Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

A caixa em questão carregava suas telas, estabelecendo de uma só vez os dois temas centrais: a pintura – ou, melhor, o retrato, que aqui assumirá quase uma função fotográfica, mais ligada ao registro e à memória do que à criação – e a mulher. Ou as mulheres, tão isoladas em sua experiência que não se verão mais homens em cena, exceto por alguns segundos curtos perto do final. Não é coincidência que a história se passe numa ilha.

“Mulheres não podem pintar nus masculinos”, reflete Marianne, “mas essa não é uma questão de pudor. Sem noção da anatomia masculina, os grandes temas ficam fora do nosso alcance”.

Às vezes o cinema nos faz pensar que todos os tabus femininos já foram superados, mas não consigo lembrar de outro filme que tenha incluído um diálogo tão natural sobre menstruação e cólica, e daí para gravidez e aborto sem sinal de alarde. Pois as mulheres o têm feito, lembra Sciamma, desde sempre, das mais criativas formas. Legalmente ou não. E o tabu só se quebra quando visto, encenado, retratado.

Agora, se a cena da embarcação não foi suficiente para te conquistar, espere só alguns minutos e você será presenteado com um enquadramento perfeito de Marianne, nua, aquecendo-se em frente à lareira enquanto seca suas telas e sua roupa, num quarto enorme e escuro que outrora fora um salão de festas. As noites ali são muito escuras e, na ausência de eletricidade, a lareira ou velas desenham contornos nas personagens, mergulhando-as num brilho quente e alaranjado. Essa cor nos acompanhará durante todo o filme, alternando-se com um azul acinzentado que ora se expressa nas paredes, ora na luz da lua que vaza das janelas. Patti Bellantoni, no livro If it’s purple, someone’s gonna die, nota que esse tom de azul quase sempre sugere impotência, no sentido de que há uma força dominante contra a qual não se pode lutar, ou vencer. Parece apropriado. Já o laranja traz à tona o fogo do título e, acompanhado do figurino vermelho-escuro de Marianne, faz pensar que há, sim, algo de poderoso acontecendo ali, mesmo que seu fundo seja sempre escuro; sua existência, oculta nas sombras.

Marianne se envolve de fogo para secar as telas, as roupas, o corpo.

Tenho falado de Marianne, mas a jovem do título não é ela. A pintora é contratada por uma condessa para fazer o retrato de Héloise, sua filha (Adèle Haenel), para que um pretendente milanês possa avaliar sua aparência e decidir se irá ou não aceitá-la em casamento. Eles nunca se conheceram, evidentemente, e Héloise não está radiante com a ideia. Na verdade, ela se recusa a posar para um retrato e Marianne, disfarçada de dama de companhia durante o dia, terá que pintá-la em segredo, à noite, de memória. Que isso implica numa quantidade anormal de olhares desconfortáveis, é conveniente.

Mas Héloise não se permitirá vislumbrar tão facilmente. A primeira vez que aparece, ela sequer tem rosto. É num quadro do pintor anterior, que finalizou perfeitamente o vestido verde, mas borrou toda a área da cabeça. Depois, a criada Sophie (Luàna Bajrami) aparece carregando o mesmo traje, que, de tão estruturado, parece andar sozinho – novamente sem cabeça. Por fim, Héloise aparece de costas, vestindo um capuz, como se desafiasse Marianne a enxergá-la. É significativo que a vejamos como um quadro, um vazio, quase um fantasma, antes de a vermos como uma pessoa real. Não será assim seu casamento? Uma ideia no lugar de alguém?

Vestidos sem rosto se repetem de diversas formas.

E é para reforçar esse pensamento que a diretora escolhe o mito de Orfeu para ser lido pelo trio (formado por Marianne, Héloise e Sophie numa química perfeita): o poeta que desce ao mundo dos mortos para resgatar Eurídice, mas a deixa morrer novamente por descuido, por olhar para trás. Marianne suspeita que o ato falho seja proposital – que ele queria viver com a lembrança da amada, não com a mulher real… Faz pensar, não? Num filme sobre pinturas e retratos, o que se escava aos poucos é uma reflexão sobre o que é a mulher nesse mundo e nesse tempo: uma ideia, um poema, um quadro. Com a realidade é mais difícil lidar: ela inclui menstruações, cólicas e abortos. E sexualidade, e talento, e raiva. “A raiva sempre acaba ganhando”, comenta Héloise. Sarcástica.

A raiva, é claro, faz paralelo com as chamas que dão nome e cor à obra, mas o fogo também é literal. O vestido de Héloise se queima de fato em certo momento, com labaredas que vêm de baixo e trazem à memória outro tipo de calor: o das fogueiras que arderam sob as bruxas. Talvez seja disso que fala Sciamma, não sobre uma história de amor, apesar de esta ser, também, uma história de amor. Suas chamas são de atração, de raiva e de resistência. Em torno de Héloise, um coro repete em transe a frase “Fugere non possum”: não posso voar. E a jovem, destinada à fogueira, observa impassível como se dissesse: deixa queimar.

Um comentário em “Retrato de uma jovem em chamas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s