Perdoe minha paranoia

Perdoe minha paranoia, mas eu não vou sair agora. 

Tenho guardado uma coleção de abraços para quando tudo isto acabar. É uma gaveta grande que guarda carinhos e cafés compartilhados e longas caminhadas, e passeios sem rumo e churrascos no sol; mas tenho outra, ainda um pouco vazia, que carrega o sonho de conversas mais leves sobre como aquele tempo foi louco e passou. Lembra quando a gente não aguentava mais ficar em casa? No fim aguentamos e ficamos seguros, e passou. Que bom.

Então te peço pra aguentar um pouco mais… 

E que perdoe minha paranoia, porque ela é tudo o que posso oferecer agora – é minha arma e escudo nesta guerra de nós contra nós. Escudo para mim, para você, e para minha vizinha de porta cuja mãe idosa vive a alguns andares daqui. Penso em você todos os dias, mas também penso nela e na vizinha da minha professora que morreu dessa pandemia, e no vizinho da minha amiga que também não aguentou, e penso de novo em você e em todos nós e nas conversas que ainda vamos ter… 

E espero que este tempo de medo passe logo, mas, perdoe, não quero que passe antes da hora. Porque, se a ordem não vai vir firme e resoluta, de cima, de quem pode, se não nos vão mandar ficar em casa, quietinhos, tranquilos, devidamente testados e subsidiados, então é preciso que cada um de nós cuide do que pode cuidar. Que fique, não saia, e que abrace, se quiser, só um pouquinho do que hoje parece excesso ou paranoia. Não faz mal. Eu chamo de amor. E esperança, porque é coisa de quem acha que esta distância vai passar. 

A paranoia também vai passar, prometo – mas por enquanto eu preciso dela. Preciso estar longe e me achegar assim, por palavras e vídeos, e fotos, como dá. Perdão.

Não sei se o mundo vai mudar tanto assim (são justo os traumas que a gente esquece), mas tento, em meu casulo, fazer minha parte de dentro pra fora. Em casa a gente parou: repensou, reorganizou, se cuidou, se limitou, se afastou de umas coisas, se aproximou de outras, trabalhou, estudou, descansou ,conversou, olhou para fora e para o Jaraguá e para o laranja-roxo do pôr-do-sol. 

Você já viu esse pôr-do-sol?

 

 

 

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