Depois do fim do mundo

Sempre achei este período entre o Natal e os primeiros dias de janeiro um momento especial. Tenho a tradição de arrumar meus armários, minhas gavetas, meus cadernos, consolidar todas as listas de filmes, séries, livros e o que quer que seja que resolvi anotar naquele ano e virar uma página nova, abrir um caderno novo ou pregar uma nova folha na parede (ou todas as anteriores) e escrever os quatro números que me acompanharão todos os dias do ano que está por vir. Gosto de começos. Gosto de ciclos fechados, metas e planos. Raramente os cumpro, mas isso pouco importa. O prazer está em fazê-los.

E foi por isso que uma frasezinha de uma animação que vi no dia de Natal me cutucou de um jeito tão incômodo, como se olhasse para mim e me chamasse de tola. “E agora?”, perguntava o personagem que acabara de realizar seu sonho; “Agora, voltamos aqui amanhã e fazemos tudo de novo”, respondia a outra, mais experiente, rindo da expressão mista de felicidade e decepção do colega. “Voltamos amanhã e fazemos tudo de novo”, assim, sem prêmio ou cerimônia. Sem a expectativa da primeira vez. Sem a ansiedade, o medo, o “será que eu vou conseguir?” ou “será que eles vão gostar?” que tinha transformado a estreia num sonho, o sonho numa missão de vida, numa meta, num simbólico e especial recomeço. Uma página nova, limpa e intocada. Pois o sonho agora deixava o reino da imaginação para se transformar em rotina, em caderno usado, não mais um começo. Apenas meio. Tudo é meio. Maldita Pixar.

Mas a autora Ursula K. Le Guin, minha favorita e amada, concordaria com esse diálogo cruel. A ideia aparece aqui e ali na sua obra, mas há um conto chamado The Matter of Seggri em que ela diz com todas as palavras: “Eu aprendi que a história não tem início, e nenhuma história tem fim. Que a história é toda um emaranhado, toda meio”. É do taoísmo que ela tira essa sabedoria, mas a ficção científica, onde ela se esbalda, adora essa ideia. Basta olhar para os enredos pós-apocalípticos.

O nome já avisa: PÓS-apocalípticos. Aquilo que acontece depois do fim do mundo. Depois do desastre. Depois do “evento”, como tantos filmes, séries, livros e jogos gostam de chamar (na preguiça de desenvolver aquilo que, nessas histórias, de fato nem importa tanto – a guerra, a radiação, o impacto de um meteoro, uma doença misteriosa, qualquer coisa que tenha sido capaz de aniquilar uma parte razoável da humanidade em pouco tempo). Na verdade, essas histórias têm em comum a certeza de que o fim nunca é o fim de verdade. É quase o fim. É um susto, sabe? Um chacoalhão necessário para que os sobreviventes (e sempre há sobreviventes) percebam que o que é essencial nunca muda: seres humanos sempre serão humanos, mesmo nas condições mais inóspitas – para o bem e para o mal. Sempre haverá comunidades, sempre haverá guerras. E arte, como lembram algumas das melhores obras. Certas coisas permanecem, se repetem e se desenvolvem, devolvendo àquelas pessoas o mais cedo possível o senso de “vida normal”.

Pois não é isso que temos ouvido todos os dias desde que “pandemia” se estabeleceu como A palavra de 2020? Que o “novo normal” vem aí, virando a esquina? Que podemos ficar tranquilos, porque a vida irá “voltar” assim que a pandemia acabar, à meia-noite do 1º de janeiro de 2021, ou no máximo no dia 25 que é quando Doria prometeu nos vacinar? Espere só até perceber que o mundo depois do fim do mundo se parece um pouco demais com o que tinha antes dele… Que o que houver de mudança não terá acontecido na data reservada, e a vida não terá parado nem por um segundo (nem mesmo em 2020!). E talvez você descubra, como a Ursula e a Pixar e todos os pós-apocalípticos, que a vida não acontece em datas especiais, que ela não obedece começos e fins porque ela é toda meio. Um emaranhado eterno e cotidiano de listas inacabadas e páginas usadas.

(Dito isso, vou continuar minha arrumação e separar um novo caderno para 2021.)

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