Minhas noites com Gigi

“…num instante, como um anjo guardião impedindo o caminho com o esvoaçar de um traje preto em lugar de asas brancas, um cavalheiro desaprovador, prateado e gentil, lamentou em voz baixa, à medida que me dispensava com um gesto, que só se admitiam damas na biblioteca se acompanhadas por um estudante da universidade ou munidas de uma carta de apresentação.”

Um teto todo seu, Virginia Woolf (p. 17)

Gigi = Virginia Woolf. Li um único livro dela e já somos melhores amigas, agora vocês que me aguentem.

O livro, no caso, foi Um teto todo seu. O segundo naquela compra de janeiro que vem competindo tão brutalmente com minhas leituras acadêmicas. Esse é fininho e, confesso, levei mais noites do que o necessário para terminar. Talvez porque quisesse degustar certas passagens com mais cuidado (espalhei post-its), ou talvez porque a noite simplesmente não seja o meu momento mais voraz – durmo cedo, sou dessas.

Woolf sempre esteve nos meus planos, é claro, mas ainda não tinha me conquistado. Tentei ler Orlando uns tempos atrás. Mas era uma versão eletrônica, desconfortável e distante (no site da biblioteca, não no kindle), e não durei muito mais que duas páginas. Um dia volto para retentar, juro. Tenho, também, um arquivo em PDF com pequenos ensaios, dos quais li alguns entre um artigo e outro, mas essa coisa de ler sentada ao computador me faz ligar a chave do estudo, e é o fim. Nada como o papel. E a arte de experimentar todos os movimentos disponíveis para o corpo humano em busca da posição ideal de leitura. Amo.

Pois soube da existência de Um teto todo seu enquanto estudava literatura feminista e, coincidência ou não, essa edição cor-de-rosa da Tordesilhas começou a aparecer em qualquer livraria que eu cruzava. Na época não comprei, mas ficou lá no canto da memória pra quando a hora chegasse – e cá estamos. O livro é de 1928, mas parece que voltou à moda de uns tempos para cá. Espero sinceramente que estejam lendo. Sabem, quando se começa a pesquisar o assunto, percebe-se o quanto a História se redescobre, mas também se re-esquece a cada quarenta ou cinquenta anos. Não podemos nos esquecer de tudo o que está acontecendo aqui. Nem do que aconteceu nos anos setenta, nem cem anos atrás nos tempos de Woolf. Woolf não, Virginia. Gigi. Sejamos íntimas (e íntimos) de quem fez as mesmas perguntas antes de nós.

Que perguntas? No fundo, a que este livro levanta é uma só: “qual é a diferença entre mulheres e homens na literatura?”. Isso é o que a autora se indaga quando é chamada para palestrar sobre “mulheres e ficção” em duas faculdades exclusivamente para mulheres, dentro de uma grande universidade britânica. Ela acaba se afastando de questões estilísticas, passa raspando pelas personagens literárias e volta seu olhar para as condições materiais da escrita feminina, no seu tempo e nos séculos que a antecederam. Assim, ela traça um histórico interessantíssimo da mulher-autora, refletindo sobre o quanto de liberdade, tempo e educação estiveram acessíveis a cada geração até ali, imaginando como seria ser mulher e escrever no século XVI de Shakespeare, no XVIII de Jane Austen (que escondia seus manuscritos), ou no XIX de Emily Brontë (obrigada a preencher cada uma de suas páginas no meio da agitação da sala de estar).

“Ela era tão aventureira, tão imaginativa, tão impaciente para conhecer o mundo quanto ele. Mas ela não frequentou a escola. Não teve a oportunidade de aprender gramática e lógica, que dirá de ler Horácio e Virgílio. Apanhava um livro de vez em quando, talvez um dos do seu irmão, e lia algumas páginas. Mas logo seus pais surgiam e ordenaram que fosse coser as meias ou cozer o guisado e não mexesse em livros e papéis. Eles teriam sido firmes, mas gentis, porque eram pessoas abastadas, cientes das condições de vida reservadas à mulher, e amavam a filha – na verdade, ela seria a menina dos olhos do papai.”

Um teto todo seu, Virginia Woolf (p. 71)

Nesse percurso, Virginia (ou sua alter-ego Mary Beton) investiga o que autores homens têm escrito sobre as mulheres e se espanta ao perceber a quantidade de obras dedicadas a “desvendar esse mistério” que é o sexo feminino, e notar o ódio com que essa metade se refere à outra. Ela lê que “a maioria das mulheres não tem nenhum caráter”, que elas são inferiores “mental, moral e fisicamente” e que “quando as crianças não mais forem desejáveis, as mulheres deixarão de ser necessárias”. Ouch. Mas isso apenas sobre a mulher real, pois, dentro da ficção, ela é fabulosa – uma deusa, uma bruxa, um objeto de desejo infinito. Nem parece a mesma.

E Mary/Virginia chega a uma conclusão interessante: a de que, para sobreviver por tanto tempo, o frágil ser humano teria precisado de muita força e, mais do que isso, de extrema auto-confiança. E não há forma melhor de se sentir confiante do que acreditar que se é superior a pelo menos metade da própria espécie, não é?. A mulher, assim (e essa imagem será retomada por Le Guin décadas depois), torna-se um espelho que reflete o homem com duas vezes seu tamanho, desproporcional e artificialmente poderoso. 

No fim, voltando à pergunta inicial, ela conclui que, para fazer literatura, é preciso ter “quinhentas libras por ano e um teto todo seu”, e coragem para dizer a verdade. Em outras palavras, liberdade, liberdade e liberdade. Coisas que homens (brancos) têm garantido desde que esta história de guerras e invasões começou a ser escrita nos livros oficiais. E nós, que apenas ontem conquistamos o direito de votar, de estudar, de trabalhar, de decidir se seremos mães ou não, esposas ou não, escritoras ou não… Nós estamos apenas começando.

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