Fazendo você mesmo

Desculpem a demora em escrever, andei ocupada reinventando a vida.

Numa dessas, inventei de procurar (na internet, pois Covid) um organizador de mesa. Coisa simples, só pra deixar os papéis na vertical e ocupar menos espaço, juntar canetas, tesoura, cola, régua, aquela coisa toda que transforma qualquer meio metro quadrado em incompreensível caos. Era para a mesa de jantar, no caso, que resolvemos cooptar para trabalhos artesanais porque no escritório já não cabe mais… Lá fui eu: papelaria – escritório – organização…

E pá. Sessenta e seis reais. Nem era o pacote completo: era só o revisteiro que eu tinha ousado cogitar para apoiar dois ou três blocos de papel A4. Sessenta e seis absurdos reais para apoiar papel num negócio cinza e sem graça. Bem, é verdade que tinha mais barato se eu procurasse melhor, mas o primeiro impacto não me motivou a investigar muito mais. 

Então me deu um clique meio atrasado na vida e lembrei que, com um pedaço de papelão, talvez um pano velho ou alguns retalhos do papel colorido que eu tinha acabado de cortar para outro projeto, dava para fazer um organizador bem mais completo e com a minha cara. Confesso, não fiz ainda (frise esse “ainda”, porque essa história não tem dois dias), mas por hora juntei uns potes de vidro que tinha guardado para sabe-se-lá o quê e salvei a mesa de seu destino confuso e infeliz – os blocos ainda desamparados, mas cada tira de kraft e rolo de fita em seu devido lugar. Meu amor incondicional por potes, aliás, só se confirmou. (Acredite neles…. Compre sempre geleias e mel.)

Esse impulso do “faça-você-mesmo” não é coisa nova, só andava meio cabisbaixo até 2020 chegar. Quando morava com minha mãe, pintamos a estante da sala, que não ficou assim, impecável, mas ficou bem nossa. Também enchemos de cor uma mesa chique e sisuda, forramos cadeiras com um tecido questionável e botamos papel de parede que não era papel de parede na sala de jantar. E amamos cada minuto disso.

E essas coisas se perdem, não sei direito por quê. Voltaram com a quarentena, com as vacas magras e o distanciamento social. Ora, será mesmo que preciso comprar um presente para cada aniversário? Começamos a produzir presentes originais, e as respostas foram mil vezes melhores do que qualquer mimo comprado. Será que preciso sempre pedir delivery para comer algo diferente? Fizemos nosso próprio kebab, nosso nhoque, nosso cookie, nosso brownie, e nossas papilas nunca foram tão felizes (nem as da Cacau). O Gabriel não encontrava uma caixa do tamanho que precisava para entregar seus dioramas. Fizemos nossas próprias caixas, e nada mais ficou sambando entre quilos de plástico-bolha e jornal. E quer saber o que é louco? Nada foi tão difícil quanto a gente pensava.

Demandou tempo, é claro. E algumas tentativas frustradas. E eu sei que para muita gente fazer as coisas você mesmo é impensável: falta tempo, falta vontade, falta um mínimo de vocação (quero falar mais sobre essa palavra misteriosa em outro texto), e tá tudo certo com isso. Mas, para mim e para o Gabriel, por que não? Poxa, a gente ama artesanato. A gente ama criar coisas, inventar, adaptar e transformar. Mas alguma trava se instalou entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta e fez a gente pensar que não devia se ocupar com essas bobagens. Que “o” trabalho tinha que ser nossa única preocupação e que era muito mais digno comprar coisas caras inventadas por outras pessoas do que fazer as nossas, baratas e frágeis e nem sempre tão bem sucedidas. E, se você quer saber, por muito tempo eu pensei que não era nem capaz.

Mas uma coisa puxa a outra, né? Primeiro é uma torta, um vaso, uma ilustração, e de repente você se vê pensando se não pode fazer seus próprios móveis e sair por aí pintando a casa inteira. E a verdade é que dá trabalho sim. Dá trabalho fazer refeições elaboradas para substituir a saidinha ao restaurante, dá trabalho dobrar e cortar cada embalagem dos petiscos para cães e gatos que a gente também inventou de fazer, ou criar um quadro do zero e finalizar até a moldura e o arame para pendurar. Mas vou te contar uma coisa: vale a pena. Porque dá orgulho, dá uma sensação de independência e, é claro, traz uma economia gigante. Mostra que a gente gasta muito mais do que precisa, mesmo quando não ganha tanto assim.

E fazer eu mesma o que em outra época eu teria comprado tem me mostrado que é possível, sabe? Que é possível escapar, pelo menos um pouco, da obrigação de consumir tudo o tempo todo. E de consumir sem pensar, sem conhecer, sem se importar. E ainda melhor do que consumir menos, tem sido sentir de verdade cada coisinha que a gente consome, aproveitando e reaproveitando quando possível, preferindo o produtor pequeno e artesanal sempre que o bolso permite. 

Ainda temos muito o que aprender e muito o que mudar, adaptar. Mas acho que esse é um caminho que vamos seguir cada vez mais, que descobrimos que nos faz feliz. Porque, no fim, a gente é capaz de tanta coisa e nem sabe, porque nem arrisca tentar… E, se não dá certo, quase sempre nos divertimos no processo – nossas paredes respingadas de tinta que o digam.

“Beijos, Mama”

A primeira vez que minha mãe me mandou um postal, ela estava em Nova York. O cartão só foi chegar semanas depois e achei a maior graça, porque foi ela mesma que o recebeu na casa da minha avó. Eu devia ter uns sete ou oito anos e não entendia direito para que servia aquele papel.

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Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

Não tenho dúvidas de que devo metade desse feeling poético à pandemia e metade a leituras recentes de Walter Benjamin e Marc Augé. Um me disse que perdemos a noção de eternidade quando nos afastamos dos nossos mortos, e também dos vivos com suas histórias de pescador. O outro, que transformamos o que tínhamos de História em ruas, placas e monumentos e nos reduzimos a espectadores fugazes, sempre de passagem a algum outro não-lugar. 

E isso tudo me deu uma vontade louca de viajar, bem agora. E visitar museus. Experimentar a História em cinco sentidos e saber com os poros que existem coisas maiores do que o cotidiano, que o meu quarteirão e que todas as abas do meu navegador. Coisas que estavam aqui antes de mim ou de você e que estarão aqui depois, exceto na ocasião de um terremoto. E com elas poderíamos reaprender coisas que a quarentena nos tem esquecido, e que não se entende direito por livros nem imagens, nem lives nem podcasts. Coisas que lembram o infinito.

O problema é que hoje não me sinto infinita, e aposto que você também não. Sinto-me trancada no Dia da Marmota com pouco a contemplar além do agora e do daqui a pouco, do aqui e do logo ali. O que era mesmo que estávamos construindo? Olho o mundo e vejo-o pequeno, de memória curta e vista embaçada, e não tenho certeza de quando a doença começou. 

Foi a pandemia ou a modernidade?

O vento não liga para nada

Nem todos os dias fluem em coerência. Há sábados, por exemplo, que começam com pão e café, mas terminam com punhos apertados e vontade de gritar. O que foi que deu errado entre o nascer e o pôr do sol?

Ah, sim, a quarentena… Continuar lendo “O vento não liga para nada”

Batatas fritas

Um dia desses, uma amiga me contou uma notícia bastante aleatória sobre a França: desde que a quarentena começou, toneladas de batatas estão sendo perdidas por lá, e isso até virou uma pequena crise. A princípio, não entendi por que, especificamente, falavam das batatas (não está tudo em crise hoje em dia?). Mas então li o resto da mensagem: tinha despencado – radicalmente – o consumo de batatas fritas. Continuar lendo “Batatas fritas”

Adaptação

O Gabriel conversava com um amigo outro dia quando ouviu uma frase que ficou com ele por dias: a situação não vai mudar, o brasileiro é que vai se adaptar. E pensei que essa foi a melhor síntese que já ouvi sobre a condição brasileira – não só na quarentena, mas por toda a nossa teimosa História. Mas também pensei, depois de algumas horas de desesperança profunda na humanidade, que eu podia tentar enxergar um lado bom nisso. Continuar lendo “Adaptação”

A magia das coisas

Vocês conhecem o Benedict Cumberbatch? Britânico, voz meio cavernosa, olhos estreitos, comprido… Às vezes usa uma capa vermelha, em outras um sobretudo com gola levantada? Não? Bem, eu gosto muito dele e ontem mesmo sua voz estava na minha televisão, saindo da garganta de um dragão. Mas por que estou falando de um ator? Continuar lendo “A magia das coisas”

Perdoe minha paranoia

Perdoe minha paranoia, mas eu não vou sair agora. 

Tenho guardado uma coleção de abraços para quando tudo isto acabar. É uma gaveta grande que guarda carinhos e cafés compartilhados e longas caminhadas, e passeios sem rumo e churrascos no sol; mas tenho outra, ainda um pouco vazia, que carrega o sonho de conversas mais leves sobre como aquele tempo foi louco e passou. Lembra quando a gente não aguentava mais ficar em casa? No fim aguentamos e ficamos seguros, e passou. Que bom. Continuar lendo “Perdoe minha paranoia”