Caros Camaradas! – passado escondido pela URSS volta à tona em drama ambíguo

Estreia neste fim de semana nos cinemas o representante russo ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021, Caros Camaradas!. O longa não chegou à lista definitiva, mas fez parte dos 15 finalistas, e tem chamado atenção especial pelo nome que acompanha seu pôster: Andrei Konchalovsky, cineasta russo relativamente badalado nos anos 80 que, desde então, tem se dedicado a produções mais independentes – com as quais ele diz ter liberdade e não se preocupar com o sucesso comercial (como explicou em entrevista ao The Guardian). Como é bom ter dinheiro sobrando, né? 

Caros Camaradas!, de fato, parece se preocupar mais em estudar um momento histórico – uma greve brutalmente reprimida na cidade de Novocherkassk, em 1962, e mantida em segredo até recentemente – do que em conquistar o espectador. Nós, que só conhecemos uma pequena parte do que foi a União Soviética e suas experiências políticas, embarcamos na expectativa de encontrar, ali, uma narrativa imersiva que ajude a compreender num nível mais visceral as turbulências do período, como o cinema tantas vezes permitiu fazer. Contudo, o que encontramos é algo mais próximo de um livro didático: frio e excessivamente descritivo.

Konchalovsky, é verdade, adota um ponto de vista humano que facilita o percurso – o de uma mulher que é membro de uma espécie de cúpula local do Partido Socialista, mas que acaba sendo pessoalmente afetada pelas escolhas do então Secretário Geral Nikita Kruschev. Essa perspectiva se mostra o elemento mais interessante do filme: Lyuda (Yuliya Vysotskaya, esposa de Konchalovsky) traz uma ambiguidade que impede que a produção possa ser posicionada contra ou a favor de qualquer um dos lados em jogo. Ela abre o filme questionando o governo, mas logo se coloca como crítica ferrenha dos trabalhadores em greve, sugerindo, inclusive, uma repressão mais severa. Sob tudo isso, ela mantém um discurso de exaltação ao falecido Stálin, mas eventualmente questiona suas convicções quando vê que, na vida real, aliados e inimigos não são tão claros quanto na teoria.

Apesar disso, o longa se apoia demais em diálogos informativos, esforçando-se em descrever para o leigo um contexto bastante específico e complexo: o de um governo socialista que encara a insatisfação popular diante do aumento de preços dos alimentos. A crise escancara a hipocrisia de um sistema que se vende como coletivista, mas não consegue dialogar com o povo, e parece desprezar os trabalhadores (generalizados como “bêbados” e arruaceiros). Vê-se, ainda, um atrito entre os interesses do exército e da KGB, além do contraste entre a rebeldia de uma juventude que acredita na democracia e a teimosia de uma geração que lutou, na sua época, por um líder totalitário. 

Cada elemento desse complicado cenário é extensamente explicado, mas não necessariamente mostrado, vivenciado ou sentido. Até mesmo o ponto climático da ação – quando o estado ordena que se usem armas de fogo contra a população – vem com uma frieza mal colocada. No caso, não é o tipo de distanciamento que intensifica a dor, como em certos filmes que sugerem o horror pelo contraste ou pela ausência, mas sim um distanciamento de quem está olhando para o lugar errado, mais preocupado com a mensagem do que com seus personagens. A protagonista, no meio do caos, parece fugir das balas por obrigação, e reage de forma prática e quase robótica diante das mortes de colegas. Consequência do choque? Talvez. Mas falta definição na forma como a sequência toda é mostrada – ou se vai pelo lado da poesia, ou pela brutalidade. O meio do caminho só enfraquece o impacto.

Talvez essa didaticidade e esse distanciamento se devam ao fato de que o roteiro é co-escrito por Elena Kiseleva, uma jornalista que se embrenhou recentemente pelo cinema. O equilíbrio entre descrever e narrar é um desafio antigo da profissão, que frequentemente se esconde por trás do escudo da imparcialidade. No cinema, é preciso quebrar esse escudo ou se perde o espectador.

A perspectiva pessoal, felizmente, vai ganhando mais espaço na segunda parte do filme, quando Lyuda se desgruda do Comitê e parte numa missão paralela para encontrar sua filha, uma adolescente que se identifica mais com os manifestantes do que com a mãe. É especialmente sensível que o primeiro diálogo entre as duas, lá no início, tenha tido como tema um sutiã – Lyuda reprimia a filha por não usá-lo, enquanto essa criticava a mãe por ter um caso com um homem casado. Dos dois lados, estavam julgamentos sobre comportamentos considerados imorais, mas a geração mais jovem já reconhecia a futilidade e a hipocrisia do controle sobre o vestuário, talvez por influência dos movimentos feministas em ascensão na Europa e nos Estados Unidos.

O que está em jogo, portanto, parece ser mais do que a discordância entre políticos e trabalhadores. É a União Soviética pós-stalinista que se vê em crise com os ideais socialistas. Quem protesta traz a mesma insatisfação que as gerações anteriores sentiram com os czares – sinal do fracasso da revolução e do novo modelo –, e adiciona a isso a defesa de liberdades democráticas e individuais que dialogam com um mundo fora dali.

Caros Camaradas!, mesmo que imperfeito, chega aos cinemas em bom momento. Entre tantas palavras, algumas ajudam a jogar luz sobre o tema da violência policial/militar e sobre as atuais discussões acerca de modelos políticos. Em certo momento, por exemplo, debate-se o papel do exército: proteger o povo contra ameaças externas ou proteger o governo contra o povo, como acabou se tornando o padrão em sociedades pouco democráticas (caham…)? Vale pensar, ainda, nas proximidades gritantes entre governos totalitários em sociedades socialistas e capitalistas – no fim, o abuso de poder será uma constante onde quer que se permita a sua concentração. Seja na Rússia, seja na Alemanha, seja no Brasil.

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