A grama dos outros é mais fácil de cuidar

Desde que virou o ano, tenho andado meio workaholic. Desesperada para produzir alguma coisa, seja lá o que for, seja lá como for, desde que seja agora. Acho que é a iminência do fim do mestrado, e com ele do sentido da vida que vem junto com o ritual de conquista de mais um diploma universitário. Não que uma dissertação (que é basicamente um livro) não seja produção suficiente, mas, profissionalmente falando, ela não vale muita coisa. Não depois da defesa. E a necessidade aliada ao tédio de um ano cheio de referências bibliográficas e nenhuma vida social é a mãe da inspiração. E da produtividade. Então podem vir textos, podem vir vídeos, podem vir posts que eu to topando!

Pra ser melhor, só se eu conseguisse aplicar essa energia toda aos meus próprios projetos.

Porque hoje é domingo e eu me peguei fazendo um planejamento completo de conteúdo para um projeto que era para ser um hobbie, com alguns amigos que se assustaram com razão diante das quatro páginas que eu preenchi com anotações, listas, tabelas, tudo detalhado e comentado numa sequência de áudios como se eu fosse A especialista em marketing digital. O que não sou, mas sou organizada. Com os outros. Pergunta se eu fiz a mesma coisa com o conteúdo aqui do blog, ou com as minhas próprias redes sociais (que agora são profissionais também, porque o mundo é assim). Pergunta se fiz a mesma coisa com a minha dissertação. 

Não sei se vocês também funcionam nesse nível de auto-sabotagem, mas sinto que é muito mais fácil tomar decisões quando o trabalho envolve outra pessoa. Vestir a carapuça da super-profissional e acreditar que o que eu tenho de habilidade vai servir parece moleza quando tem alguém do outro lado precisando de uma força. Ai, se sou só eu mesma precisando de mim. 

E isso tudo me faz pensar que talvez a diferença entre um trabalho realizado e um engavetado seja um simples aceno de cabeça, um “OK, vai em frente” e um emoji feliz. Mas, se a única outra funcionária da empresa sou eu, quem é que vai acenar a cabeça para mim? Se a grama é toda minha e o cortador também… Talvez seja preciso derrubar a cerca. E começar a trabalhar nesse diálogo de mim para mim.

Thelma e Louise e Hunter

Quase trinta anos separam os filmes Thelma & Louise, clássico de 1991 escrito por Callie Khouri (que ganhou o Oscar pelo roteiro) e dirigido por Ridley Scott; e Swallow, novidade cult de Carlo Mirabella-Davis lançada entre 2019 e 2020, em cartaz no Mubi. De um lado, um roadmovie com sua dose de humor, uma dose de ação e outra dose generosa de Geena Davis e Susan Sarandon. Do outro, um drama um tanto aflitivo conduzido pela ainda desconhecida, mas interessantíssima Haley Bennett. Em ambos, mulheres aprisionadas. Em ambos, mulheres que machucam a si mesmas. 

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Malcolm & Marie

Depois de um atraso na forma de internet caída, enfim assisti ao filme-dê-erre da vez: Malcolm & Marie. Estava tão curiosa quanto receosa: tinha lido coisas boas e ruins, tinha visto o trailer e vinha cultivando uma vaga sensação de que aquela era uma obra cheia de ego. Um pastiche feito de imagens que mais pareciam do que eram, inflado por dois dos atores mais cultuados do momento. Bonito. Pretensioso. Falso. Já tinha um veredito antes de começar. 

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Sem internet

Eram umas onze horas quando apertei o play para assistir ao novo queridinho da Netflix, Malcolm e Marie. Estava oscilando entre começar a rascunhar uns parágrafos para a dissertação ou preparar alguns posts para as redes do Caderno e decidi que um filme assim no meio do dia era uma boa terceira opção: repertório nunca é demais, não é mesmo? Mas ando desconfiando de que o destino gosta de me repreender, e nem me espantei quando a página não carregou. Esperei alguns minutos, tentei de novo. Nope. Da sala, o Gabriel gritou: “Você também está sem internet?”. Ora ora, pelo jeito estou.

Entenda que ficar sem internet para ele tende a ser muito mais grave do que para mim, hoje em dia: sua vida agora é feita de reuniões (online, é claro, estamos ambos lá no final da fila de vacinação) e, naquela hora em particular, ele tentava exportar um arquivo. Um arquivo grande, pesado, que precisaria não apenas de uma conexão, mas de uma bela conexão. Não tínhamos, evidentemente, nenhuma das duas.

O que tínhamos eram dois celulares com uma rede 4G, o que ajudou temporariamente com as reuniões. Não com a Netflix, nem com o arquivo enorme, mas era um começo. A falta de wi-fi acabou antecipando o almoço, pois o ócio combina com fome: macarrão para mim; arroz e feijão para ele, restos de ontem e de antes de ontem. Ainda sem internet. Fui cuidar das plantas, ele foi lavar a louça. Limpei cada folhinha com esmero.

Curtimos o silêncio em surpreendente tranquilidade por um minuto ou dois. Então, ouvi uma voz eletrônica indicar diferentes números para infinitos ramais e soube que um de nós tinha se dado por satisfeito com sua dose de desconexão. A ligação estava no viva-voz – pois é o que se faz quando se liga para uma operadora de internet. Não se pode cair na armadilha de lhe dedicar atenção total, e Gabriel escolheu dividir a sua com um programa de esportes na televisão. 

Fez bem. Quando a melodia genérica já tinha se incorporado ao ambiente e nenhum de nós lembrava que ela vinha de uma ligação, um atendente apareceu e informou que estávamos pagando o dobro do necessário por um plano ruim (o que acontece todo ano, pois a tal operadora nunca atualiza os planos). Sobre a internet, não soube dizer. Talvez resolvessem até as 15h, mas já aprendemos pela última queda que isso era apenas um número, não uma previsão. Olhei para o computador aceitando a derrota: hoje seria um dia de Word. Dia de escrever off-line, sem distrações.

Correção: sem muitas distrações.

Bem, talvez algumas distrações.

Olha, eu tinha um celular com 4G e não ia ignorar as notificações justo no dia em que publicamos nosso primeiro podcast, OK?

Agora são seis da tarde e a internet voltou razoavelmente perto do horário combinado. Quando isso aconteceu, quase me decepcionei: estava no meio deste texto e parei imediatamente para resolver certas coisas que, se eu não fizesse na hora, provavelmente iria esquecer. Adeus, embalo. Mas me forcei a voltar e terminar, e aqui estamos nós: nada de dissertação, mas com uma crônica nova. De onde eu vejo, é um empate: menos do que eu deveria produzir, mas muito mais do que eu realmente esperava. Está bom para uma segunda-feira, vocês não acham?

Vem aí: vídeos e podcasts

Depois de muito tempo andando em câmera lenta e oscilante rumo a nenhum lugar particularmente interessante, comecei este ano tentando colocar a vida de volta aos trilhos. Esta vida, quer dizer, a produtiva. O que só foi possível depois de entender que eu teria que criar novos trilhos sobre os quais colocá-la. Pois, mãos à obra: respirei fundo, olhei bem para minhas frustrações dos últimos anos e separei o que eu gosto e sei fazer do que eu escolhi abandonar completamente da minha vida (no fim, não era todo o jornalismo que eu abominava, mas parte dele. No fim, eu não queria ficar assim tão longe dele). Se vai dar certo? Ora, desta vez vamos ter que fazer dar. (Gostam desse otimismo, né? Esperem mais um mês. Ou uma semana).

Enfim, é nesse espírito de euforia que convido vocês a conhecerem as primeiras peças dessa estrada em construção. Que rufem os tambores…. Tu-dum-tu-dum:


  1. Notícias da Ju 

Aeeeeeeee!!! Uhuuuuuuu!  

Tá, eu sei, não parece tão bacana assim. Mas é. Deem uma chance. A ideia é a seguinte: há duas semanas, comecei a jogar no Instagram (e no Facebook, mas vocês sabem como o Facebook anda meio xoxo… Chocho?) um videozinho de 6 ou 7 minutos com uma seleção de notícias da semana, explicadas e comentadas. A ideia é eleger alguns acontecimentos do universo da cultura que rendam um mínimo de debate – já falei, por exemplo, do caso GameStop (não sabe o que é? Ouça lá! =P), do golpe militar em Mianmar (que tem uma ligação com cultura, juro) e até do BBB. Porque “eclético” é a palavra da vez.

O Notícias será semanal, sempre às sextas-feiras, só nas redes sociais. Provavelmente à noite, mas pode variar. Então, não deixem de dar uma olhadinha lá no @cadernojota e dar aquela força pra esta jornalista perdida-querendo-se-encontrar! E comentem, porque eu quero saber o que vocês estão achando, de coração. Ajuda a não desistir tão cedo.


  1. Cinefilia & Companhia

Esse eu já percebi que vocês vão gostar: é um podcast! Confesso, sou péssima ouvinte de podcasts porque passo o dia inteiro lendo ou escrevendo, e, se ouvir música com vocal já é difícil, imagina um bate-papo! Mas gravar a gente grava, e se diverte imensamente no processo. O Cinefilia não é cria minha, mas sim de um grande amigo chamado Hugo Harris, que é professor de jornalismo e de cinema no Mackenzie, na FAAP e na FECAP. (Ele foi minha banca na pós em Jornalismo Cultural, quando escrevi sobre Tim Burton! E você, já virou amigo do seu avaliador hoje? rs).  Enfim, ele montou um trio comigo e com o cineasta (entre outras coisas) Henrique Pires e, a cada 15 dias, vamos conversar sobre um filme – lançamento ou não – e compartilhar esse papo com vocês, editadinho pela Laura Videira e com artes estilosíssimas do Joe Borges. Gostaram, né? Eu falei! Podem procurar por ele no Spotify ou em qualquer outro player (não conheço muitos, mas supostamente estará lá) a partir de segunda-feira, dia 08/02. Começaremos por “Pieces of a Woman”, da Netflix! E aí, será que eu gostei? Ouça para descobrir… Mwuahuahua.


Essas são as novidades, que, prometo, não vão significar o fim dos textos aqui do blog. Essa é uma promessa que faço para vocês e para mim mesma, então, podem cobrar. Combinado?

Vamos nessa que ainda tem muito trilho para assentar! 


Atualizando: o Podcast já está no ar!

Minhas noites com Gigi

“…num instante, como um anjo guardião impedindo o caminho com o esvoaçar de um traje preto em lugar de asas brancas, um cavalheiro desaprovador, prateado e gentil, lamentou em voz baixa, à medida que me dispensava com um gesto, que só se admitiam damas na biblioteca se acompanhadas por um estudante da universidade ou munidas de uma carta de apresentação.”

Um teto todo seu, Virginia Woolf (p. 17)

Gigi = Virginia Woolf. Li um único livro dela e já somos melhores amigas, agora vocês que me aguentem.

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Dica de livro: “Adultos”, de Emma Jane Unsworth

“– Você precisa confiar em si mesma.

– Não sei em quem confiar, porque não sei quem sou. Tenho trinta e cinco anos, estou na metade do caminho, e ainda estou esperando a minha vida começar.”

Adultos, Emma Jane Unsworth

Eu ia colocar um título engraçadinho – “Adultos (e outras palavras vagas)” ou algo assim. Mas cheguei à conclusão de que talvez vocês quisessem saber que isso aqui é uma dica de livro, não uma reflexão amargurada sobre certa fase da vida. Há muito o que dizer sobre ser adulto, é claro… Mas não me sinto especialmente amargurada hoje. Sinto que é um bom dia para recomendar um livro.

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Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

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Treinando francês com Omar Sy

Salut, mes amis! Acordei afrancesada. É que comecei ontem uma série deliciosa e, mesmo não tendo terminado ainda (vi dois episódios), vim dividir essa dica com vocês. Chama Lupin e, como podem imaginar, é francesa. Nova na Netflix, ela já está virando um pequeno fenômeno na internet, ao menos na minha timeline, e o fato de termos só cinco episódios disponíveis provavelmente ajudou com o burburinho. Pelo que entendi, o que o streaming liberou foi apenas a primeira parte da primeira temporada, e não há previsão de estreia da continuação… É tortura que chama, né? Sejamos fortes.

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Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

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