Thelma e Louise e Hunter

Quase trinta anos separam os filmes Thelma & Louise, clássico de 1991 escrito por Callie Khouri (que ganhou o Oscar pelo roteiro) e dirigido por Ridley Scott; e Swallow, novidade cult de Carlo Mirabella-Davis lançada entre 2019 e 2020, em cartaz no Mubi. De um lado, um roadmovie com sua dose de humor, uma dose de ação e outra dose generosa de Geena Davis e Susan Sarandon. Do outro, um drama um tanto aflitivo conduzido pela ainda desconhecida, mas interessantíssima Haley Bennett. Em ambos, mulheres aprisionadas. Em ambos, mulheres que machucam a si mesmas. 

Faço essa ligação tão distante porque, por acaso, assisti aos dois filmes na mesma semana e não pude deixar de notar a semelhança. A personagem de Bennett, Hunter, poderia ser uma Thelma de outra época: a esposa perfeita que passa os dias isolada em casa enquanto o marido vive uma vida de verdade. É certo que o “companheiro” de Hunter não a humilha tão abertamente quanto o de Thelma, mas ele também enxerga nela um belo e estático objeto decorativo para mostrar às visitas e aos pais. E, diferente de Darryl (Christopher McDonald), o filhinho do papai Richie (Austin Stowell) quer um filho – ou melhor, um herdeiro –, então Hunter soma ao papel de cozinheira e enfeite o de incubadora do futuro CEO da empresa familiar. Parece a vida dos sonhos, não?

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Eu sei, não. Mas Hunter bem que tenta se convencer de que é, antes de começar a se automutilar engolindo os objetos mais sólidos e pontiagudos que encontra pela casa, divertindo-se a cada desafio como se disputasse um jogo secreto e pessoal: começa com uma bola de gude, depois um alfinete, uma pilha, um chaveiro… É o sabor, ela explica. A textura. Mas sabemos que não é. É o poder, a liberdade para quebrar as regras. A picância subversiva de ser uma menina má.

Thelma não quer ser uma menina má, mas ela quer se divertir. Nunca a canção “Girls just wanna have fun” fez tanto sentido quanto quando conheci a personagem de Davis: garotas querem se divertir, sim, sem serem atacadas ou julgadas, fazendo o favor. Parece simples. Mas toda mulher conhece as regras: se você flertou com o cara, você pediu. Não venha dizer ao júri que não queria o que ele acabou fazendo com você. Toda mulher conhece as regras: se ele paga as contas, você é tão propriedade dele quanto a casa, o carro, as roupas que você vai passar. Quando penso que essa fase do mundo já foi superada, lembro que Thelma e Louise é mais ousado e traz mulheres mais empoderadas que Swallow, e vejo que o mundo às vezes parece andar para trás.

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Há avanços, porém, se você olhar de perto: o final do longa de 2019 (que eu não vou contar) jamais seria aprovado em 1991. E o filme mais recente precisa se esforçar muito mais para mostrar em entrelinhas uma opressão que, hoje, é mais psicológica e subjetiva do que explícita – o explícito seria muito obviamente errado. A mulher de hoje já não precisa se casar. Ela não precisa ser a mãe de um crianção, nem aguentar traições mal disfarçadas apenas para não se queimar com um divórcio que vai deixá-la sem nada. Isso tudo ainda acontece, o tempo todo, mas hoje ela tem a chance, como Hunter, de se casar com um homem que não a trata exatamente mal. Um homem rico, talvez. Romântico. E ela cairá no mesmo buraco que Thelma sem saber como aconteceu. Porque talvez a presença tão segura dele a faça desistir daquela carreira insegura que ainda não tinha decolado. E talvez ele a convença de que ela não precisa mesmo trabalhar… De que ela não é boa o suficiente para isso. Ou ela se convencerá disso sozinha ao comparar seu sucesso com o dele, sua autoconfiança com a dele. Ele a “deixará” usar seus talentos na decoração da casa, e ficará muito grato (se reparar). E a convencerá de que seu lugar é ali, protegida, sozinha, controlável. Controlada. Invisível. Silenciosa. Diminuída por dentro até o tamanho daquela bola de gude.

Talvez falte a Hunter o que Thelma teve, enfim: uma amiga. Uma Louise que a colocasse no carro e a mostrasse um mundo fora da sua cozinha, longe das regras que ela tinha aprendido a obedecer sem concordar nem pestanejar. Não que seja preciso cometer um crime, literalmente, mas, como Hunter aprende depois de muito sangrar, é preciso poder falar. Andar sem dizer para onde. Pensar por si mesma. E é mais fácil quando não se está sozinha, quando sua voz não é interrompida no meio de uma história importante na mesa do jantar. Mas é preciso, não é? É preciso seguir em frente, e para fora. Custe o que custar.

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