A grama dos outros é mais fácil de cuidar

Desde que virou o ano, tenho andado meio workaholic. Desesperada para produzir alguma coisa, seja lá o que for, seja lá como for, desde que seja agora. Acho que é a iminência do fim do mestrado, e com ele do sentido da vida que vem junto com o ritual de conquista de mais um diploma universitário. Não que uma dissertação (que é basicamente um livro) não seja produção suficiente, mas, profissionalmente falando, ela não vale muita coisa. Não depois da defesa. E a necessidade aliada ao tédio de um ano cheio de referências bibliográficas e nenhuma vida social é a mãe da inspiração. E da produtividade. Então podem vir textos, podem vir vídeos, podem vir posts que eu to topando!

Pra ser melhor, só se eu conseguisse aplicar essa energia toda aos meus próprios projetos.

Porque hoje é domingo e eu me peguei fazendo um planejamento completo de conteúdo para um projeto que era para ser um hobbie, com alguns amigos que se assustaram com razão diante das quatro páginas que eu preenchi com anotações, listas, tabelas, tudo detalhado e comentado numa sequência de áudios como se eu fosse A especialista em marketing digital. O que não sou, mas sou organizada. Com os outros. Pergunta se eu fiz a mesma coisa com o conteúdo aqui do blog, ou com as minhas próprias redes sociais (que agora são profissionais também, porque o mundo é assim). Pergunta se fiz a mesma coisa com a minha dissertação. 

Não sei se vocês também funcionam nesse nível de auto-sabotagem, mas sinto que é muito mais fácil tomar decisões quando o trabalho envolve outra pessoa. Vestir a carapuça da super-profissional e acreditar que o que eu tenho de habilidade vai servir parece moleza quando tem alguém do outro lado precisando de uma força. Ai, se sou só eu mesma precisando de mim. 

E isso tudo me faz pensar que talvez a diferença entre um trabalho realizado e um engavetado seja um simples aceno de cabeça, um “OK, vai em frente” e um emoji feliz. Mas, se a única outra funcionária da empresa sou eu, quem é que vai acenar a cabeça para mim? Se a grama é toda minha e o cortador também… Talvez seja preciso derrubar a cerca. E começar a trabalhar nesse diálogo de mim para mim.

Depois do fim do mundo

Sempre achei este período entre o Natal e os primeiros dias de janeiro um momento especial. Tenho a tradição de arrumar meus armários, minhas gavetas, meus cadernos, consolidar todas as listas de filmes, séries, livros e o que quer que seja que resolvi anotar naquele ano e virar uma página nova, abrir um caderno novo ou pregar uma nova folha na parede (ou todas as anteriores) e escrever os quatro números que me acompanharão todos os dias do ano que está por vir. Gosto de começos. Gosto de ciclos fechados, metas e planos. Raramente os cumpro, mas isso pouco importa. O prazer está em fazê-los.

Continuar lendo “Depois do fim do mundo”

Do reino dos porquês

Já faz um tempo que tenho cultivado um carinho especial pelos porquês. Sei que são um capricho, que mais inspiram dor de cabeça e ódio à gramática do que amor pela língua portuguesa, mas essa sou eu. Gosto de coisas assim. Acho um mimo ter uma língua que se dá ao trabalho de eleger grafias diferentes para diferentes usos da mesmíssima palavra: uma para perguntar, uma para explicar, uma para a coisa explicada e uma última apenas para enfatizar a indignação de quem indaga. Me parece uma língua encantada com perguntas e respostas, uma língua provocadora que talvez um dia tenha pertencido a uma nação indignada, cheia dos porquês acentuados e devidamente separados ao final de suas frases gritadas.

Continuar lendo “Do reino dos porquês”

Fazendo você mesmo

Desculpem a demora em escrever, andei ocupada reinventando a vida.

Numa dessas, inventei de procurar (na internet, pois Covid) um organizador de mesa. Coisa simples, só pra deixar os papéis na vertical e ocupar menos espaço, juntar canetas, tesoura, cola, régua, aquela coisa toda que transforma qualquer meio metro quadrado em incompreensível caos. Era para a mesa de jantar, no caso, que resolvemos cooptar para trabalhos artesanais porque no escritório já não cabe mais… Lá fui eu: papelaria – escritório – organização…

Continuar lendo “Fazendo você mesmo”

“Beijos, Mama”

A primeira vez que minha mãe me mandou um postal, ela estava em Nova York. O cartão só foi chegar semanas depois e achei a maior graça, porque foi ela mesma que o recebeu na casa da minha avó. Eu devia ter uns sete ou oito anos e não entendia direito para que servia aquele papel.

Continuar lendo ““Beijos, Mama””

Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

Continuar lendo “Vidas pequenas”

O vento não liga para nada

Nem todos os dias fluem em coerência. Há sábados, por exemplo, que começam com pão e café, mas terminam com punhos apertados e vontade de gritar. O que foi que deu errado entre o nascer e o pôr do sol?

Ah, sim, a quarentena… Continuar lendo “O vento não liga para nada”

Batatas fritas

Um dia desses, uma amiga me contou uma notícia bastante aleatória sobre a França: desde que a quarentena começou, toneladas de batatas estão sendo perdidas por lá, e isso até virou uma pequena crise. A princípio, não entendi por que, especificamente, falavam das batatas (não está tudo em crise hoje em dia?). Mas então li o resto da mensagem: tinha despencado – radicalmente – o consumo de batatas fritas. Continuar lendo “Batatas fritas”