Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

Carne, disponível na íntegra nesse primeiro link que eu coloquei pra vocês (é do NY Times, pode confiar), é um curta documental assinado por Camila Kater que usa ilustrações e objetos do dia-a-dia (como um prato de cerâmica, que abre o filme) para visualizar, dramatizar e amarrar os depoimentos de cinco mulheres em diferentes fases da vida. “Este filme inclui imagens ‘gráficas’”, avisa uma mensagem irônica no início do vídeo. De fato, pode ser difícil de olhar.

O roteiro é dividido em cinco partes, intituladas de acordo com os pontos da carne no seu sentido mais literal: “crua”, “mal passada”, “ao ponto”, “passada” e “bem passada”. Já deu pra sentir o mal estar? Um curta em stop-motion sugerindo que o corpo da mulher é como picanha no açougue? Pois é, vai ter sangue.

Começamos, é claro, com a infância: carne jovem, inocente, mas um pouco gordurosa demais. Um corpo errado, né? Mas temporário, esperam. Não deve ser, só estar. Depois vem a adolescência e, com ela, a carne que sangra feito gente grande, mas ainda se vê criança por fora. Sangra e não morre, que coisa louca! Então, chega à mesa o filet mignon: corpo jovem, mas adulto, desenvolvido e sensual. Só que ele incomoda, provoca e pode matar (a mulher, sempre a mulher).

Após a refeição há o climatério, que mal se vê e sobre o qual não se fala. Ela que se adapte enquanto fechamos os olhos. E a menopausa, enfim, que é quando a mulher “deixa de ser mulher” por não mais poder tornar-se mãe. Como se isso fosse tudo o que ela tinha a oferecer: um casulo, um ovo. Sem sangue já se pode morrer.

O line-up de personagens tenta dar conta da extrema diversidade que engloba a experiência feminina (gorda, magra, branca, negra, trans, lésbica, jovem, velha), mas isso só chama mais atenção ao que elas têm em comum: a constante (super)visão de seus corpos por quem está de fora – homens, mulheres, família, médicos, mercado. Expectativas de quem as toma por carne e mal imagina que, do lado de dentro, elas são o universo inteiro.

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