Adaptação

O Gabriel conversava com um amigo outro dia quando ouviu uma frase que ficou com ele por dias: a situação não vai mudar, o brasileiro é que vai se adaptar. E pensei que essa foi a melhor síntese que já ouvi sobre a condição brasileira – não só na quarentena, mas por toda a nossa teimosa História. Mas também pensei, depois de algumas horas de desesperança profunda na humanidade, que eu podia tentar enxergar um lado bom nisso.

Demorou um pouco. Muito. Primeiro, procurei um filme “tranquilo” para assistir à noite, algo pouco agitado e sem violência, e acabei escolhendo o que provavelmente era a pior opção no catálogo. Uma que revirou meu estômago e me empurrou para aquela desesperança profunda do parágrafo anterior, mas que eventualmente me ajudou a dar a volta por cima pela força do ódio. Era um drama estadunidense inspirado em fatos reais chamado The Report, na Amazon Prime. 

O filme, que Gabriel descreveu nos primeiros minutos como “muito americano”, logo jogou nas nossas caras cenas familiares até demais: imagens de tortura, narrada em detalhes, ocorrida em porões como os nossos, décadas mais tarde e em países do Oriente Médio. Justificadas às autoridades da CIA no pós-11-de-setembro por sua “eficácia cientificamente comprovada”, numa lógica tipo Terra Plana. Tortura mesmo, das que a gente conhece bem: pessoas nuas, afogadas, sufocadas, espancadas, enterradas vivas com baratas, etc, etc, etc, etc. Tudo envelopado e selado bonitinho como “técnicas avançadas de interrogatório”, pra presidente ver.

Sei que a esta altura eu nem deveria me incomodar, mas acho que fiquei sensível de uns anos pra cá… E uma coisa em toda essa narrativa me caiu especialmente mal: o fato de que personagens de todos os níveis de autoridade e formação estavam dispostos a discutir a questão como se o dilema fosse real: “é justificável torturar alguém se isso trouxer as informações que me interessam?” Ora, me poupem. É como perguntar se vale a pena “sacrificar” a economia por alguns milhares de vidas (dica: a economia só existe por causa delas).

E essa pergunta constantemente repetida me levou a uma constatação óbvia de algo que a gente finge não ver: a de que a verdade, perdoem-me os jornalistas, no fundo é irrelevante. Houve tortura no Iraque? No Brasil? Bem, se conhecer os fatos fizesse diferença, não teríamos a eleição de Trump logo depois da divulgação desse “escândalo” que “ninguém sabia” e que, pelo jeito, preferiram não saber. Nem teríamos apologia a torturador vindo direto do Planalto, porque “sempre houve tortura”, como disse a Secretária, então tudo bem. Se você não pode mudar o mundo, adapte-se a ele.

Pois a ironia é que a gente morre de medo de mudanças, mas, sem perceber, se adapta a qualquer realidade lamacenta que joguem sobre nós. Se adapta ao certo e ao errado e a tudo o que até ontem parecia impossível – mas o impossível está sempre um pouco mais pra lá. Somos tão flexíveis que, de um dia para o outro, nos acostumamos a viver isolados entre onze mil mortes sob um governo que é misto de quinta-série e Terceiro Reich – e a gente se engana acreditando firmemente que nada poderia ser melhor. Porque a gente é bom, muito bom, nesse jogo de se adaptar.

Mas eu prometi que ia encontrar um foco de luz nesse túnel de horrores, e vou tentar. Talvez perceber que você é adaptável seja perceber, também, que você é capaz de mudança. Mais do que pensa. E você pode sair da caverna sem medo de que o sol vá te queimar. Não vai. Você conseguiu viver quase dois meses sem consumir o que consumia, e o céu não desabou como te prometeram. Conseguiu passar dias inteiros com a sua própria companhia, e não enlouqueceu como te alertaram. Você cuidou da sua casa como não julgava possível, e aprendeu o que realmente significa ter um “lar” (e talvez tenha lembrado que nem todo mundo tem). Sentiu saudades que andavam atropeladas pela pressa dos trilhos e aprendeu com seus filhos coisas que nem sabia que tinha esquecido. E sentiu saudade da sua vida “normal”, mas sentiu menos saudade do que esperava do que antes julgava essencial. 

E a vida seguiu, e você se adaptou. 

E se a gente se adaptasse a um mundo melhor, para variar?

 

 

Foto: Gabriel Almeida

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