Irretocável

“Ou você continua sendo amiga dela, ou minha namorada”. Foram essas as palavras que fizeram minha madrinha de casamento desaparecer da minha vida, minutos depois de eu tê-la convidado.

Quem passa muito tempo numa bolha cor-de-rosa, desconstruidona e pacifista no isolamento seguro da internet tende a pensar que frases como essa são relíquia de álbuns em preto-e-branco, novelas mexicanas e folhetins. Mas nossa bolha é só um pontinho cheio de ar flutuando sobre um oceano de inseguranças, ignorâncias e heranças históricas e a vida real contém frases muito mais fortes do que essa, sendo despejadas aos litros o tempo todo. Frases tóxicas, encardidas, que mancham e não saem mais.

Pode ser difícil para o leitor entender por que alguém – ainda mais uma mulher bem resolvida, inteligente, com um bom salário e uma longa carreira acadêmica pela frente –  responderia a essa provocação com qualquer coisa que não fosse uma risada sarcástica ou um “passe bem”. Mas é aí que a realidade engole a bolha e tinge seu arco-íris de cinza gosmento: ela não responderia nada porque já não se enxergaria como essa mulher. Ela não responderia nada porque se sentiria responsável, sozinha, pela felicidade do outro, e culpada caso ele decidisse terminar. Sua própria felicidade, a esse ponto, já não valia muita coisa, porque ele a convencera de que nada do que ela tinha era real. Nem a minha amizade, nem nenhuma outra.

Eu só soube disso anos depois, quando o relacionamento deles já não existia mais e ela tentava lidar com a coisa toda semanalmente na terapia. A ironia é que eu tinha achado, por todo esse tempo, que a culpa era minha. Que eu não tinha insistido, eu não tinha conversado, tinha me afastado tanto que ela desistira de mim.

Eu deixei sua mão escorregar. Eu sabia que alguma coisa estava errada e não quis saber mais.

De fato, eu tive minha parcela de responsabilidade: todas nós somos responsáveis umas pelas outras e isso não é só um slogan cativante. Eu deixei sua mão escorregar. Eu sabia que alguma coisa estava errada e não quis saber mais. Sabia que eu não me entendia muito bem com o seu namorado, mas escolhi me afastar ao invés de afastá-la dele. Sabia que ela não parecia feliz e culpei seu trabalho, suas escolhas, sua imaturidade. O tempo ia resolver. Não eu.

Eventualmente, outras mãos a puxaram, ainda bem.

A verdade é que um relacionamento abusivo nem sempre tem a cara que tem na ficção, e a gente às vezes não o reconhece. No caso, o autor da frase que abriu este texto parecia a mim uma simples escolha ruim – um homem arrogante, egoísta, que desprezava a mente curiosa dela ao invés de admirá-la. Achei que ele não duraria um mês, durou quatro anos e meio. E fez um estrago.

Pois o abuso pode não envolver violência física, mas envolve humilhação e destrói sua autoestima. É ameaça, culpa, medo, vergonha. “Se você fizer alguma coisa errada, você vai me perder”. “Se suas amigas se afastaram, é porque elas não gostam de você”. “É tudo culpa sua”. “Você não faz nada direito”. “Você vai ver…”

E ela viu.

Viu seu reflexo perfeito e irretocável quando ele saiu do seu caminho.

 

Super-heróis

Mais um Rei Leão, mais um Blade, mais um(a) Thor, mais um Top Gun, mais um Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado. Mais super-heróis, mais super-vilões, mais histórias conhecidas com soluções confortáveis, vinganças catárticas e finais felizes. É difícil não se seduzir pela memória de tempos melhores, eu sei, especialmente quando os tempos são… Bem, estes. Continuar lendo “Super-heróis”

O tiozão mais feliz da balada

E de repente me vi: pés descalços, óculos de plástico verde-limão segurando os cabelos como tiara, tirinhas luminosas nos pulsos em múltiplas cores, boá de plumas cor-de-rosa enrolado no pescoço, saia arrastando no chão sem piedade, braços indo e vindo em movimentos tolos e ritmados. Um sorriso que virava risada, um passinho para cá e outro para lá, uma careta para a foto. Tinha me transformado no tiozão da balada. E o tiozão era o cara mais feliz da balada. Continuar lendo “O tiozão mais feliz da balada”

Menininha

Todo mundo tem uma história vergonhosa da infância. A minha (uma delas) é essa: quando tinha meus 4 ou 5 anos, eu costumava me agarrar ao corrimão na casa da minha avó e chorar descompensadamente, bradando aos sete ventos que eu queria ir à escola de saia, não de calça. Fazia uns 10 graus. Continuar lendo “Menininha”

Pão quentinho

Aqui em casa, não temos campainha. Essa é uma daquelas coisas que eu e o Gabriel dissemos que iríamos consertar assim que nos mudássemos para o apartamento, mas, com o tempo, simplesmente nos acostumamos a viver sem. Afinal, quem é que recebe visitas imprevistas em pleno 2019? Continuar lendo “Pão quentinho”

Liberdade é um caminho sem volta

Primeiro foram os sutiãs. Bati o olho num modelito sem aro, sem bojo, sem quase nada, e foi amor à primeira vista… Pensei nas pontadas que já tinha levado quando o ferro se desprendera do pano, pensei no formato estranho que meus seios ganhavam quando os obrigava a se encaixar num semicírculo perfeito, pensei no tamanho irreal e na posição eternamente imóvel que ganhavam quando vestia as peças mais desconfortáveis da indumentária humana… E saquei a carteira. Continuar lendo “Liberdade é um caminho sem volta”

Versos livres

Tenho colocado poucas palavras no papel. Meus pontos finais andam cada vez mais raros e já não sei o que dizer para a tela em branco, o caderno de bolso ou a parede preta pintada de tinta-lousa. Passei os últimos meses procurando sem sucesso pelo texto que se desmanchava entre sonhos dormidos e acordados, mas talvez procurasse, sem saber, pelos pedaços que se perderam de mim. Continuar lendo “Versos livres”

Quando é preciso desconectar

Longe de mim ser a pessoa que vai dizer que os tempos eram melhores antes da internet. Vivo e respiro nela desde muito cedo e, introvertida que sou, sempre encontrei na rede uma forma mais fácil de conviver do que nas esquinas exaustivas da vida real. Tampouco sou dependente dela, diga-se de passagem: quando ocupada, quase sempre deixo o celular de lado e não me importo em checar notificações até que esteja no caminho de casa – e, se a bateria acaba, dou de ombros sem nenhum trauma. Sério, vocês deviam experimentar.

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Azul, com traços vermelhos

A questão me apresentava quatro alternativas e, em cada uma delas, duas palavras ambíguas. Você é distante e reservada? Ou cuidadosa e atenciosa? Influente e criativa ou firme e assertiva? Azul, verde, amarela ou vermelha? Vamos, escolha. Conte-nos quem você é. Continuar lendo “Azul, com traços vermelhos”