Escrever ficção

Acho que o sonho da minha vida era escrever ficção. Assim, daquelas que você devora numa noite, vendo um capítulo puxar o outro e esperando que tudo se amarre no final, revelando uma rede bem desenhada, brilhante, pincelada em detalhes espertos ao longo de uma narrativa que não te deixa dormir… Mas… A verdade é que nunca consegui terminar nem mesmo um microconto. E dizem que admitir é a parte mais difícil, né? Continuar lendo “Escrever ficção”

Estudando sci-fi

Bom dia, pessoal. Como vocês estão? Sério, como vocês estão? 

Tenho achado que um tempo fora-do-tempo assim pede um minuto para a gente se perceber… Sei que alguns estão ainda percebendo a si mesmos – empoeirados em meio a tanta urbanidade, desacostumados com o espaço para respirar. Pois respirem, olhem o sol na parede, façam o quanto precisarem de nada, se a avalanche da vida em casa deixar. Depois venham conversar. Continuar lendo “Estudando sci-fi”

Medo de escrever

Sabem, eu tenho medo de escrever. Não sei por que me veio essa frase de repente, mas ela veio e fez sentido, e pediu uma resposta de mim. E se essa paralisia que me prende em casa há muito mais tempo que a pandemia fosse na verdade medo de fazer isto aqui?

Bem, seria um problema. Continuar lendo “Medo de escrever”

O que sua parede diz sobre você?

Vou fazer uma pergunta indiscreta: quem é você sem maquiagem? Com a parte de baixo do pijama escondida sob a mesa, camisetinha mal passada e cabelos presos para não pentear, sem salto, sem celular, sem aquele toque intelectual-chic do copo descartável do Starbucks, sem crachá, sem uniforme, sem pressa, sem gente em volta de você? O que aquela parede nua diante da câmera do seu computador conta de verdade? Continuar lendo “O que sua parede diz sobre você?”

Apenas mais um dia no Apocalipse

Tenho apelidado estes tempos estranhos de “Apocalipse”. Chame-me de pessimista ou herege, mas penso nele como um apelido carinhoso – menos sanitário que “pandemia”, menos específico que “quarentena”, familiar o suficiente para amenizar a alta dose de nonsense da situação (é preciso buscar na ficção qualquer imagem simbólica que ajude a entender a vida real). Então achei que era uma palavra elegante, capaz de englobar tudo isso e falar com propriedade de um cenário maior: o fim das coisas como as conhecemos, uma crise que é diferente das outras, que atingiu o mundo inteiro a um só tempo, e um cenário de incerteza sobre o que faremos quando a fase de hibernação passar e tivermos que encarar um mundo quebrado. Quebrado de um lado e reconstruído do outro, familiar e ao mesmo tempo exótico, novo e velho.

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O fim de tudo, o recomeço, ou nada disso.

Décadas de distopias não nos prepararam para isto. Zumbis, alienígenas, vírus implacáveis, macacos inteligentes, máquinas inteligentes, terremotos, tsunamis… Todos os cenários partiam da premissa de que a humanidade era, de certa forma, um organismo único, estático e previsível, que reagiria ao horror como qualquer outro animal: com pânico, violência, instinto de sobrevivência, agitação. Talvez até com solidariedade, perto do fim. Mas isolamento com Netflix, paciência, negação, medo de perder o emprego ou de acabar o papel? Isso, você não viu nos cinemas.

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Mato até os joelhos

Na minha rua, as pessoas gostam muito de plantas. O que é saudável, eu acho… Exceto quando não é. Que é quando as plantas desistem de esperar por uma poda e resolvem crescer além do limite combinado, invadindo o asfalto, a calçada, os buracos, a passarela, os pneus dos carros abandonados e qualquer outro cantinho que tenha sido esquecido temporariamente ou permanentemente, criando um grande e preciso mapa do cansaço (ou da preguiça) de seus colegas humanos. O que, se você me perguntar, é um pouco rude da parte delas. 

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Em cima do muro

Em cima do muro tinha uma mochila. E uma bolsa de praia, e quatro pares de chinelos. A praia era uma tripa de areia que se encolhia a cada respiro da maré, que subia e subia. Subia tanto que o acesso para não-condôminos estava bloqueado, cheio de pedras traiçoeiras debaixo de um metro e meio de água. Era uma praia dentro de um condomínio, dentro de um condomínio, mas era uma praia. E era pública.

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Normal

Um dia desses, estava pensando sobre normalidade. Sobre como passamos tanto tempo tentando ser normais, ou desejando ser pelo menos tão normais quanto os outros à nossa volta, que nos esquecemos de que o “normal” é só algo que muitas pessoas escolheram fazer do mesmo jeito, há tanto tempo que ninguém nem se lembra direito por quê. 

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