O que faz um filme ruim?

Antes de ontem, quis assistir a alguma coisa boba. Um filme que não prometesse muito, nem decepcionasse, para ver comendo pipoca de cérebro semi-desligado. Parece fácil, mas vocês ficariam surpresos com o quão raro é encontrar um desses por aqui – na maioria das vezes, me irrito com os primeiros dez minutos e vou ver outra coisa, que pode ser ótima, mas nem de longe era o petisco relaxante que eu procurava. O eleito, dessa vez, foi um filminho de ficção científica da Netflix que já tínhamos considerado mais do que algumas vezes só porque o protagonista era o Michael Peña e, pelo menos como coadjuvante em Homem Formiga, ele tinha sido simpático. Queríamos alguém simpático para aquela sexta-feira à noite.

O personagem de Peña, aqui, era um engenheiro elétrico vivendo num futuro meio genérico (não do tipo pós-apocalíptico, mas do tipo prédios-brancos-e-roupas-pastéis). Ele era o clichê do pai bem intencionado, mas avoado, que não vinha dando muita atenção à família desde que começara a ter pesadelos sobre uma invasão alienígena (o que parece algo que faria você se preocupar mais com sua família, mas… cada um com suas prioridades). A primeira cena do filme trazia um monólogo em que ele refletia sobre como nunca se pode saber exatamente quem são as pessoas que se pensa conhecer tão bem, e isso já me dizia que a tal invasão revelaria algo sobre a natureza daquela família ou daquela sociedade. Talvez fosse tudo uma simulação. Talvez fossem eles os aliens, invadindo o planeta de alguém no sonho-premonição. Talvez o ataque já tivesse acontecido e os aliens estivessem entre eles, disfarçados de pessoas comuns. Talvez fossem todos androides, porque a guerra que ele viu tinha matado todo mundo (e eu tinha visto um episódio de Electric Dreams que era mais ou menos assim). Vai saber.  

Fosse qual fosse a história, eu já começava a suspeitar que já a tinha visto antes, e que seria muito, muito difícil me surpreender. Uma pena, né? Lembro de como era boa a sensação de ser realmente arrebatada por uma revelação espetacular, de ficar dias remoendo as mensagens e significados ocultos de um filme futurista… Mas faz tempo. Quanto mais filmes você vê, mais difícil fica fugir do déjà-vu.

Em defesa do filme, ele nunca tinha prometido nada – seu nome era “Extinção”, quem era eu para esperar alguma coisa? Mesmo assim, os efeitos eram bem feitinhos e as atuações não eram totalmente ruins (nem totalmente boas). Mas como perdoar um filme que faz seu protagonista passar meses tendo visões, para depois não fazê-lo nem um pouquinho melhor preparado para o apocalipse do que as pessoas que não tiveram esse aviso prévio? Cara, jura que todas aquelas noites mal dormidas não serviram para nada? Que personagem inútil. 

Crítica: Extinction (2018)

E assim começou meu ódio por um filme perfeitamente mais-ou-menos. E isso me fez perceber que, para ser sentido como ruim (porque “ruim” é um sentimento seu, não um estado da coisa), um filme precisa cumprir pelo menos dois critérios: previsibilidade e falta de coerência. O que são duas características quase contraditórias, se você parar para pensar.

A primeira é absolutamente pessoal: depende do seu repertório naquele gênero ou assunto. Se você já viu algum filme ou leu algum livro com uma história parecida, vai conseguir prever os acontecimentos. Quanto mais repertório, mais cedo você vai adivinhar a trama. Isso não quer dizer que todo filme “bom” precise ter uma história absolutamente inovadora – a verdade é que não existem tantas histórias assim. O que existem são jeitos diferentes de contá-las, e metáforas diferentes que você pode construir a partir delas, para refletir sobre o seu próprio tempo e contexto. Repetir essas metáforas é o que torna uma história cansativa. E, para mim, a metáfora usada em Extinção, que tinha a ver com guerra, diferenças e pontos de vista, já estava mais do que desgastada. Para muita gente, ela não estará, e a mensagem será sentida como surpreendente.

A segunda característica é menos pessoal, mesmo que possa passar despercebida. Para mim, é importante saber que o roteirista ou a roteirista pensou em tudo: nas causas e consequências de cada ato, cada fala, cada decisão. E poucas coisas me irritam mais do que um personagem que decide ir para algum lugar só porque o cenário lá será bacana para o fotógrafo explorar, ou porque isso permitirá que ele convenientemente encontre alguma coisa que ajudará a avançar a história. Entendem o que eu digo? Cada cena precisa fazer sentido dentro da história e da psicologia dos personagens, ou o público não vai comprar. Por exemplo: estou estudando Blade Runner 2049 e, por mais que eu adore esse filme, sei que o confronto final é um horror, porque ele não faz sentido. Ele só acontece porque o vilão decidiu que precisava mover o personagem de Harrison Ford do ponto A pra o ponto B para “extrair informações dele”… Ah, me poupe. O diretor queria incluir uma cena no mar para exibir suas habilidades e, por isso, levou todo mundo até lá. Não enganou ninguém.

No filme do Michael Peña, são seus sonhos que não fazem sentido – eles podem até ser explicados, mas não cumprem função nenhuma a não ser “dar uma sensação de mistério”. Nada mudaria nessa história se ele não os tivesse. Também não faz sentido a decisão de diversas pessoas encurraladas de correrem para o topo de um edifício, por exemplo. Elas esperam encontrar o que lá em cima, um helicóptero? É disso que estou falando.

Então, da próxima vez que um filme cair especialmente mal para você, pergunte a si mesmo se não foi por um desses motivos: se ele repetiu fórmulas familiares demais, fáceis demais, ou se as escolhas de roteiro não fizeram sentido suficiente, não foram pensadas com carinho suficiente. Ou os dois. As chances são que esse foi apenas mais um filme feito às pressas para pagar as contas, ou para preencher o catálogo de uma plataforma de streaming que cresceu demais.

Críticas do Oscar – Meu Pai

Pouco a pouco, vou me atualizando sobre os filmes indicados ao Oscar – se é que faz sentido pensar em Oscar no ano-sem-cinema de 2021. Neste ano, o ritmo está mais lento, e nem o grande favorito nem a possível zebra da vez chegaram ainda, mas alguns outros títulos já estão disponíveis e, já que não se pode excluir ninguém depois que Green Book e Moonlight levaram a estatueta, vamos conferindo tudo o que dá. Já risquei da categoria de Melhor Filme O Som do Silêncio (em cartaz na Amazon Prime), Os 7 de Chicago (na Netflix) e, agora, Meu Pai, que chega às plataformas no dia 9 de abril para compra e no 28 para aluguel, mas foi exibido com um pouco de antecedência para os ansiosos da imprensa. Espero escrever sobre todos esses e alguns outros antes do dia 25, quando acontece a premiação. Torçam por mim!

De volta a Meu Pai, confesso que não estava lá muito ansiosa, apesar de suas indicações também nas categorias de roteiro, montagem, design de produção e atuação – tanto para Anthony Hopkins quanto para Olivia Colman, sempre magnífica. Tinha certeza de que eles estariam bem, mas, depois de assistir ao documentário As Mortes de Dick Johnson (ouça nosso podcast sobre ele aqui), feito por Kirsten Johnson com tanta originalidade, ficou difícil pensar em voltar a encarar a demência (ou o Alzheimer, apesar de nenhum dos dois filmes especificarem) como a velha tragédia destruidora de famílias, vidas e laços. O drama, todo aquele drama que vem no pacote, simplesmente não cairia bem depois de ver que o tema podia ser tratado de outro jeito. Com leveza, com afeto, com humor. Com amor. Desculpe, Oscar, mas estou farta de tanto chororô. 

Qual não foi minha surpresa, então, quando notei um tom diferente na construção de Meu Pai. Bem diferente. Aquilo ali era… Um thriller? Um… Suspense? Não era isso, exatamente, mas o diretor e roteirista francês Florian Zeller bem que colocou um tempero e, vejam só, tornou o velho drama mais interessante. Por meio da forma, encavalando personagens e diálogos em posições inesperadas e observando Hopkins reagir exatamente como a audiência, ele nos foi colocando dentro da mente de seu protagonista senil e jogando com o tempo e com a narrativa de um jeito tenso, aflitivo, assustador. Arrepiante para quem vê como para quem vive.

Saber que o filme aborda a demência ajuda a acompanhar a história, e o primeiro diálogo já prepara o espectador: “Você rejeitou mais uma cuidadora, assim está ficando difícil, precisaremos mudar você para outro lugar”, nada novo no front. Pessoas que perdem a referência do tempo ou da realidade precisam de cuidados especiais, e cabe sempre à família tomar decisões difíceis. Esse homem, como tantos outros, sente-se insultado pela ideia de ser fiscalizado e sua casa é o último refúgio de sua identidade. A história é absolutamente familiar, mas será contada desta vez em pedaços, como num quebra-cabeça especialmente complicado. (Ei, Nolan, vem dar uma olhada aqui!)

Num minuto, Anthony – o senhor interpretado por Hopkins – está tendo uma conversa relativamente sã com sua filha, Anne (Colman), e, no seguinte, ela já não é a Anne que acabamos de conhecer. Como se tudo não passasse de um teatro, os mesmos papéis são encenados ora por uns, ora por outros, e o susto da mudança vai se transformando lentamente em hesitação e em conformação, até chegar numa desistência completa de tentar entender o mundo.

Faz sentido que o filme seja tão curto – mal passa de uma hora e meia –, pois a trama é simples. O que interessa é explorar a surpresa e o horror de Anthony a cada mudança de realidade. Se qualquer personagem sai de cena, já não sabemos se o mesmo voltará, com o mesmo rosto ou o mesmo assunto, no mesmo tempo ou lugar. Às vezes, é como se essa mente se perdesse num looping, revivendo a mesma conversa de novo e de novo em diferentes versões, como se viajasse no tempo. Qual delas será a realidade? Se ele não sabe, nós também não saberemos.


Como assistir

Compra online: a partir de 9 de abril (Now, Apple TV, Google Play)
Aluguel online: a partir de 28 de abril (Now, Apple TV, Google Play, Sky Play, Vivo Play)
Cinemas: estreia ainda dem data, ocorrerá conforme a reabertura de salas

Novos e velhos heróis

Zack Snyder não é exatamente meu exemplo de diretor de cinema. Apesar disso, passei quatro horas da última quinta-feira conferindo a sua versão do pipocão-sessão-da-tarde Liga da Justiça, filme lançado em 2017 que ele começou, mas não pôde terminar em decorrência de uma tragédia pessoal. Na época, Joss Whedon assumiu o volante e se deu mal: misturar duas visões de uma mesma obra, assim, às pressas, nunca poderia ter dado muito certo, e o resultado foi visivelmente caótico. Mas por que me dar ao trabalho de assistir à nova versão? Bem, um pouco para poder acompanhar as discussões na internet, um pouco porque conseguimos acessar uma promoção bem baratinha do Google Play (se fosse para pagar R$ 50 a história seria outra), e um pouco por curiosidade sobre o que ele poderia me dizer dos novos caminhos do cinema de massa.

Porque há caminhos novos sim, por incrível que pareça. As tecnologias cada vez mais avançadas de CGI, a renovação do público nerd e o isolamento repentino do último ano, somado a uma tendência já anterior de migração dos conteúdos do cinema para a TV, têm transformado o cenário da cultura pop, dos grandes estúdios e das grandes franquias, de um jeito que poucas pessoas poderiam ter previsto. 

O “corte do Snyder” me fez pensar, por exemplo, em como filmes desse tipo são feitos hoje em dia. Para começar, ele não é um “corte”. É um filme refeito, quase do zero, sem que isso tenha implicado em grande retrabalho para os atores. “Mas como assim?”, você pensa. “Como pode um filme ser completamente reformulado sem que seja preciso refilmar tudo?” Pois é. Acontece que esse cinema de super-heróis já não é live-action há muito tempo: é pura pós-produção. É praticamente cinema de animação, só que com captura de movimento, como foi o Mogli do Jon Favreau uns anos atrás. Pensando agora, o que ele fez em 2016 não foi muito diferente do que a Disney e a Warner já estão acostumadas a fazer com todos os seus heróis: usar os atores como pontos de apoio para uniformes desenhados posteriormente no computador, cercados de cenários virtuais e efeitos visuais. Acontece que, agora, o cinema já consegue até recriar com fidelidade os rostos e as expressões, e é questão de tempo até que os próprios atores se tornem desnecessários. Absurdo? Sim. Uma discussão ética real? Também.

Eu disse que poucas pessoas poderiam ter previsto as tendências, mas tenho a impressão de que algumas previram, e elas estavam na Disney. Isso porque, no dia seguinte ao Snydercut, vi o primeiro episódio de Falcão e o Soldado Invernal, segunda série original da Marvel a estrear no Disney+, e a dar continuidade à colossal franquia dos Vingadores que começou em 2008 e se desenvolveu ao longo de 22 filmes até encerrar com a maior bilheteria mundial de todos os tempos (recentemente superada por uma reestreia de Avatar na China), Vingadores: Ultimato, em 2019. Não me conformo com a sorte de quem terminou um projeto desses meses antes da pandemia estourar, mas isso só ajudou a valorizar o que vinha pela frente. O fato é que eu não estava especialmente ansiosa por essa série, nem por nenhuma das séries anunciadas por eles, mas, depois da boa surpresa que foi WandaVision, resolvi dar uma chance. E, vendo os dois produtos assim tão próximos – o Snydercut e o pacote de séries derivadas da Marvel, a diferença entre as marcas ficou evidente.

Não quero começar uma guerra entre DC e Marvel, até porque as duas bebem das mesmas fontes e parecem mais irmãs gêmeas de realidades ligeiramente distintas do que rivais. Tem espaço para todo mundo. Mas, se há uma coisa que esses lançamentos mostraram, é que a reverência ao fã não deveria ser uma obrigação para quem quer trabalhar com super-heróis, como tanta gente parece acreditar. 

Pense comigo: o novo Liga da Justiça só existiu porque os fãs imploraram para que a Warner desse uma segunda chance a Snyder. E, assim como a versão expandida de Batman vs Superman, essa nova versão vai trazer muito lucro, mas não vai ajudar a construir um universo, como eles pretendiam. A franquia iniciada com Homem de Aço já estava quebrada desde que Batman vs Superman foi lançado às pressas como uma resposta pouco maturada para Guerra Civil. De lá para cá, nada mais se encaixou – é claro, não houve tempo para planejar. Mais energia foi gasta na correção de erros do que na construção de uma trama coesa, que pudesse atravessar uma sequência de filmes sem perder a linha. 

Não que os fãs estivessem errados: a versão de Snyder é significativamente melhor do que a de Whedon, mesmo que longa demais (ela poderia facilmente ter sido uma minissérie). Mas o papel excessivamente presente do público em cada passo da produção parece atrapalhar a DC, filme após filme, na busca por uma identidade. Neste novo Liga da Justiça, dá para ver o esforço da equipe para agradar a todo mundo: há frases de efeito que forçam uma mensagem feminista (“eu não pertenço a ninguém” é talvez a fala mais mal colocada dos últimos anos); há personagens dos quadrinhos sendo incluídos de última hora para surpreender, mesmo estragando no caminho um dos diálogos mais interessantes do longa; há mais representatividade e drama na expansão do papel do Ciborgue (ponto positivo, uma das boas mudanças da nova versão); há mais espaço para o idolatrado Coringa, numa tentativa de redimir o ator Jared Leto, mas numa participação que só faria sentido se a saga fosse continuada. E há mais ação, mais tensão, menos humor. O que, a mim, faz o filme soar irritantemente pretensioso, mas há quem goste. Não vou julgar.

O que quero dizer é que a preocupação constante em corresponder às expectativas de uma legião de fãs apegadas a outra mídia, a outro tempo e às suas próprias fantasias tem sido um espinho no calcanhar da Warner. E talvez seu Coringa tenha sido a beleza que foi porque não entregou nada do que esperavam os fãs. E talvez a Disney tenha aprendido essa lição muito antes, e isso seja seu diferencial hoje: desde que matou metade da população do universo em 2018, ela tem investido tempo e dinheiro não em entregar ao fã o que ele quer, mas o que ele precisa.

Porque o mundo de 2021 precisa discutir os problemas de 2021, e não fechar os olhos com uma sessão de escapismo por ano. E, se o primeiro Vingadores pertencia a um mundo disposto a se divertir sem preocupações por duas horas e meia, o que está recebendo WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal é um mundo em crise que precisa lidar com as consequências de escolhas muito ruins que fez no passado, que precisa lidar com o luto e com o trauma coletivamente, e precisa discutir questões sobre racismo, supremacia branca, fronteiras e capitalismo – urgentemente. E, sim, está tudo lá, entre uma perseguição e outra, entre um efeito especial e outro. A cada episódio, a Disney se propõe a atualizar seu arsenal de personagens e histórias para um novo tempo, com novos valores, e com isso arrisca desagradar seus fãs mais tradicionais, mas também tem a chance de reeducá-los, de propor novas reflexões, e de atingir novos públicos que também precisam de heróis. 

É claro que há espaço para escapismo também. E, se Snyder precisou de quatro horas para processar seu próprio luto e oferecer um pouco de entretenimento aos fãs do Superman, do Batman ou da Mulher Maravilha, melhor para todos. As velhas histórias também precisam ser recontadas e os velhos heróis, atualizados. Mas fico feliz em ver que há novas histórias, novos pontos de vista e novos jeitos de fazer cinema, ou TV, ou um misto cada vez mais indistinto dos dois, encontrando espaço no outrora tão conservador terreno da cultura de massa. E, nunca pensei que diria isso, mas é a Disney que está liderando essa mudança.

Que jornalismo queremos?

Tenho me feito variações dessa pergunta todos os dias há algum tempo. O que é jornalismo para mim? O que eu espero dele? O que vocês esperam dele? Onde e como “consumimos” (odeio essa palavra) notícias hoje? Onde o jornalismo cultural se encaixa? Em que medida ele precisa ser um pouco publicidade, um pouco opinião, um pouco entretenimento, um pouco informação, e quando foi que essa balança passou a pender tanto para o primeiro lado? Onde estão os jornalistas culturais hoje? Eles ainda acreditam no que fazem? Alguém ainda acredita no que eles fazem?

Tantas perguntas, tão poucas respostas. Mas talvez abri-las, assim, para o diálogo, seja um jeito de encontrar caminhos.

Andei me incomodando bastante com o jornalismo em geral durante este ano atípico, a começar pelo da televisão. No jornal da manhã, vi imagens de trens lotados ilustrando o principal problema da pandemia: gente irresponsável se aglomerando feito formigas na plataforma e no interior do vagão das seis da tarde, ou das nove da manhã. Já peguei muito vagão assim. Mas não no último ano, porque minhas aulas foram online, porque tive um carro para o poucos deslocamentos que precisei fazer, e porque eu e o Gabriel pudemos trabalhar do escritório que temos em casa, montadinho com cadeiras boas, iluminação decente e dois notebooks. 

Mas, de dentro da redação, todo mundo olhou para aquelas imagens e ninguém perguntou nenhum porquê. Qual era a empresa que estava exigindo o trabalho presencial daquele funcionário que poderia estar fazendo home office, mas estava ali? Quais eram as profissões das pessoas que precisavam pegar aquele trem, naquela hora? O que as levava a preferir o transporte público lotado a ficar em casa em meio ao risco de se contaminar e não ter leito de UTI? Talvez algumas delas não acreditassem que a situação fosse tão grave assim. Talvez precisassem disso para se sentir vivas e úteis. Ou talvez faltasse auxílio financeiro para cobrir as despesas básicas enquanto não pudessem trabalhar. Talvez faltasse o bom senso do empregador para organizar rodízios e reduzir a circulação no horário de pico. Alguém tentou falar com o empregador? Talvez faltasse o bom senso das autoridades para exigir algo assim. Talvez faltasse computador e internet em casa; e talvez essa casa não fosse sequer uma opção segura. O fato é que nunca saberemos, não é? Porque ninguém perguntou. Perguntaram apenas se a companhia que gerenciava os trens tinha solução – é óbvio que não. Não foi ela que colocou aquelas pessoas ali.

De dentro da redação, todo mundo olhou para aquelas imagens e ninguém perguntou nenhum porquê.

Algo parecido se repetiu algumas semanas depois, no jornal da noite, no horário nobre. Tentando expressar indignação de forma discreta, os apresentadores colocaram na tela uma série de gráficos que resumiam uma pesquisa sobre a popularidade do presidente durante o ano de pandemia, e leram seus resultados: mais ou menos 30% considerava o governo bom ou ótimo até julho, entre agosto e dezembro esse número subiu uns 5%, depois caiu de novo. Voz firme, mas semblante feliz. Ele está perdendo. Mais alguns números, mais alguns gráficos, e é isso. Assim. Seco. 

Em algum momento, um pouco antes, alguém se dera ao trabalho de explicar que 5% significa “de cada 100 pessoas, 5”, e isso ficou na minha cabeça. Porque, vem cá: um público que não sabe que 5% significa 5 entre 100 vai mesmo ter uma leitura eficiente de uma coleção de gráficos, jogados ali sem nenhum esforço de interpretação? Me diz: que tipo de jornalismo vê uma linha subindo substancialmente e depois voltando ao normal e não se pergunta o que aconteceu de diferente naquele período? Foi efeito do auxílio emergencial? Provável. Aparentemente, para o jornal, isso não importa. Como o povo reage positivamente ao presidente não importa – mas deveria, não? Se o objetivo é mostrar o quão nocivo é esse governo, não seria interessante entender o que o povo espera dele e como ele está falhando em entregar isso?

E será que o espectador realmente se lembra de quais foram as ações e falas do presidente, ou dos governadores (que também estão nas tabelas) em relação à crise? Se uma tabela mostra uma aprovação maior dos últimos em comparação ao primeiro, não seria o caso de mostrar o que foi feito nas esferas estaduais, em comparação à federal, e de quem foi a responsabilidade por cada ato? Será que a realidade está refletida nas estatísticas ou alguma informação acabou contestada por fake news, ou omitida por outros meios de informação, para que tamanha aprovação continuasse existindo? 

Desculpem o mau humor, mas tinha a impressão de que o jornalismo servia para contextualizar e questionar, não para ler números numa tela. Vejo muito pouca utilidade num jornal que expõe o problema, mas não procura os motivos. Que impressiona com números altos e imagens horríveis, mas não explica o que está por trás desses números e dessas imagens. Que não interpreta. 

Mas voltemos à cultura, que é um mundo à parte. Lá, o esforço para contextualizar parece bem maior, e o problema é outro. É um problema de personalidade: somos jornalistas ou publicitários? Profissionais ou amadores? Blogueiros buscando fama ou repórteres tentando sobreviver? Influenciadores ou influenciados? Fãs ou críticos? Será que um dia ganharemos dinheiro com isso? Quando foi que começamos a replicar boatos sob a chancela do “diz site”? Pois é, já estava difícil muito antes da pandemia.

Tenho a sensação de que o jornalismo cultural foi ao mesmo tempo o mais beneficiado e o mais prejudicado pela cultura digital. De repente, todo mundo pode “consumir” cultura de onde estiver. De repente, todo mundo pode saber tudo sobre seus ídolos e os próximos lançamentos. De repente, todo mundo pode divulgar essas informações, e comentá-las. De repente, todo mundo é jornalista. De repente, ninguém mais é. 

Mas algo me diz que as pessoas ainda precisam de nós: precisam de quem se dedique a observar, organizar, questionar, relacionar, contextualizar, compreender. Só não encontram. Estamos perdidos. 

O que quero saber, então, é o seguinte: onde vocês procuram – e onde encontram – jornalismo hoje? Cultural, especialmente, mas não apenas. É na TV, num jornal, num portal, num canal de Youtube, no Instagram, no Twitter, no Facebook? Tik Tok? Whatsapp? Socorro. É nas pessoas ou nos veículos? Nos posts de uma distribuidora, do próprio cinema, da própria empresa de streaming (to pensando em cinema, mas vale para tudo)? É nos programas patrocinados ou encomendados por grandes redes? No bate-papo do cinéfilo amador? Não é em lugar nenhum? 

Onde estamos, afinal? E o que estamos fazendo para entregar ao leitor/espectador o que ele realmente precisa de nós? 

Thelma e Louise e Hunter

Quase trinta anos separam os filmes Thelma & Louise, clássico de 1991 escrito por Callie Khouri (que ganhou o Oscar pelo roteiro) e dirigido por Ridley Scott; e Swallow, novidade cult de Carlo Mirabella-Davis lançada entre 2019 e 2020, em cartaz no Mubi. De um lado, um roadmovie com sua dose de humor, uma dose de ação e outra dose generosa de Geena Davis e Susan Sarandon. Do outro, um drama um tanto aflitivo conduzido pela ainda desconhecida, mas interessantíssima Haley Bennett. Em ambos, mulheres aprisionadas. Em ambos, mulheres que machucam a si mesmas. 

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Malcolm & Marie

Depois de um atraso na forma de internet caída, enfim assisti ao filme-dê-erre da vez: Malcolm & Marie. Estava tão curiosa quanto receosa: tinha lido coisas boas e ruins, tinha visto o trailer e vinha cultivando uma vaga sensação de que aquela era uma obra cheia de ego. Um pastiche feito de imagens que mais pareciam do que eram, inflado por dois dos atores mais cultuados do momento. Bonito. Pretensioso. Falso. Já tinha um veredito antes de começar. 

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Vem aí: vídeos e podcasts

Depois de muito tempo andando em câmera lenta e oscilante rumo a nenhum lugar particularmente interessante, comecei este ano tentando colocar a vida de volta aos trilhos. Esta vida, quer dizer, a produtiva. O que só foi possível depois de entender que eu teria que criar novos trilhos sobre os quais colocá-la. Pois, mãos à obra: respirei fundo, olhei bem para minhas frustrações dos últimos anos e separei o que eu gosto e sei fazer do que eu escolhi abandonar completamente da minha vida (no fim, não era todo o jornalismo que eu abominava, mas parte dele. No fim, eu não queria ficar assim tão longe dele). Se vai dar certo? Ora, desta vez vamos ter que fazer dar. (Gostam desse otimismo, né? Esperem mais um mês. Ou uma semana).

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Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

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Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

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“A incrível história da Ilha das Rosas”: Utopia feel-good para abrir 2021

Quando ouvi falar num novo filme que se chamava A incrível história da Ilha das Rosas, lembrei imediatamente do curta de Jorge Furtado, Ilha das Flores – aquele sobre um lixão, que mostrava porcos, tomates e polegares opositores sucedendo-se uns aos outros num ciclo sem fim. Talvez você tenha visto na escola, sabe? Aquele. E achei curioso como, mesmo tão diferentes, as duas “ilhas” com nome de flor tinham alguma coisa em comum: ambas eram lugares fora da realidade, fora da civilização, longe dos olhos, apartadas do que se entenderia em qualquer tempo ou espaço por “terra firme”. Nenhuma das duas era uma ilha. E ambas eram incríveis.

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