Depois do fim do mundo

Sempre achei este período entre o Natal e os primeiros dias de janeiro um momento especial. Tenho a tradição de arrumar meus armários, minhas gavetas, meus cadernos, consolidar todas as listas de filmes, séries, livros e o que quer que seja que resolvi anotar naquele ano e virar uma página nova, abrir um caderno novo ou pregar uma nova folha na parede (ou todas as anteriores) e escrever os quatro números que me acompanharão todos os dias do ano que está por vir. Gosto de começos. Gosto de ciclos fechados, metas e planos. Raramente os cumpro, mas isso pouco importa. O prazer está em fazê-los.

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Do reino dos porquês

Já faz um tempo que tenho cultivado um carinho especial pelos porquês. Sei que são um capricho, que mais inspiram dor de cabeça e ódio à gramática do que amor pela língua portuguesa, mas essa sou eu. Gosto de coisas assim. Acho um mimo ter uma língua que se dá ao trabalho de eleger grafias diferentes para diferentes usos da mesmíssima palavra: uma para perguntar, uma para explicar, uma para a coisa explicada e uma última apenas para enfatizar a indignação de quem indaga. Me parece uma língua encantada com perguntas e respostas, uma língua provocadora que talvez um dia tenha pertencido a uma nação indignada, cheia dos porquês acentuados e devidamente separados ao final de suas frases gritadas.

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Fazendo você mesmo

Desculpem a demora em escrever, andei ocupada reinventando a vida.

Numa dessas, inventei de procurar (na internet, pois Covid) um organizador de mesa. Coisa simples, só pra deixar os papéis na vertical e ocupar menos espaço, juntar canetas, tesoura, cola, régua, aquela coisa toda que transforma qualquer meio metro quadrado em incompreensível caos. Era para a mesa de jantar, no caso, que resolvemos cooptar para trabalhos artesanais porque no escritório já não cabe mais… Lá fui eu: papelaria – escritório – organização…

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“Beijos, Mama”

A primeira vez que minha mãe me mandou um postal, ela estava em Nova York. O cartão só foi chegar semanas depois e achei a maior graça, porque foi ela mesma que o recebeu na casa da minha avó. Eu devia ter uns sete ou oito anos e não entendia direito para que servia aquele papel.

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Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

Não tenho dúvidas de que devo metade desse feeling poético à pandemia e metade a leituras recentes de Walter Benjamin e Marc Augé. Um me disse que perdemos a noção de eternidade quando nos afastamos dos nossos mortos, e também dos vivos com suas histórias de pescador. O outro, que transformamos o que tínhamos de História em ruas, placas e monumentos e nos reduzimos a espectadores fugazes, sempre de passagem a algum outro não-lugar. 

E isso tudo me deu uma vontade louca de viajar, bem agora. E visitar museus. Experimentar a História em cinco sentidos e saber com os poros que existem coisas maiores do que o cotidiano, que o meu quarteirão e que todas as abas do meu navegador. Coisas que estavam aqui antes de mim ou de você e que estarão aqui depois, exceto na ocasião de um terremoto. E com elas poderíamos reaprender coisas que a quarentena nos tem esquecido, e que não se entende direito por livros nem imagens, nem lives nem podcasts. Coisas que lembram o infinito.

O problema é que hoje não me sinto infinita, e aposto que você também não. Sinto-me trancada no Dia da Marmota com pouco a contemplar além do agora e do daqui a pouco, do aqui e do logo ali. O que era mesmo que estávamos construindo? Olho o mundo e vejo-o pequeno, de memória curta e vista embaçada, e não tenho certeza de quando a doença começou. 

Foi a pandemia ou a modernidade?

O vento não liga para nada

Nem todos os dias fluem em coerência. Há sábados, por exemplo, que começam com pão e café, mas terminam com punhos apertados e vontade de gritar. O que foi que deu errado entre o nascer e o pôr do sol?

Ah, sim, a quarentena… Continuar lendo “O vento não liga para nada”

Batatas fritas

Um dia desses, uma amiga me contou uma notícia bastante aleatória sobre a França: desde que a quarentena começou, toneladas de batatas estão sendo perdidas por lá, e isso até virou uma pequena crise. A princípio, não entendi por que, especificamente, falavam das batatas (não está tudo em crise hoje em dia?). Mas então li o resto da mensagem: tinha despencado – radicalmente – o consumo de batatas fritas. Continuar lendo “Batatas fritas”

Adaptação

O Gabriel conversava com um amigo outro dia quando ouviu uma frase que ficou com ele por dias: a situação não vai mudar, o brasileiro é que vai se adaptar. E pensei que essa foi a melhor síntese que já ouvi sobre a condição brasileira – não só na quarentena, mas por toda a nossa teimosa História. Mas também pensei, depois de algumas horas de desesperança profunda na humanidade, que eu podia tentar enxergar um lado bom nisso. Continuar lendo “Adaptação”