Várias vidas

Vocês já tiveram a sensação de que viveram várias vidas?

Recentemente, comecei a rever o anime Cowboy Bebop na Netflix. Queria me preparar para a estreia do live-action com John Cho e, ao mesmo tempo, apresentar ao Gabriel essa que foi uma das minhas séries favoritas na adolescência, quando passava horas explorando a programação exótica da Locomotion, na TVA. Na época, Bebop (como apelidei com carinho) me rendeu um avatar em fóruns online, uma trilha decorada de ponta-a-ponta e um boneco articulado do protagonista, Spike Spiegel – que até poucos meses atrás ainda se equilibrava na minha mesa, chutando alto numa pose de kung-fu.

A verdade é que, vinte anos depois, a trilha foi, provavelmente, a única coisa que eu realmente guardei de toda aquela obsessão. Revendo os episódios, noto que não me lembro de nenhum detalhe, nenhuma história, nem mesmo o que diabos acontecia naquela cena tão bonita da catedral (que me impactara por semanas). Lembro-me dos personagens, do visual, da sensação… Mas o que acontece com eles? Só (re)assistindo para descobrir. 

Essa falta de memória não é novidade para mim (certa vez aluguei um filme que já tinha visto no cinema, e só fui perceber depois de passados uns bons minutos), mas, desta vez, o esquecimento me trouxe um insight dos mais estranhos: o de que aquela foi, na verdade, outra vida. E que já vivi muitas delas.

Isso talvez explique a insegurança que tenho a cada nova experiência, mesmo já tendo feito de tudo, estudado muito, recomeçado tantas vezes. Bem, não era exatamente eu… Já não penso como pensava quando tentava ser arquiteta, quando ensinava um bando de marmanjos a desenhar, nem quando escrevia sem titubear sobre perfumes, óculos, treinos e caminhões. Acho que, quanto mais penso, menos faço, e hoje parece que estou sempre pensando. 

Bom seria se fôssemos a soma de todas as eus anteriores, mas talvez sejamos apenas a intersecção. O ponto que agrega um pouco daqui, um pouco dali, e que ignora a maior parte para compor um todo novo. Um todo, no caso, que sabe boa parte da letra de The Real Folk Blues, mas não lembra qual era o motivo de todo o drama entre Spike, Vicious e Julia. 

(E, se aquelas eram outras vidas, então por que eu deveria corresponder às expectativas criadas por elas, em outros futuros momentos de mim…?) 

See ya space cowboy.

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