Dica de livro: “Adultos”, de Emma Jane Unsworth

“– Você precisa confiar em si mesma.

– Não sei em quem confiar, porque não sei quem sou. Tenho trinta e cinco anos, estou na metade do caminho, e ainda estou esperando a minha vida começar.”

Adultos, Emma Jane Unsworth

Eu ia colocar um título engraçadinho – “Adultos (e outras palavras vagas)” ou algo assim. Mas cheguei à conclusão de que talvez vocês quisessem saber que isso aqui é uma dica de livro, não uma reflexão amargurada sobre certa fase da vida. Há muito o que dizer sobre ser adulto, é claro… Mas não me sinto especialmente amargurada hoje. Sinto que é um bom dia para recomendar um livro.

Comprei esse num impulso, é verdade. Desde dezembro vinha chorando escondido por não ter NADA para ler (desculpem, livros-que-ganhei-e-nunca-li) e, honestamente, a expectativa por passar mais um semestre imersa em obras acadêmicas me deprimia profundamente. Então, entrei na Amazon (traindo a causa das pequenas livrarias), olhei para a minha lista de desejos, acrescentei mais alguns e encomendei três: Sobre a Beleza, de Zadie Smith; Um Teto Todo Seu, da Virginia Woolf; e Adultos, de Emma Jane Unsworth. Esse último incluí depois de ler uma descrição que dizia “uma mistura de Bridget Jones e Fleabag” e, sinceramente, não precisei de mais nada. De repente percebi o quanto sentia falta de Renée Zellweger e seu falso sotaque britânico na minha vida.

Adultos chegou primeiro, numa caixa separada das outras. Como se o universo me dissesse para começar por ele. Ou quase. No dia anterior, eu tinha passado na biblioteca para buscar quatro livros para a pesquisa e estava radiante (exceto pelo fato de que um deles tinha vindo errado, mas decidi aproveitá-lo mesmo assim). Então, de uma hora para a outra tinham cinco capas olhando competitivamente para a minha cara, que respondia: uni-duni-tê? A escolha na verdade era entre os quatro: eu sabia que tinha que começar pelos teóricos.

Então atravessei 200 páginas da Emma Jane num sprint descontrolado em plena segunda-feira. Durante o dia. 

Em minha defesa, fiquei uma ou duas horas tentando focar em algum parágrafo de qualquer um dos quatro títulos que-eu-precisava-ler, e nada. Nada mesmo. Não desisti antes de tentar. Cara, eu escolhi estudar isso! Por que aquela capa branca novinha em folha ficava me chamando? Por que uma Bridget-Jones-Fleabag-millenial me atraía mais do que “A Linguagem Cinematográfica”? (Desculpem, pergunta óbvia?) 

Bem, talvez fosse só o cansaço. Mas já tinha me dado um mês de férias desde a qualificação, e estava quase empolgada para voltar ao trabalho. Ou talvez eu simplesmente precisasse de algo que furasse a bolha. Que bolha, você me pergunta? Eu também não sabia, mas suspeitei que havia uma.

E enquanto refletia sobre água e sabão, embarquei na história de Jenny McLaine (dura de matar?), uma jornalista que escreve uma coluna semanal num site supostamente (muito supostamente) feminista, falando de forma crua e irônica sobre as pequenas realidades do dia-a-dia, como “dividir o apartamento com outras mulheres” ou “ocupar o lado de fora da conchinha”. No início, sua vida parece a típica rotina de uma mulher contemporânea, observando o mundo com uma mente crítica que não desliga e queimando neurônios em busca da legenda perfeita (isso me cativou: é a legenda perfeita, não a foto) no Instagram. 

Olho para a tela.

CROISSANTS, UHU! #CROISSANTS

Será que essa é mesmo a melhor descrição para a minha experiência no momento?

Adultos, Emma Jane Unsworth

Esse começo me prendeu mais do que o restante, parecendo mais um conjunto de crônicas sarcásticas do que uma “jornada da heroína”. Porém, eventualmente o livro precisa se estruturar e os eventos começam a parecer um pouco menos reais e um pouco mais convenientes a uma narrativa de queda e ascensão da protagonista-viciada-em-redes-sociais. Mas os pequenos comentários ainda estão ali. O olhar analítico sobre o cotidiano, o universo feminino e as relações reais e virtuais segura a onda das viradinhas clichês. Não larguei.

Dois dias depois, quando terminei as 398 páginas (quem publica um livro de 398 páginas quer mostrar ao mundo que não tem TOC), dei um google na autora e descobri que ela era jornalista mesmo e já tinha escrito alguns artigos que eu tinha devorado no passado, como “How to talk to children (even if you don’t have any)”, no The Guardian. Ela era do tipo que escrevia sobre cultura e cotidiano com a mesma leveza de espírito, com a mesma sagacidade, trazendo um ponto de vista pessoal que nada tinha a ver com opinião, mas com experiência, reflexão, seus insights iluminando o óbvio como se o enxergássemos pela primeira vez. Ela era o que eu queria ser quando me tornei jornalista. 

E então, splash! A bolha já era. Minha bolha acadêmica imaginária, quer dizer. Era como se Emma Jane estivesse ali, segurando um alfinete enquanto ria da minha tentativa frustrada de provar que eu merecia ser levada a sério escondendo debaixo do tapete todo um passado mundano numa revista feminina (de moda e beleza, aquela coisa toda), num cargo de “social media”, ou numa redação em que minha principal função era organizar agendas, inventar listas bem-humoradas e me infiltrar em eventos culturais cheios de exclusividade, café e glamour, que mais tarde virariam textos que de fato seriam lidos, no mesmo dia, por pessoas comuns. 

E seu livro me lembrou de que eu amava todas essas coisas, e era mais feliz ali do que num lugar em que tudo o que eu faço tem que ser aprovado por pares e professores e instituições, depois de ser formatado e registrado e certificado para nunca mais ser encontrado por ninguém, quanto mais lido. Quando foi que estudar virou um negócio tão burocrático?

Bem, aquele livro não me atraiu feito um buraco negro para dizer que estudar é um erro, evidentemente. Mas para lembrar que pesquisar é legal desde que se mantenha pelo menos um pé ancorado no mundo, desde que aquilo amplie algo em você e não te feche num universo escuro e quadrado, falando sozinho até ficar sem voz. E talvez eu só precisasse desse sopro cômico de vida real em meio a essa monótona quarentena para me lembrar do que diabos estou fazendo aqui (tipo, vivendo). Pois no dia seguinte, comecei e terminei um dos livros acadêmicos, com anotações, post-its e tudo.

Agora só faltam três.

2 comentários em “Dica de livro: “Adultos”, de Emma Jane Unsworth

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