“A incrível história da Ilha das Rosas”: Utopia feel-good para abrir 2021

Quando ouvi falar num novo filme que se chamava A incrível história da Ilha das Rosas, lembrei imediatamente do curta de Jorge Furtado, Ilha das Flores – aquele sobre um lixão, que mostrava porcos, tomates e polegares opositores sucedendo-se uns aos outros num ciclo sem fim. Talvez você tenha visto na escola, sabe? Aquele. E achei curioso como, mesmo tão diferentes, as duas “ilhas” com nome de flor tinham alguma coisa em comum: ambas eram lugares fora da realidade, fora da civilização, longe dos olhos, apartadas do que se entenderia em qualquer tempo ou espaço por “terra firme”. Nenhuma das duas era uma ilha. E ambas eram incríveis.

A Incrível História justifica seu título muito rápido. Seu protagonista é um engenheiro italiano recém-formado com talento para inventor, que vive se chocando com a polícia por “esquecer” algumas leis na empolgação do momento – como quando circula pela cidade com um carro que ele mesmo construiu, mas sem placa, licenciamento ou carteira de motorista. Ora, não parece justo que uma criação tão original tivesse passe livre entre detalhes tão burocráticos? Que, não correspondendo ao padrão, obedecesse a regras próprias? Pois o filme nos coloca essa pergunta de infinitas formas, contrapondo-a com discursos muito bem dosados e explorando-a ao limite com sua trama principal: a construção de uma ilha-plataforma em águas internacionais, à beira de Rimini, onde esse engenheiro e um grupo de amigos decide criar uma nação independente. E consegue, mais ou menos.

Tudo isso ganha um sentido diferente quando se descobre que a história é real – com suas estripulias narrativas, é claro, mas real. A ilha-república existiu de verdade, e você provavelmente nunca ficou sabendo. Some a essa informação o fato de que ela existiu no ano de 1968, aquele em que estudantes de Paris ocuparam universidades, tchecos fizeram sua Primavera e o Brasil viu nascer a Tropicália, pouco antes de os americanos se unirem em nome da paz em Woodstock e Neil Armstrong pisar na Lua. Nesse cenário, a Itália também vivia uma associação entre os movimentos estudantis e operários e, como na França, escolas foram ocupadas, greves aconteceram e uma forte repressão por parte do governo (apoiado pelo Vaticano) ditou o clima nas ruas. É claro que esse governo não gostou de ter uma ilha independente atraindo turistas a 20 minutos de sua praia – mesmo que essa ilha tivesse apenas 400 metros quadrados e mais parecesse uma balada em alto-mar.

Il film di Netflix sull'Isola delle Rose che visse 55 giorni, con Germano e  Zingaretti
A Ilha das Rosas da vida real, construída por Giorgio Rosa em 1968

Giorgio, o engenheiro, não parece ligado a nenhum movimento especialmente politizado, mas seu anseio por liberdade e seu desprezo pelas regras refletem o espírito do tempo. Um tempo que sonhava com o fim das guerras (a do Vietnã estava em pleno vapor), de repressões violentas, de governos autoritários e do desrespeito aos direitos humanos, além de questionar com especial empenho as convenções sobre gênero e raça. Como se vê, as mudanças não aconteceram exatamente do jeito que aquela juventude imaginava, mas experimentos como a Ilha das Rosas ajudaram a entender o problema de um jeito mais literal – que é exatamente para que servem as Utopias.

Aqui, acho que vale explicar uma coisa ou duas sobre essa palavra… Utopias não são reais. Elas nunca se tornarão reais, e essa é parte da magia: uma Utopia é um experimento mental. É questionar “e se?” e colocar em cheque certas noções engessadas que estão empacando a vida real, e especular sobre o que poderia ser diferente para encontrar, naquela realidade toda, o que vale a pena manter e o que precisa ser renovado. Se realizada, a Utopia vai deixar de ser uma Utopia, mas, enquanto for promessa, ou ameaça, cumprirá seu papel muito bem, obrigada. 

A ilha de Giorgio se fez Utopia quando perguntou: “E se houvesse um lugar em que as leis praticadas hoje, em 1968, não se aplicam? E onde nenhuma lei ainda foi criada? Como seria esse lugar? O que as pessoas fariam se pudessem fazer qualquer coisa?”. E, diferentemente do que imaginam filmes como Uma Noite de Crime e outros pesadelos especulativos, as pessoas se contentaram em jogar as roupas ao mar, dançar e inventar infinitas misturas de vinho com frutas. Se uma ilha maior e mais estruturada ainda seria assim? Provavelmente não. Mas, aí, não seria utópica. 

O que emerge dessa história singular não é o sucesso ou fracasso da ilha, mas a percepção de que, com esse ato de rebeldia, aqueles jovens passaram a mensagem de que não concordavam com o controle que estava sendo exercido sobre seus corpos, e as autoridades (da Itália e das próprias Nações Unidas, ao menos no filme) responderam que não concordavam com a ideia de perder o controle sobre um pedaço minúsculo de terra, ou aço, ou mar, ou pele. Ao final dela (você já deve ter imaginado que a ilha não existe mais), as relações  ficaram mais claras. Entre indivíduo e nação, entre nação e nação. E entre um engenheiro e seu ofício.

A incrível história da Ilha das Rosas está em cartaz na Netflix e é uma boa pedida para pensar sobre o quão jovens são nossas repúblicas (a italiana não tem 80 anos) e o quanto já caminhamos, para a frente e para trás, nessa busca incansável por liberdade e organização. Mas também para rir, né? Porque 2021 precisa, e os italianos são ótimos nisso.

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