Malcolm & Marie

Depois de um atraso na forma de internet caída, enfim assisti ao filme-dê-erre da vez: Malcolm & Marie. Estava tão curiosa quanto receosa: tinha lido coisas boas e ruins, tinha visto o trailer e vinha cultivando uma vaga sensação de que aquela era uma obra cheia de ego. Um pastiche feito de imagens que mais pareciam do que eram, inflado por dois dos atores mais cultuados do momento. Bonito. Pretensioso. Falso. Já tinha um veredito antes de começar. 

Pois atravessei todo o duelo conjugal com esse pé atrás, mas os olhos e os ouvidos se recusaram a acompanhar o rancor. Eles não se importavam se era verdadeiro ou falso, só sabiam que era hipnótico. Sedutor. Fascinante. E concluí que essa era, sim, uma obra cheia de ego. Mas esse era justamente o ponto: mais do que observar um casal que se ama e se odeia, na mesma medida e ao mesmo tempo, o filme (rodado no auge da pandemia, diga-se de passagem) me pareceu um ensaio sobre o ego, a carência e a cegueira do homem-artista. E sobre o labirinto das coisas subentendidas num relacionamento que também é, sempre, uma espécie de parceria, nem sempre horizontal.

Em cena, temos um jovem cineasta (John David Washington, de Infiltrado na Klan e Tenet, filho do Denzel) que chega em casa na noite após a première de seu primeiro grande filme – um filme que, aparentemente, agradou a quem estava ali – e quer celebrar. Com razão. Mas já o estranhamos aí, na chegada: depois de ligar o som no volume mais alto e elogiar o visual da esposa (que está no banheiro, numa cena que me lembrou muito o início de De Olhos Bem Fechados, que por coincidência tinha acabado de assistir), ele escolhe canalizar sua adrenalina no desprezo a uma jornalista: relembra aos gritos e risadas uma entrevista que fizera naquele dia e debocha de toda a comunidade de críticos, retomando e rebatendo cada um dos pontos que lhe teriam levantado – e outros que ele apenas especulava que viriam a levantar – como se provar a incompetência dos outros sobre sua arte fosse mais urgente do que sentir-se orgulhoso dela. No mundo de Malcolm, não basta ter escrito e dirigido um longa de sucesso, é preciso travar uma guerra contra quem quer que venha a assisti-lo, questioná-lo ou mesmo divulgá-lo. Ninguém nunca disse que artistas eram bons de marketing.

Nós o estranhamos, então, mas não Marie (Zendaya, ex-Disney e atual Euphoria, série dirigida pelo mesmo Sam Levinson). Ela provoca, revirando os olhos internamente enquanto espera um respiro para participar dessa conversa de um homem só. É interessante como, num filme construído inteiramente sobre o diálogo entre duas pessoas, uma delas passe tanto tempo falando consigo mesma. Discutindo, inclusive. Furiosamente.

É óbvio que há algo de errado entre os dois, mas ainda não sabemos o quê. Levaremos um filme inteiro para entender: as peças vão sendo dispostas em conta-gotas, em rounds que vão e vêm até a noite acabar. É tão exaustivo quanto parece, mas há surpresas no caminho. E há Washington e Zendaya, incansáveis. Os dois alternam o controle da cena e nos empurram de um minuto de paz para outro de absoluto caos, sem moderação. Perguntamo-nos a todo momento por que eles ainda não se separaram, mas a verdade é que Malcolm & Marie invoca muito mais um Garota Exemplar do que um História de Um Casamento: esse casal não mede palavras para se apunhalar, mesmo que se cortem no processo.

E entalhada na lâmina de cada um está a verdadeira história que Levinson parece querer contar. Ele, homem branco escrevendo sobre um casal negro, fala de autenticidade e de raça, e argumenta tão bem na voz de Zendaya que é como se nos desafiasse a interpretar seu trabalho segundo sua identidade. Será preciso ter vivido a experiência narrada para narrá-la? Sabemos que cinema é sempre ficção, mas… Será? 

Eu poderia dizer que o filme critica a crítica e suas conclusões sociológicas (Malcolm parece querer ser avaliado apenas por critérios técnicos), mas duas versões desse debate estão postas ali. O mesmo vale para a relação de sufocamento que se dá entre ele e ela – a carreira e o orgulho dele afogam a carreira e a confiança dela; o ressentimento dela joga água sobre a conquista genuína dele – mas isso também tem dois lados, dois pontos de vista. No fim, aprendemos tudo o que há para aprender sobre essa noite e as noites que levaram a ela a partir do que cada um escolhe dizer e de quais feridas escolhe abrir. E elas se abrem. 

Escancaram-se e sangram até secar.

(Malcolm & Marie já está em cartaz na Netflix.)

3 comentários em “Malcolm & Marie

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