10 Coisas (meio aleatórias) que eu amei em 2020

“2020 foi um ano esquisito” deve ser o eufemismo da década. Este ano foi meio bizarro para todos, especialmente para aqueles que, como eu, se trancaram em casa pela maior parte dos últimos dez meses colecionando pesadelos sobre máscaras esquecidas, visitas descuidadas e aglomerações. Mas a verdade, se querem saber, é que ficar em casa talvez nem tenha sido o mais estranho por aqui. 

Muito antes de qualquer quarentena, houve um tempo em que eu assistia a todo o tipo de filmes, primeiro seguindo recomendações malucas dos funcionários de uma pequena videolocadora, depois acompanhando o farto calendário de estreias no cinema ou no streaming. Foram anos em que eu via blockbusters, filmes de arte, documentários, filmes bons, filmes médios e muitos, muitos filmes ruins, sem distinção. Curioso que nunca pensei que sentiria falta dos filmes ruins, mas cá estamos: aparentemente, passar o ano em casa não é sinônimo de zerar o catálogo da Netflix. 

Se não falta tempo, falta disposição. Ou inspiração. Quando não há assessores, colegas e o prazo no fim do dia empurrando novos achados, é fácil cair na tentação de clicar nos títulos mais seguros, ou rolar pela lista de recomendações até a hora de dormir, a atenção dividida entre a tevê e o Instagram. Um comfort food para a mente ao final de um dia cheio de leituras pesadas faz mais sentido do que um soco no estômago, não é verdade? 

Pois o fato é que, se desde 2018 eu vinha me afastando do trabalho com cinema, 2020 foi o ano em que, pela primeira vez, não escrevi nem críticas nem listas, e me desliguei das bilheterias e dos lançamentos (sorte minha que tenha sido um ano de menos estreias em geral). Para ser justa, passei meses escrevendo sobre cinema, mas o mais perto de uma resenha que cheguei foi um artigo para uma revista científica sobre um documentário que eu já tinha visto (e que recomendo muito aliás, chama Espero Tua (Re)volta, sobre os movimentos estudantis no Brasil pré-Bolsonaro).

Conto tudo isso para dizer que, ao invés de uma lista de “melhores filmes” que estrearam em 2020, termino o ano com uma lista absolutamente pessoal de coisas diversas, de filmes a contos, jogos, séries e livros, novos e antigos – tudo o que me tocou um pouco mais profundamente nesse período e que acredito que vou levar comigo para o ano que vem (e além).

Bora lá então?

Jogo

Horizon Zero Down + Frozen Wilds (Guerrilla Games, 2017)

Horizon Zero Dawn: Complete Edition

Passar meses em casa ao lado do seu marido pode ficar muito mais fácil quando vocês têm algo para fazer juntos, naqueles momentos em que os dois cansaram de suas obrigações ou só querem matar o tempo até a hora do jantar. Por sorte, eu e o Gabriel temos um gosto parecido para jogos e, apesar de eu não ver muita graça nos mil e um Batmans que ele adora, ambos adoramos jogos de aventura num estilo mais RPG, com mundos enormes, puzzles e missões secundárias que não envolvem apenas matar um monte de gente e acumular pontos de experiência. Horizon, que jogamos no PS4, foi uma indicação de um amigo dele, fotógrafo (de audiovisual), e de cara já entendemos por quê: o visual é incrível e o conceito, também. A história se passa num futuro pós-apocalíptico em que a humanidade parece ter regredido para uma fase tribal, mas agora convive com máquinas em forma de dinossauros e elementos tecnológicos que são tidos como heranças de um passado distante, sobre o qual não se sabe quase nada. Ao longo do jogo, que é imenso, vamos descobrindo o que aconteceu com a civilização e o que são aquelas criaturas, enquanto lidamos com gangues, máquinas e diferentes crenças religiosas geradas nesse estranho mix entre um passado futurista e um futuro com cara de passado. 

Série

Tales From the Loop (Nathaniel Halpern, 2020) 

Outra indicação (essa de um diretor), a série da Amazon é inspirada num livro de pinturas do sueco Simon Stålenhag e conta, em oito episódios de uma única temporada e sob um look retro-futurista (to sentindo uma tendência, hein?), “causos” de uma cidadezinha que abriga uma estação de pesquisa sobre os mistérios do universo… É difícil explicar, mas vou simplificar assim. Cada episódio gira em torno de um personagem e narra um evento inexplicável, como uma troca de corpos ou uma viagem no tempo, mas o foco mesmo está nas consequências disso para as relações naquela comunidade, e nas lições de vida por vezes bem amargas. O final foi decepcionante para mim, mas não tira o brilho da temporada.

Livros

In Other Worlds: SF and the Human Imagination (Margaret Atwood, 2011)

In Other Worlds: SF and the Human Imagination | Amazon.com.br

Confesso, não sou a maior fã de O Conto da Aia. Não assisti à série, mas o livro não me impressionou muito, então passei um tempo torcendo o nariz para a senhora Atwood. Porém, meu orientador me emprestou este livro ma-ra-vi-lho-so com ensaios e reflexões dela, e pronto. Ganhou uma fã para a vida toda. Comecei esse hábito de ler textos de não-ficção de autores de sci-fi por causa da Ursula K. Le Guin, e recomendo: quem escreve nesse gênero costuma passar muito tempo pensando sobre o mundo, a sociedade e tudo o mais, e é aí que está o ouro! Ah! A Margaret não admite que escreve sci-fi, mas escreve sim.

Semente de Bruxa (Margaret Atwood, 2019)

Semente de bruxa | Amazon.com.br

Já que abri as portas para a Atwood, resolvi arriscar esse livrinho que é uma releitura da peça A Tempestade, de Shakespeare, e devorei. O protagonista é um diretor de teatro que perde a filha e o emprego num curto período de tempo, sendo traído por colegas. Anos depois, ele recebe a proposta para trabalhar num presídio ensinando teatro aos detentos, e é lá que ele planeja sua vingança. (Mwahuahuauahua)

How to read literature (Terry Eagleton, 2013)

How to Read Literature (English Edition) - eBooks em Inglês na Amazon.com.br

Livros acadêmicos não costumam figurar entre meus favoritos, mas esse aqui foi uma delícia de ler e não consigo nem calcular o quanto aprendi com ele! Eagleton tem uma escrita leve e divertida e ganhou muitos pontos ao dar preferência ao pronome feminino em várias ocasiões em que precisava de um genérico. Nesse livro, ele aborda diversos aspectos da crítica literária e faz algumas das análises mais interessantes que eu já li, encontrando muito o que dizer sobre os menores trechos. Ah, e ele analisa Harry Potter pelo número de sílabas dos nomes próprios… Já te convenci?

Ubik (Philip K. Dick, 1969)

Ubik | Editora Aleph - editoraaleph

Tendo decidido que estudaria Philip K. Dick na dissertação, lá fui eu correr atrás de alguns clássicos dele que ainda não tinha lido, como Ubik. E, caramba, Ubik… Nele, Dick constrói um mundo que funciona como uma semi-morte, ou semi-vida, que é um estado de consciência muito confuso em que pessoas à beira da morte são colocadas, num misto de hospital e necrotério, para terem suas vidas prolongadas – e elas podem até se comunicar com os vivos, com algumas limitações. Como se não bastasse, a história inclui personagens com certos poderes psíquicos, como o de prever ou interferir em acontecimentos futuros (foi lendo contos de Dick que descobri que ele tem todo um universo de “mutantes” que nunca foi devidamente explorado no cinema). 

Filmes

Eu, Daniel Blake (Ken Loach, 2016) 

Crítica | Vencedor de Cannes, 'Eu, Daniel Blake' é filme ruim que todos  deveriam ver | by Rogério de Moraes | Redação Crítica | Medium

O filme é de 2016, mas só fui ver este ano na Netflix. E, apesar de ter sofrido um pouco durante a sessão (que tem 1h40, mas pareceu o dobro), me surpreendi tempos depois citando-o em diversas discussões, encontrando paralelos claros com a realidade brasileira (assisti dias antes de o auxílio emergencial ser anunciado, trazendo histórias muito parecidas com a do protagonista sobre pessoas que não conseguiam se adaptar às “facilidades” digitais do governo e acabavam se aglomerando nas filas da Caixa) e recomendando para todo mundo que eu encontrava pela frente. Pois é, tem filmes que precisam descansar para crescer… 

Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963)

Before Shankar's '2.0', birds went on the rampage in Alfred Hithcock's 1963  classic

A última vez que tentei assistir a Os Pássaros, foi quando a minha locadora fechou e fez um grande bazar a preço de banana. Lembro que procurei desesperadamente por ele, mas já o tinham levado e, estranhamente, demorei anos para encontrá-lo no streaming (depois mais alguns para efetivamente dar o play). Em 2020, tirei o atraso. E, cara… Que filme, hein? Achei o final tão delicado que fiquei alguns minutos olhando para a tela, meio sem saber o que fazer. A história é simples: pássaros atacando pessoas sem motivo, como um anúncio do desequilíbrio das coisas, das relações, das emoções, de tudo. Hitch não explica, nem precisa. Cada um que interprete seu apocalipse aviário. E não é que, uns meses depois, testemunhei dois passarinhos atacando um senhor numa varanda aqui na rua, e ele se defendendo com um guarda-chuva? Achei simbólico. Hitchcockiano.

A Despedida (Lulu Wang, 2019)

The Farewell', partilhar o fardo

Uma velhinha chinesa vai ao hospital fazer um exame, e sua irmã é quem olha o resultado. Ela tem pouco tempo de vida, mas ninguém lhe conta. Ao invés disso, a família decide organizar um casamento de mentira para reunir todos os parentes uma última vez, trazendo de volta à China a neta favorita Billi (Awkwafina), que mora nos Estados Unidos. A sinopse já dá vontade de chorar, mas o filme é gostoso, leve, engraçado e muito acertado nas críticas à idolatria da cultura americana, no questionamento da moral e no retrato das relações entre gerações. Coisa linda, e ainda é escrito e dirigido por uma mulher.

Conto

She Unnames Them (Ursula K. Le Guin, 1985)

She Unnames Them | The New Yorker

Ursula, né? Às vezes, com um continho tão pequeno quanto este que foi publicado na New Yorker em 1985, ela vira sua percepção de mundo do avesso e ainda completa com um tapinha no ombro e uma piscadela. O conto traz o ponto de vista de Eva, que, depois de ganhar seu próprio nome e ver todas as criaturas serem nomeadas por Adão, percebe o quão limitantes podem ser essas letras e essas classificações escolhidas para eles (por um homem, diga-se de passagem) e organiza uma reunião para discutir a questão. Cães e gatos, gansos e ovelhas colocam suas opiniões na roda e decidem se continuarão ou não usando as denominações que os dividem. (Psiu! Tem o PDF aqui).

E vocês? O que os marcou nesse 2020 tão fora do comum? O que viram, leram, jogaram, fizeram pela primeira vez? 

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