Pensar demais (ou como fazer as malas para o fim do mundo)

Existe uma palavra em inglês que me representa mais do que qualquer outra: “overthink”. Algo como “pensar excessivamente”. Mais que o necessário, mais que o limite do saudável. Como agora, quando tento escrever um texto sobre a dificuldade de colocar as coisas em prática por questionar cada passo exageradamente, e tudo o que me vem à mente são frases como “será que você deveria estar escrevendo esse texto?”; “quem vai ler?”; “você não sabe do que está falando”; “isso não combina com o resto do conteúdo do seu site”; “por que você inventou de fazer listas de estreias, mesmo?”; “essa frase aí está truncada”; “você tem esse vício no começo das suas orações, já reparou?”; “você precisa mesmo de mais um exemplo?”; etc, etc. 

Às vezes, o pensamento excessivo se expressa assim, em dúvida e auto-sabotagem, mas nem sempre. Às vezes, é preocupação pura e simples: tenho uma reunião marcada, ou um trabalho novo, ou uma burocracia qualquer para preencher, uma bagagem para despachar, e é o fim. Ou o começo, de uma espiral de cenários possíveis que começam a se materializar na minha cabeça, um atropelando o outro e me deixando exausta antes mesmo de começar. Não é que eu ache que as coisas vão necessariamente dar errado, mas pensar sobre tudo o que eu posso vir a fazer de errado e tudo o que eu preciso fazer para garantir que isso não aconteça, e repensar infinitas vezes até a hora da coisa-em-si é como viver a tensão da experiência em looping, multiplicada – e sempre, invariavelmente, descobrir que a realidade era muito mais simples do que qualquer uma das versões que antecipei. 

Não há conclusão possível quando sua cabeça sabe que tudo é relativo

Nada disso é muito produtivo, caso você esteja se questionando. Afinal, cada hora que eu passo refletindo sobre causas, consequências, cenários e possibilidades é uma hora a menos de concentração para o que eu realmente poderia estar fazendo. E já falei sobre o quão difícil é fazer escolhas quando se pensa demais? Ora, é óbvio: se você se vê diante de A, B e C, sua mente irá imediatamente listar – e questionar – todos os pontos positivos e negativos de cada opção, até começar a duvidar se os positivos eram realmente positivos e vice-versa. Não há conclusão possível quando sua cabeça sabe que tudo é relativo, e que qualquer caminho esconde múltiplas ramificações. Ela não está errada, mas também não está ajudando. 

O Chidi, da série The Good Place, me representa como ninguém.

the good place chidi anagonye gif | WiffleGif

Esta noite, sonhei que estava fazendo as malas para o apocalipse. Eu sei, meus sonhos são estranhos, mas, naquele momento, parecia claro que eu precisava escolher bem os meus pertences – aqueles que eu levaria numa mochilinha para encarar a vida fora de casa, na estrada e sem civilização até sabe-se lá quando. Pensei em tênis, sabonetes, comida, atrasei todo mundo tomando um último banho antes de sair porque isso ia fazer to-da a diferença e, em algum momento, comecei a perguntar onde estavam os carregadores (de celular e computador, ítens essenciais em qualquer fim de mundo). Absurdo, claro. Queria empacotar a vida inteira e colocá-la nas costas, então correr como se não houvesse peso nem amanhã… E não havia mesmo, ali na segurança do meu sonho. Mas eu nem estava com medo de o céu cair sobre minha cabeça, isso é o pior: o medo era de não saber do que eu ou as pessoas que iriam comigo precisaríamos, até que o céu caísse sobre nossas cabeças. O medo era de não estar preparada o suficiente, com ou sem apocalipse. 

Pensando agora, acho que era minha mente revivendo cada véspera de viagem em que tentei especular sobre absolutamente tudo o que poderia acontecer, e mesmo assim acabei esquecendo de algo importante. Pensando mais um pouco, eu provavelmente seria a primeira a morrer num apocalipse real.

“Por quê?” tem sido minha pergunta-armadilha

Ando pensando (evidentemente) nisso tudo na esperança de que me ajude a entender o que foi que deu errado. Por que desisti das coisas que desisti e por que cada projeto que comecei caiu tão rápido na caixinha de coisas questionadas – “por quê?” tem sido minha pergunta-armadilha desde que acabou a estrada bem asfaltada da vida escolar. E percebo que ela não tem me deixado aproveitar o “o quê” das experiências da vida. Ela me diz que, se não houver um motivo que resista a todas as indagações, então não posso, não devo – preciso desesperadamente olhar para o outro lado. Uma daquelas (outras) opções deve ser “a coisa certa”, o “meu propósito”… 

E eu sei muito bem o que você está pensando. Meses atrás, a Pixar e sua (mal-resolvida, mas persistente) animação Soul também me disseram isso: que devo sim, que posso o que for. Que o propósito é supervalorizado, o caminho certo é uma ilusão, e que passar todos os dias olhando para o passado com medo de errar no futuro é um ótimo jeito de não viver. Sou especialmente boa nisso, e você?

E, falando em porquês, por que será que escrevo isso, para todo mundo ver (adicionando mais algumas dúvidas à coleção)? Bem, acho que é porque, como Ethan Hawke surpreendentemente falou outro dia neste TED Talk, o trabalho de escritores, poetas e outros artistas da palavra é tentar dar sentido e colocar certa ordem nos sentimentos que muitos temos, mas que alguns de nós não conseguem expressar, e ficam sufocados. Mostramos, com nossos próprios sentimentos traduzidos, que essas pessoas não estão sozinhas. E esperamos descobrir que também não estamos.

Mas será…?


Foto de Andrew Neel (via Unsplash)

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