Leia-me ou me devoro

Não é que eu não consiga escrever.

Mas não tenho conseguido, não é? O último texto que publiquei data de cinco meses atrás, quase exatamente. E, em minha defesa, eu bem que tenho tentado: abro o caderno, o computador, rabisco alguma coisa, sinto-me exposta. Percebo-me ridícula, paro e apago. Desescrevo – o que significa, ironicamente, que eu escrevi. 

Tinha conseguido, portanto, produzir uma frase. Mas, uma vez ali, ela soou alheia, como uma cópia falsa – repetitiva, apagada e riscada. Então, vamos começar de novo: o que uma pessoa de 34 anos escreve hoje em dia? Essa é difícil. Não sou boa de encontrar outras de mim por aí. Reformulemos: o que é que eu escrevo hoje em dia? Ora, não me olhe assim, é uma pergunta genuína.

Reconheço que tenho algumas respostas. Escrevo, desde o final do ano passado, um rascunho de livro infanto-juvenil. Com bruxas, fantasmas, sombras, uma escola, e não contarei mais. Não, não. Creio que você ainda não tenha lido nada parecido e tenho testemunhas para confirmar. Espero que um dia você possa ler, o que significa que eu terei terminado.

Escrevo teses e artigos acadêmicos quando obrigada. Escrevo também, e com muito mais propriedade, algo como este texto aqui: crônica, ensaio – já sofri demais tentando categorizar. O ponto é que escrevo faz algum tempo, mas também não escrevo faz algum tempo, e gostaria de fazê-lo mais. Aliás, “gostaria” não é a palavra: preciso, desesperadamente. 

É que essa coisa de trabalhar num livro, cheio de segredos e em longuíssimo prazo, me dá uma necessidade urgente de escrever algo outro, que eu possa efetivamente (e constantemente) publicar. Pois andei descobrindo, em poucos meses de autora-aprendiz, que desejo estar sendo lida, o tempo todo – minha humildade que tampe os ouvidos. E que a outra opção é desaparecer. (Candido, sem acento, rebelde, dizia que a leitura é parte da literatura, e acho que é mais ou menos isso que faz o escritor: é lido, ou nada.) 

Então, não é que eu não consiga, realmente, escrever.

O que tem faltado é coragem para publicar – e isso é quase o mesmo que não escrever. Falta a audácia de imaginar que minha voz seja necessária em meio ao deserto de grãozinhos cheios de opinião e palavras-chave que se esparramam irritando os olhos, feito uma tempestade tediosamente quadrada. E se a minha for igualmente tediosa? 

Bem, então, provavelmente, serei uma má escritora. Mas terei escrito e terei publicado. E, por hora, isso deve bastar.


Photo by Us Wah on Unsplash

Um comentário em “Leia-me ou me devoro

  1. Se as palavras não forem derramadas aos leitores, ela não terão a capacidade de lê-las e interpreta-las. Então derrame seu balde de letras e doce que a gente se delicie, se não serão apenas palavras ao vento.

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