Batatas fritas

Um dia desses, uma amiga me contou uma notícia bastante aleatória sobre a França: desde que a quarentena começou, toneladas de batatas estão sendo perdidas por lá, e isso até virou uma pequena crise. A princípio, não entendi por que, especificamente, falavam das batatas (não está tudo em crise hoje em dia?). Mas então li o resto da mensagem: tinha despencado – radicalmente – o consumo de batatas fritas.

Fiquei uns minutos pensando nessa informação e decidi que ela era muito mais interessante do que parecia. Pessoalmente, tenho cozinhado mais do que nunca e imagino que a batata seja um ítem bastante essencial em qualquer cozinha, no Brasil ou na Europa… Mas, fritas? Bem, fritas são outra história. 

Pois que outra comida diz “encontros sociais” mais do que “uma porção grande de fritas, por favor”? Hambúrgueres combinam com lanchonetes, é claro, mas eventualmente podemos pedi-los em casa e os comemos cada um em seu lugar. Pipoca? Eu e o Gab fazemos toda semana para acompanhar um filminho e, mesmo no cinema, dividíamos um balde, no máximo, entre dois. Mas batatas? Ora, batatas. Qual é a primeira opção que vem à mente quando um grupo enorme de amigos se encontra num bar? Qual é o único consenso possível diante de uma porção de onion rings, um filé aperitivo, croquetes caríssimos ou uma farta e barata coleção de batatas fritas – nuas, com cheddar, tostadinhas, fininhas, largas, com alho ou maionese da casa? Não sei na França, mas no Brasil nenhum bar que se preze pode sobreviver sem uma dessas.

E essa repentina mudança de hábitos, essa vida despida de fritas coletivas, me fez pensar em como criamos nossas tradições em primeiro lugar. Como foi que aprendemos que “socializar” é sinônimo de compartilhar batatas? O que fez da comida – qualquer comida, do almoço de negócios ao cafezinho entre aulas – esse símbolo máximo e indispensável de nossa vida juntos, lá fora? A gente às vezes não percebe, mas nossa relação com a comida diz muito sobre como nos moldamos a viver.

E, se nossas vidas mudam, se de repente somos todos confinados em nossas cozinhas pessoais, é de se esperar que o jeito como comemos também venha a se transformar. Voltaremos às batatas fritas sem um mínimo de pé atrás? Abraçaremos marmitas, garrafas pessoais, lanches feitos com o pão que aprendemos no Youtube a sovar, ou correremos em massa de volta aos buffets por quilo com nossos empoeirados crachás?

Não sei. Mas sei que, aqui, algumas coisas já começaram a mudar. Eu e o Gabriel, que nunca tínhamos pedido uma refeição por aplicativo, enfim nos rendemos à modernidade e isso alterou consideravelmente os nomes em nosso cardápio semanal. Faz sentido: se na rua as opções se resumiam às mesmas 5 ou 6 marcas que se repetiam em todo e qualquer shopping, galeria ou avenida comercial, em casa temos o poder de escolher como quisermos – por tipo, qualidade, preço, simpatia, distância, indicação ou foto bonita no Instagram. E nunca escolhemos nenhum daqueles, nem é preciso falar.

Mas, escolhendo, nos tornamos também conscientes do que esperamos do lado de lá; e a comida, desautomatizada, de repente ganhou rosto, tempo, e virou uma via de mão-dupla que não dá mais para ignorar. Hoje peço uma refeição e imagino a cada garfada um/a chef em seu avental, olhando orgulhoso/a para o que criou, e penso: “Obrigada!”. E às vezes mando uma mensagem, pois sei que todo contato é bem-vindo em tempos distanciados. Talvez leve isso para os tempos normais.

E muitas vezes o chef é o Gabriel – mas também é bom valorizar quem está sempre com você. Então digo a ele que “a comida está demais”, e ele responde que “a gente se diverte fazendo, por isso é demais”. E então, em vez de pagar a conta, vamos lavar mais uma vez a louça e pensar no que faremos para os nossos amigos quando tudo isso acabar… E se, de repente, a gente fritasse umas batatas?

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