A magia das coisas

Vocês conhecem o Benedict Cumberbatch? Britânico, voz meio cavernosa, olhos estreitos, comprido… Às vezes usa uma capa vermelha, em outras um sobretudo com gola levantada? Não? Bem, eu gosto muito dele e ontem mesmo sua voz estava na minha televisão, saindo da garganta de um dragão. Mas por que estou falando de um ator?

Porque, em 2011, Cumberbatch interpretou meu monstro favorito no teatro londrino e eu fiquei morrendo de vontade de ver. Ele foi a criatura de Frankenstein numa adaptação comandada por Danny Boyle para o National Theatre. Boyle é o nome por trás de Trainspotting, Quem Quer Ser Um Milionário?, Yesterday e alguns outros sucessos não dos palcos, mas das telas, e o projeto tinha uma pegada intermidiática: a peça foi filmada ao vivo e transmitida em algumas salas de cinema ao longo dos anos seguintes. (Como os balés do Bolshoi, que têm feito parte da programação da Cinemark no Brasil há alguns anos e ninguém sabe.)

O fato é que na época eu não estava em Londres, e não pude assistir. Nem à peça, nem à filmagem, que não passou no Brasil. Não pude até ontem, quer dizer, quando a peça inteira chegou ao Youtube por iniciativa do próprio National Theatre – nas duas versões, com Cumberbatch ou Johnny Lee Miller alternando papéis, para você escolher.

Isso é coisa da quarentena, é claro – um mês e meio de isolamento faz as empresas reverem suas restrições –, e eles não foram os primeiros a oferecer versões virtuais gratuitas de seus espetáculos como um jeito de lembrar seu público de que ainda estão ali. Na semana passada, a Disney transmitiu no Instagram o famoso show de fogos e projeções luminosas que cobrem o castelo da Cinderela quase todas as noites no Magic Kingdom. Também soube que vários museus estão disponibilizando visitas online, e que uma das obras do Cirque du Soleil está no Youtube, completinha, como o Frankenstein. Ou seja: por algumas centenas de reais a menos, você pode ver exatamente a mesma coisa que veria se estivesse lá, cortesia do Corona.

O que me leva a um pensamento contraditoriamente otimista: o de que não, não é a mesma coisa. E que a quarentena está provando isso.

Ora, enxergar Cumberbatch ou a Malévola ou os acrobatas-insetos no celular, no notebook, ou na melhor tela 4K que você tiver em casa é um privilégio. Mas há algo de mágico – mágico mesmo – na experiência de vê-los como pequenas formiguinhas por olhos míopes dentro de um ambiente escuro completamente dedicado a isso. Existe uma euforia, um suspense, uma sensação inexplicável de “acontecimento único” num evento ao vivo (música, teatro, até cinema em certa medida) que transforma nossa presença num “testemunho”, mais do que mera “audiência”. É uma sensação meio irracional, se você pensar, já que peças são reencenadas diariamente e o show da Disney é matematicamente calculado para ser idêntico a cada noite. Mas é real.

E a gramática concorda comigo. Pois aprendi com uma professora (pode chamar de “deusa suprema das gramáticas”, se quiser) que o verbo “assistir” carrega a preposição “a” como uma herança antiga, de quando assistíamos a eventos de corpo e alma, presentes ativamente numa experiência compartilhada. Com o tempo, o “a” foi caindo em desuso pois a “assistência” se tornou passiva, via telas de TV ou computador, mais parente de “ver” do que de “participar”. 

Não tinha entendido até agora o que ela queria dizer… Mas hoje ficou óbvio: não é possível assistir ao Frankenstein de Cumberbatch sem preposição. Por trás da tela, a peça se resume a imagem e som – o que é incrível, mas não tem você. E não tem cheiro, suor, tremor, nem aquela sensação inexplicável de que a realidade ficou por algumas horas trancada do lado de fora, excluída de um lugar comunal, grande ou pequeno, onde a única coisa que importa, a única coisa que existe e que se impõe sobre o tempo e o espaço e o eu e o nós, misturando-nos como massa de bolo, é a obra de arte. 

E a arte é mágica quando é vivida.

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