Tela grande, tela pequena – a chegada da HBO Max e algumas reflexões sobre cinema e plataformas digitais

Estreou hoje no Brasil a nova plataforma de streaming da HBO, HBO Max – consertando alguns dos problemas bizarros da antiga HBO Go e trazendo uma pequena seleção de novas dores de cabeça para quem tentou logar (foi preciso fazer um novo cadastro, mesmo já sendo assinante), assinar (houve problemas com o pagamento nas primeiras horas) ou assistir (as legendas estavam abominavelmente desconfiguradas).

Para impulsionar o tão aguardado e atrasado lançamento, o serviço trouxe alguns títulos inéditos por aqui, mas já extensamente discutidos lá fora, como Friends – The Reunion e The Flight Attendant, além da comédia pandêmica Confinamento (Locked down), com Anne Hathaway e Chiwetel Ejiofor, e da série Raised by wolves, parcialmente produzida e dirigida por Ridley Scott. Mulher Maravilha 1984 também já chega no catálogo, junto com toda a família DC (incluindo, sim, a Liga da Justiça de Zack Snyder) e as franquias de sucesso da Warner, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Invocação do Mal. Animações clássicas do Cartoon Network também aparecem, como As meninas superpoderosas, O laboratório de Dexter e Coragem, o cão covarde, assim como Looney Tunes, Os Jetsons, Os Simpsons e Scooby Doo

O cardápio é variado e promissor – a HBO sempre teve boas produções originais, e a tendência é que elas se multipliquem agora. Porém, sempre que uma nova (ou meramente renovada) plataforma é anunciada, algumas questões sobre cinema, filmes e acessibilidade voltam à tona, reacendidas como lâmpadas sensíveis ao aperto de um botão: até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais? Até que ponto o streaming torna o produto audiovisual mais democrático, ou ainda mais fechado em nichos do que era quando só se tinham cinemas e locadoras? E como fica o papel dos cinemas nisso tudo, hein? Será que eles sobrevivem à explosão do digital?

Até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais?

Essa última pergunta tem me incomodado um pouco mais desde que comecei a usar meu computador para ver parte dos filmes sobre os quais queria escrever. Faço isso pela praticidade – consigo assistir e escrever ao mesmo tempo, na minha mesa, e posso usar o headphone para não interferir nas reuniões do Gabriel (pois home office ainda é uma realidade por aqui). E essa situação – necessária no momento – me fez perceber a falta que eu sinto de uma sala escura, de uma poltrona estofada, de uma tela enorme, e de um grupo de pessoas compartilhando aquele espaço e aquele tempo silenciosamente. 

Acredito no equilíbrio, é claro. Cinema é caro e demanda um tempo muito maior do que a sessão caseira. Tem ainda o custo do deslocamento, da pipoca, do refrigerante, ou da refeição que acompanha a saída… E preciso dizer que a pipoca do Gabriel é melhor que a de qualquer lugar. Qualquer dia vou filmar pra vocês.

O cinema escolhe o filme por você (ou te dá opções para contar nos dedos), mas carrega o risco de você não gostar e, pior, não poder trocar na metade. Porém, ultimamente até isso tem soado como uma grande vantagem: em casa, às vezes a paciência é tão curta que me vejo pulando de um título ao outro, mergulhando por não mais que dez minutos em cada. E isso não é bom: filme nenhum se constrói em dez minutos. Mas tente dizer isso para a minha mão no controle remoto. 

As distrações são reais, e entregar-se tão completamente à hipnose do cinema (como escreveu Barthes) é missão vinte vezes mais complicada na conveniência do lar. Na TV, a coisa é um pouco mais fácil: minha família sempre valorizou o momento do filme como algo quase sagrado, e só se levantava do sofá para um xixi e olha lá. Hoje, eu e o Gabriel ainda somos assim: estouramos o milho, apagamos as luzes, puxamos o edredom e não levantamos mais. Às vezes, só para guardar o balde ou encher os copos. Mas eu falo. Adquiri a mania de comentar as cenas enquanto assistimos, e isso me transporta a um lugar radicalmente diferente do cinema de verdade – esse é o cinema discutido em tempo real, consciente de si. Sem hipnose. Sem aquela coisa de sair meio zonzo tentando lembrar quem você é ou onde está.

Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

No computador, a história é outra: tenho desenvolvido a capacidade de ver filmes picotados, como minisséries aleatoriamente fatiadas. “Vamos descer com a Cacau?” – pausa. “Opa, chegou um email aqui!” – pausa. “Deixa eu responder essa mensagem…” – pausa. “Nossa, tá meio cansativo né…” – pausa. Ora, não é à toa que está cansativo, você nunca embarcou nessa viagem: é como se estivesse apenas olhando os vídeos de quem foi e te contou. Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

Bem, talvez esses filmes em pedaços sejam como livros: você lê algumas páginas por noite e, ao final de uma semana ou duas (ou alguns meses, vai saber), a história finalmente se fecha e você se vê com uma sensação de completude – mesmo que já tenha esquecido os detalhes.

A verdade é que, idealmente, tem espaço para tudo. Cada plataforma funciona melhor em sua hora e lugar, e cada momento pede uma escolha diferente – às vezes é preciso se virar sem sair de casa. Às vezes, nem há cinema na cidade, ou você quer ver alguma coisa que não está em cartaz; ou você está gripado, e está chovendo, e nada seria capaz de te tirar da cama. Ou você só precisa assistir a um trecho daquele clássico para relaxar enquanto passa a roupa. Ou a grana está curta, e o jeito é esperar até o filme entrar num dos streamings que você divide com o resto da família, em vez de pagar um ingresso cheio no cinema na estreia.

O digital tem motivo de sobra para ser o sucesso que é. Mas tenho cada vez mais certeza quando falo que o filme que você vai ver aí, no escritório, no quarto ou na sala de estar, não é o mesmo que você veria na sala escura e isolada de um cinema fora do seu casulo. Que aquela aventurinha boba que não te empolgou dessa vez talvez tivesse sido capaz de te levar a outro mundo, enquanto você estivesse lá, enfeitiçado. E aquela cena final que te emocionou, mas que você logo esqueceu, talvez tivesse te acompanhado no caminho para casa, e crescido com a ajuda das luzes coloridas dos carros e daquela chuva fina e bonita na calçada.

Hoje eu entendo por que alguns cineastas têm tanto medo de que seus filmes sejam vistos apenas em telas individuais. O filme é o mesmo, mas você não é. E a gente precisa se lembrar disso enquanto ainda dá para comparar.

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