quedas no papel pelos movimentos impulsivos da minha mão. Ela não era a expressão elaborada de uma grande mensagem ou uma trama que eu “precisava” colocar em texto, “dar à luz”, “tirar de mim”. Era muito mais simples que isso. Ela nascia e morria ali mesmo, no susto, na tinta fresca.

Talvez falte imaginação. Talvez técnica, talvez uma boa ideia, talvez um pouco mais de coragem e menos mimimi. Mas é provável que eu simplesmente não tenha a natureza fingidora, ambiciosa, desapegada de um “verdadeiro” autor… Um de ficção, quer dizer. Que é o que conta, não é?

Afinal, qual o sentido em ser escritora se não para “contar histórias”? O que vou responder às pessoas que dizem, mais otimistas que eu, que “queriam ler meu livro”, que “já passou da hora de eu publicar meu primeiro… ahm… romance?”, escrito num guardanapo velho como os de J.K. Rowling e eventualmente transformado em filme, série, documentário, quebra-cabeças, toalha de praia, Funko Pop? Como vou ser famosa, ter leitores, jogar pequenas curiosidades sobre meus personagens de tempos em tempos nas redes sociais e dar conselhos de vida a fiéis seguidores, se não tenho sequer um personagem com quem brincar?

Para desespero do meu sonho autoral, pareço não ter outras vidas a narrar senão esta aqui. Nem experiências inventadas nem mundos fantásticos, nenhuma história genial brotando dentro de mim. Só tenho ao meu mundo, e à minha mente eternamente insatisfeita, e às minhas dúvidas, e meus insights, e aos meus erros, e aos meus medos, e à minha sombra. Só tenho a mim. E o que eu escrevo, quis o destino, é isto aqui.

Vai ter que servir.

2 comentários em “Escrever ficção

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