Tudo o que eu não gostei na série Loki

Pensei em chamar este texto de “tudo o que eu não gostei na série Loki”, mas achei que ia soar apelativo. Então, lembrei que a internet funciona assim mesmo, fui em frente e digitei as nove palavrinhas polêmicas. Pelo menos, estaria falando a verdade. 

Loki é a terceira série original da Marvel a estrear na Disney Plus, expandindo o MCU, desenvolvendo melhor alguns personagens secundários e preparando o terreno para a famosa e um tanto vaga “Fase 4”. A primeira delas foi WandaVision, uma série que, antes de estrear, era uma gigantesca incógnita na minha cabeça; mas, depois, se tornou meu xodó entre os lançamentos do ano. Tinha humor, tinha ritmo, tinha uma química imensa entre os atores, e usava das situações lúdicas e absurdas para falar de coisa séria: luto, dor, negação. E tinha Elizabeth Olsen, diva em todas as décadas.

A segunda foi Falcão e o Soldado Invernal, outra que não me interessara muito até estrear, mas acabou surpreendendo. Usando do formato conhecido dos filmes de ação e perseguição, ela trouxe como tema central o racismo e a mudança dos tempos: o que significaria – para o mundo, para um país conservador e para uma pessoa negra – se o próximo Capitão América fosse negro? Sem se apressar, a jornada de Sam Wilson (Anthony Mackie) foi mostrando os diferentes lados dessa história, os dilemas morais, as consequências, as responsabilidades, as dificuldades (financeiras inclusive), ao mesmo tempo em que trabalhava em segundo plano uma trama sobre refugiados que os colocava ora como vítimas, ora como vilões, e ora ainda como seres humanos complexos com um ideal de coletividade. Nada mal para uma série da Marvel sobre dois sidekicks, né?

Então chegou Loki, a única que se propunha a seguir um personagem já muito popular entre os fãs: o vilão de Vingadores, irmão de Thor, Deus da Trapaça, mezzo-alívio cômico, mezzo-sex symbol vivido por Tom Hiddleston desde 2011. Não que eu esperasse muito, mas olhar para o Gabriel com uma cara meio indignada e dizer “cara, isso tá muito ruim” toda quarta-feira? Isso, eu não esperava. 

#chateada

A série parte do momento em que, tentando resgatar as joias do infinito no passado, Homem de Ferro, Capitão América e Homem Formiga se atrapalham e deixam o Tesseract cair no chão. Loki, então, pega a joia e desaparece. Agora, descobrimos que esse breve momento de vitória não durou quase nada, já que, ao se teletransportar, Loki é interceptado por um grupo de soldados (representantes dos Guardiões do Tempo) e enviado para um escritório/prisão (o TVA). A acusação é de que Loki provocou uma ruptura na “linha do tempo sagrada” ao se apossar do Tesseract, e, se você estava prestando um mínimo de atenção, talvez estranhe essa informação. Afinal, quem provocou a mudança foi o trio de Vingadores, não? Hm, não tente pensar demais nisso. 

Daí em diante, o que acontece é uma espécie de jornada de autoconhecimento e transformação para Loki, que, entre outras coisas, terá acesso ao “vídeo da sua vida” (tão brega quanto parece), descobrirá que não é a única versão de si mesmo no multiverso (e nem sequer a melhor), verá que existem forças mais poderosas do que Thanos (e que usam as jóias do infinito como pesos de papel, o que é uma piada muito barata) e viverá alguns dias como uma barata-tonta entre planetas, épocas e dimensões. Divertido? Mais no papel do que na prática.

Talvez o maior erro de Loki tenha sido se preocupar demais em apresentar uma nova grande ameaça megalomaníaca para o Universo Marvel, esquecendo-se de trabalhar seu personagem principal, como alguns veículos já defenderam muito bem. Mas certamente não foi o único. Aponto pelo menos outros três:

Muito se falou da cena em que Loki sugere, com uma frase vaga, que poderia ser bissexual. “Uau, como a Disney está abraçando a diversidade!”, “Nossa, a Marvel arrasou!”, blablabla. Acontece que, a partir daí, ele começa a viver um relacionamento potencialmente romântico com Sylvie, sua versão feminina. O que estaria ótimo, se ele também sugerisse qualquer tipo de flerte com seus outros espelhos, já que a ideia é explorar seu narcisismo. Mas não: o clima Loki-Sylvie só existe porque estamos colocando um personagem masculino para passar tempo demais com uma personagem feminina (e meninos não podem ser amigos de meninas, todo mundo sabe). Diga-se de passagem, todos os outros Lokis se consideram iguais em algum sentido, mas o Loki-Hiddleston faz questão de frisar como ela é diferente. Mais diferente do que um JACARÉ, só porque é mulher.

Meu segundo ponto crítico na série é a apresentação do protagonista como o oposto de um vilão. E não estou falando em humanização, que em geral é super válida, mas na completa distorção do personagem na pressa por gerar simpatia e redenção a tempo para a chegada do próximo filme da marca. O que sai pela culatra, acho eu, já que Loki é o sucesso que é justamente por seus traços vilanescos: a arrogância e a astúcia, em especial. Aqui, o mesmo Deus asgardiano que estava determinado a dominar a Terra, e disposto a se aliar a Thanos mesmo que isso colocasse em risco o universo inteiro, não tem nem arrogância nem astúcia. Pior: ele não tem nenhum plano. Nenhum. Nem sequer um planinho que dá errado, ou uma proposta aos Guardiões do Tempo, uma intenção de virar o jogo, nada. Loki está nu, com frio. Patético e frágil.

Lembra desse Loki aqui, usado extensamente na divulgação? Então, foi pra te enganar.

Ok, talvez eu esteja sendo cruel aqui, pois ele expressa a intenção de se aproximar desse novo poder para tirar alguma vantagem, mas isso nunca passa do primeiro episódio. O resto do tempo, Loki gasta sendo jogado de um lado ao outro, seguindo os impulsos e as convicções de terceiros. A série justifica essa impotência do personagem pela crise de consciência que ele tem ao descobrir que não é dono do próprio destino, rever em tela as próprias crueldades e ouvir de um completo estranho que sua mania de grandeza é, na verdade, a ilusão de uma criança desesperada por atenção. Terapia eficiente essa, né?

Mas, mesmo que a gente acredite que Owen Wilson seja sobrenaturalmente convincente, será mesmo que um único vídeo de 5 minutos seria capaz de convencer o Deus da Trapaça de que seu “glorioso propósito” era morrer nas mãos de Thanos, de um jeito bobo, sem ter jamais conquistado nada? Cá entre nós, essa criatura domina mágica, mas não consegue conceber um deep fake e uma boa edição, sei lá…? 

Terceiro ponto, e esse é para quem assistiu até o fim [vem spoiler aqui]: o diálogo final defende a tese de que, se você tirar o poder de um ditador, a consequência será, necessariamente, o caos. Digo, gente… Vocês já ouviram falar em democracia? O argumento que Loki parece não conseguir refutar (e isso já plenamente posicionado como o “bonzinho” e “sensato”) é que, ou se tem um indivíduo no controle de tudo – a única pessoa a quem pode ser concedido o livre-arbítrio –, ou não será possível controlar mais nada e o universo (multiverso, no caso) se auto-destruirá, porque as pessoas poderão fazer “o que quiserem”. É claro que, em se tratando de uma saga de aventura e fantasia, a tal ameaça de caos se intensifica por uma coleção de outros hiper-vilões, mas isso não muda o fato de que se propõe, com todas as palavras, que uma ditadura seja a situação mais desejável. Uma que só permite a existência de uma única linha do tempo, à custa de infinitas outras, porque essa é a linha em que existe o próprio ditador. (Duh)  [Fim dos spoilers]

Em suma, para uma série que se propõe a desenvolver um personagem que é notoriamente ambíguo, manipulador, e que passou filmes e filmes oscilando entre o “Bem” e o “Mal”, Loki se mostra imensamente frustrante. Ela agradou e vai continuar agradando, sim, a muitos fãs, mas tenho a impressão de que é mais pelos easter eggs, pelos coadjuvantes carismáticos (praticamente todos roubam a cena de Hiddleston) e pelas portas que abre para o futuro da franquia do que pelo que faz por Loki, em si. 

Uma pena. Como li outro dia numa matéria muito boa, a Marvel tem falhado com seus vilões há tempos, e não foi desta vez que ela fez justiça. Esperemos que, na próxima temporada, já confirmada, a equipe de roteiristas se lembre de quem é o verdadeiro protagonista.

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