Crítica: Café Society

Mais um ano, mais um filme de Woody Allen. O cineasta mais regular de Hollywood (não necessariamente em qualidade, mas em periodicidade) retorna aos cinemas em agosto com o longa “Café Society”, desta vez viajando de volta aos anos 30 entre Nova York e Los Angeles com Kristen Stewart e Jesse Eisenberg nos papéis principais. Acertou se você pensou que esta dupla não soa como o casal mais ardente (ou mais expressivo) que o diretor poderia ter escolhido, mas este é apenas um entre os muitos problemas de sua nova obra.

O filme acompanha o personagem de Eisenberg, Bobby, um jovem inexperiente que vai a Hollywood procurar trabalho na agência de atores comandada por seu tio, Phil (Steve Carell). Lá, ele se apaixona pela secretária da empresa, Vonnie (Stewart), uma garota de gostos simples que diz detestar a futilidade do universo do cinema – mas que eventualmente acaba se rendendo a ela. Isso tudo é narrado em off por uma voz que não combina muito bem com o tempo nem com o conteúdo do filme, mas basta uma pesquisada rápida para compreendermos: é o próprio Allen que faz as vezes de narrador.

Enquanto Bobby e Vonnie tentam convencer o público de que, de fato, têm sentimentos e merecem sua atenção, quem realmente se destaca são os personagens secundários. Ben, o irmão gângster de Bobby interpretado por Corey Stoll, funciona como alívio cômico e injeta um toque de absurdo na história ao resolver seus problemas à moda Corleone.

Já Phil é apresentado no início como um homem arrogante e esnobe, que faz o sobrinho esperar por semanas até conseguir uma reunião e, durante ela, passa mais tempo atendendo a telefonemas do que ouvindo o garoto. À medida que a trama avança, porém, ele vai se revelando um personagem muito mais complexo e sensível e faz pensar se o filme não deveria ter adotado o seu ponto de vista.

Phil é a terceira ponta do triângulo amoroso formado por ele, Bobby e Vonnie, mantendo o padrão de Allen de parear homens mais velhos com mulheres de vinte e poucos anos. Sua atitude a respeito da relação, porém, é um pouco infantil e parece ignorar o fato de que Vonnie não corresponde seus sentimentos (ou, pelo menos, não parece corresponder, mas isso pode ser apenas uma falha de atuação).

Apesar de esse triângulo render algumas situações inusitadas, é difícil acreditar na facilidade com que ele se dissolve. Pior do que isso, o roteiro não se preocupa em criar algum momento de crise ou reviravolta e acaba apostando num caminho fácil e tedioso – lembrando um pouco outras desventuras amorosas como “Azul é a Cor Mais Quente” e “Julieta”.

Quem também dá as caras é a atriz Blake Lively, espantosamente subaproveitada. Comentar seu papel seria revelar demais, mas basta dizer que ela é tratada como um acessório narrativo, sem motivações ou objetivos, e que qualquer atriz menos talentosa poderia ocupar seu lugar.

Se o roteiro e os protagonistas não ajudam o filme a se sustentar, pelo menos a fotografia, os cenários e o figurino (especialmente o figurino) são dignos de admiração. Além de belíssimos, os trajes desenhados por Suzy Benzinger (parceira habitual de Allen desde “Tudo Pode Dar Certo”) ajudam a contar a história quando outros elementos falham: no caso de Stewart, suas escolhas de estilo falam muito mais do que seus gestos ou palavras.

“Café Society” estreia no Brasil no dia 25 de agosto e é o 46º longa-metragem de Woody Allen.

Crítica: Caça-Fantasmas (2016)

Depois de meses de espera, chegou a hora de falar de “Caça-Fantasmas”. Não o de 1984, mas o reboot que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 14 de julho, com quatro mulheres no lugar dos nerds mais queridos do cinema e um bonitão no lugar da secretária.

Filmes como este são mais do que entretenimento: são manifestos. Eles vêm com uma bagagem pesada e enchem o público de expectativas (e preconceitos) antes mesmo de estrearem. Eu mesma tinha meus receios: não seria a troca de gêneros apenas mais uma forma de afirmar o abismo entre os sexos? Ou, pior, não seria um jeito de aproveitar a discussão feminista para ganhar uns milhões a mais?

É claro que não. Para começar, quem assina a direção é Paul Feig (“A Espiã Que Sabia de Menos”, “As Bem-Armadas”, “Missão Madrinha de Casamento”) e o roteiro é dele, ao lado de Katie Dippold (“Parks and Recreation”). Ambos têm experiência com comédias lideradas por mulheres e enxergaram em “Caça-Fantasmas” uma oportunidade para mostrar a um público de massa que elas podem, sim, ser tão engraçadas quanto os homens.

E como podem! As quatro protagonistas do reboot – Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones – formam um grupo infinitamente carismático, cada uma com sua personalidade e suas especialidades, e vão fazer você rir como há muito tempo não fazia. Aliás, eu ri alto e passei vergonha no cinema.

Além de cômicas, todas as personagens são bem construídas e evoluem ao longo do filme: Abby (McCarthy) e Erin (Wiig) reatam uma amizade que estava suspensa; Holtz (McKinnon), talvez a grande revelação do filme, se apega às novas companheiras como uma família; e Patty (Jones), ao contrário do que os trailers podiam sugerir, não é apenas a “personagem negra com habilidades sociais”: ela tem um conhecimento de História que se revela essencial e, junto com as Caça-Fantasmas, encontra a valorização que procurava.

Vocês podem achar isso um pouco injusto, mas um dos grandes trunfos do filme é o personagem Kevin, vivido por Chris Hemsworth. Sim, um homem. E isso não é problema nenhum, porque homens e mulheres podem ser engraçados juntos – e esse personagem é uma das melhores críticas à Hollywood machista que você vai ver na vida.

Por quê? Bem, Kevin é um secretário burro como uma porta, mas acaba sendo contratado só porque é bonito (e porque tem um bom coração). Ele é a paródia perfeita das personagens gostosas, mas inúteis, que só são inseridas no roteiro para serem admiradas ou servirem aos interesses dos protagonistas masculinos. Aqui, porém, ele tem uma vida própria e acaba evoluindo tanto quanto suas colegas, tornando-se um personagem interessante e querido. Mais um ponto para Feig e Dippold.

O que torna a mensagem do filme mais impactante e transformadora é o fato de que o gênero das personagens não faz nenhuma diferença na história, nem determina o sucesso ou o fracasso das Caça-Fantasmas. Na verdade, as únicas pessoas que mencionam o fato de elas serem mulheres são os “haters” da internet, em comentários lidos por elas numa alusão às críticas reais recebidas pelo filme, e o vilão fanboy, que fala num breve momento que elas “lutam como garotas”. Não que a misoginia seja sua principal característica – isso não é necessário. Ele é apenas mais um lunático que quer dominar o mundo e elas, as heroínas nerds que querem salvá-lo. Exatamente como no original.

O que é diferente dos primeiros filmes são os combates com os fantasmas. Aqui, eles são muito mais numerosos e há uma sequência de ação bastante divertida antes do confronto final com o vilão (destaque para os chicotes de Holtz e as luvas de Abby). O grand finale, porém, acaba sendo um pouco decepcionante comparado ao que vinha sendo mostrado até ali, mesmo que seja uma referência clara ao longa de 84, com seus clichês propositalmente cafonas. Felizmente, a batalha é curta e não há tempo para o melodrama: logo, estamos de volta às piadas terríveis de Kevin e chegamos aos créditos finais. Mas não levante ainda… Há um presentinho aguardando os fãs das antigas no final.

Crítica: Em longa raso e cheio de preconceitos, Porta dos Fundos deixa para trás o sarcasmo inteligente que fez sua fama na internet

Fico feliz que vocês não tenham votado naquele filme russo dos cegos viados. Aliás, aquele cego viado gordo e obeso era ótimo”. Minutos depois, outra tentativa de piada: “Não posso sair daqui sem comer, pelo menos, uma indicada a atriz coadjuvante”. Quase se podem ouvir as risadas gravadas ao fundo, como num programa de humor ruim em que é preciso avisar o público qual é o momento certo de achar graça. Mas não há graça.

Esse é o tipo de humor que o público verá em doses cavalares no primeiro longa-metragem do Porta dos Fundos, “Contrato Vitalício”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 30 de junho. Um humor bem diferente do tipo de sátira inteligente que fez a fama do grupo – algo mais próximo de uma briga de crianças que, depois de esgotarem os argumentos, decidem ganhar a discussão xingando a mãe. Porque é mais fácil elevar a voz e disparar insultos do que colocar o cérebro para funcionar.

A história, que poderia compensar o tom errado das piadas, não ajuda em nada: um ator chamado Rodrigo (Fábio Porchat) e um diretor de cinema chamado Miguel (Gregório Duvivier) são premiados em Cannes. Durante a bebedeira de comemoração, assinam um contrato para trabalharem juntos em todos os seus filmes dali em diante.

Naquela noite, Miguel desaparece – sugado por alienígenas para o centro da Terra privada adentro. Dez anos depois, ele retorna e recruta Rodrigo para estrelar um filme sobre sua experiência fantástica, escalando prostitutas (todas travestis, porque preconceito não é problema para o grupo) e mendigos como seus assistentes e figurantes.

Esta é a história.

Juro.

Quem assistiu ao trailer de “Contrato Vitalício” deve ter notado as referências de “Se Beber Não Case” e, de fato, o longa de 2009 parece ter sido uma fonte abundante de inspiração. O problema é que a versão do Porta exagera na dose: é como se todos os coadjuvantes fossem loucos como Alan (o personagem de Zach Galifianakis) e sua única função fosse irritar o protagonista – e, consequentemente, o pobre e, a essa altura, arrependido espectador.

O filme poderia abraçar sua vocação trash e não se levar tão a sério, como um Trapalhões nos velhos tempos, mas não o faz. Pretensioso, o roteiro tenta justificar 100 minutos de tortura psicológica com uma lição de moral muito pouco convincente (e com uma virada que, infelizmente, chega tarde demais).

Pode-se argumentar que o Porta dos Fundos explora uma comédia do absurdo, como um Monty Python em seu tempo, mas a comparação seria enormemente ambiciosa. O grupo britânico, apesar de também arranhar os limites do bom senso em filmes como “O Sentido da Vida”, trabalhava seus diálogos com muito mais sutileza e preferia mostrar a hipocrisia da sociedade nas ações dos personagens e nas situações impossíveis, não em frases gratuitamente ofensivas.

Ninguém esperava que “Contrato Vitalício” fosse politicamente correto, mas, pelo menos, esperava-se que fosse engraçado. O que se vê em tela, porém, é muito mais apelativo e muito menos interessante do que do que o grupo tem feito na internet desde sua criação e, em momento nenhum, consegue provocar um riso que não seja nervoso ou constrangido. As críticas, que vão desde a obsessão pelas redes sociais à inconveniência do repórter de fofocas, são rasas e repetitivas, as piadas não vão além do senso comum e o sofrimento expresso no rosto de Porchat, durante todo o filme, reflete o sentimento de todos nós: só queremos que tudo aquilo acabe logo.

Minha sugestão? Guarde seu dinheiro e vá assistir outra coisa.

Texto publicado inicialmente no Guia da Semana.

Crítica: “Capitão América: Guerra Civil” acerta em quase todos os pontos, mas não se arrisca

Quando me perguntaram o que esperar de “Capitão América: Guerra Civil”, novo longa da Marvel Studios que chega aos cinemas nesta quinta-feira (28 de abril), a resposta foi fácil: “não há razão para ser ruim”. Este, afinal, já é o 13º filme da marca e, se há uma coisa que a Marvel aprendeu em todos estes anos, foi a manter um padrão de qualidade. E a jogar seguro.

O filme coloca os Vingadores numa encruzilhada que dividirá o time em dois: de um lado, Tony Stark (Robert Downey Jr.) lidera o grupo que defende que os heróis sejam subordinados a uma organização internacional; do outro, Steve Rogers (Chris Evans) comanda os que preferem continuar autônomos, como uma força de defesa independente de vontades políticas. Quem diria: o bad boy começa a gostar de regras e o mais exemplar dos capitães é agora um fora-da-lei.

O longa se baseia na história em quadrinhos de mesmo nome, mas adota um caminho levemente diferente. Enquanto, nos quadrinhos, o tratado exige que todos os indivíduos com poderes se identifiquem, no filme o acordo se limita aos Vingadores e tem muito mais a ver com hierarquia do que com uma “caça às bruxas” (pelo menos por enquanto, já que uma lista mais ampla tem sido trabalhada na série “Agents of S.H.I.E.L.D.”).

A assinatura é a razão inicial para a ruptura, mas são questões pessoais que mantêm os amigos separados – mais uma vez, Bucky (Sebastian Stan) está no centro do conflito, manipulado como Soldado Invernal. Isso poderia ser um ponto negativo (cá entre nós, Stan não foi o maior acerto da franquia até agora), mas o anti-herói aproveita seu longo tempo de tela para afinar o tom – mais humano e ambíguo que no filme anterior.

A introdução dos novos heróis, elemento-chave para manter o interesse do público depois de tantos títulos, é inteligente: sem picadas nem tio Ben, o Homem-Aranha (Tom Holland) entra para o grupo, tagarelando e jogando teias como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Já para apresentar Pantera Negra (Chadwick Boseman), um ou dois diálogos resolvem as questões mais urgentes e já podemos vê-lo em ação. Ainda bem.

O filme não tem um grande vilão (elemento que, com exceção de Loki, não é o forte da Marvel), mas, desta vez, isso é proposital: esta luta não é entre o bem e o mal, mas entre uma noção de certo e outra. Não são dois egos super-poderosos que se enfrentam, mas é toda uma ideia de família e cumplicidade que desmorona, enquanto a sociedade exige que uma escolha seja feita. É o fim da neutralidade e, com ela, do maniqueísmo.

“Guerra Civil” é correto em praticamente todos os pontos: tem um pano de fundo político bem trabalhado, motivações pessoais convincentes e pequenas sub-tramas que tornam a escolha de um lado tão difícil para o espectador quanto para os heróis. E boas cenas de ação, é claro, bem coreografadas e montadas. Mas é difícil ignorar a sensação de déjà-vu que cada reunião dos Vingadores traz consigo.

A fórmula “humor-ação-amizade-heroísmo” sempre funcionou bem, mas tem tornado todos os filmes centrais da Marvel um pouco semelhantes, como novos episódios de uma série de TV. Provavelmente, isso não é tanto um defeito quanto um sintoma da fusão de mídias que a própria marca propôs quando inaugurou seu “Universo Cinematográfico” e começou a integrá-lo com spin-offs televisivos. Talvez a tendência seja mesmo esta: menos surpresa e “uau”; mais continuísmo e satisfação.

Prova disso é o fato de que o espectador precisa de uma boa dose de conhecimento prévio para aproveitar “Guerra Civil”: “Capitão América: O Soldado Invernal” e “Vingadores: Era de Ultron” são essenciais. Também ajuda saber que este é o primeiro título da chamada “Fase 3” da Marvel, que culminará na batalha contra Thanos (o grandalhão de “Guardiões da Galáxia”) em 2019.

Em outras palavras, estamos esperando por uma conclusão que só acontecerá daqui a três anos e, provavelmente, será mais um início do que um fim. É a lógica dos quadrinhos transposta para o cinema: um jogo seguro, lucrativo e sem fim.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “O Caçador e a Rainha do Gelo” desperdiça o potencial de um grande elenco

Não era preciso muito para que “O Caçador e A Rainha do Gelo” fosse um bom filme. Ou, pelo menos, um filme de aventura divertido para assistir com os amigos. Com um elenco formado por Charlize Theron, Emily Blunt, Jessica Chastain e Chris Hemsworth, duas vilãs com poderes mágicos e um casal de heróis-modelos, bastava uma história épica genérica e algumas cenas de ação bem coreografadas para que o público fosse cativado. Mas o improvável aconteceu.

A sequência de “Branca de Neve e O Caçador” não só desperdiça o potencial do seu quarteto de protagonistas, como adota um ritmo lento e entediante. Ao excluir da fórmula o elemento que pesara negativamente no filme anterior (Kristen Stewart, no caso), “O Caçador e A Rainha do Gelo” prova que o problema da franquia não é o elenco, mas sim o conceito como um todo – ou a falta de um.

Apesar de prometer ação e romance, o que o filme entrega é uma jornada cansativa cheia de diálogos pretensiosos e pouco significativos. A ação, em si, é pouca e o romance, tolo. Em certo momento, para “preencher a cota do feminismo”, a personagem de Chastain discursa sobre o fato de que Eric, personagem de Hemsworth, não pode decidir sobre os seus sentimentos. “Não é sobre o que você faz ou deixa de fazer”, ela diz. “Não é porque você cumpriu sua missão que eu tenho a obrigação de amar você”, ela diz. Em seguida, dorme com ele.

O filme é pontuado por diversas declarações sobre “a força do amor” e “como o amor vence tudo”, o que pode afastar o público masculino (e, justiça seja feita, o feminino também). A trama é, em si, um manifesto sobre isso: Freya (Blunt) e Ravenna (Theron), a rainha do primeiro filme, são irmãs. Ravenna sempre teve poderes, enquanto Freya nunca manifestou os seus, mas, um dia, após ter o coração brutalmente partido, ela finalmente descobre a magia e se torna a Rainha do Gelo, partindo para erguer um exército onde a única regra é “não amar”.

É claro que Eric e Sara (Chastain) se apaixonam e são expulsos do exército, até que o espelho mágico reaparece, após a derrota de Ravenna pela Branca de Neve. Ao lado de quatro anões (porque é preciso manter uma ligação com o clássico), eles se unem numa corrida para que o objeto não caia nas mãos de Freya.

Se Hemsworth e Chastain são criminosamente mal aproveitados, Theron consegue se sobressair e dar um sopro de vida ao filme. Suas cenas são, sem dúvida, as mais interessantes e sua personagem, como no primeiro filme, é a que concentra a atenção do público. Blunt, no papel da Rainha de Gelo, pode até ter momentos fortes, mas é rapidamente reduzida à marionete ingênua da irmã. Se não fosse por sua fraqueza, talvez o filme tivesse um desenvolvimento melhor.

“O Caçador e A Rainha de Gelo” estreia no dia 21 de abril nos cinemas de todo o país.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Mogli – O Menino Lobo” eleva a animação realista ao próximo nível

Qual é a linha exata que separa um live action de uma animação? Na nova adaptação do clássico “Mogli – O Menino Lobo”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (14/04) sob direção de Jon Favreau (do adorável “Chef”), os limites se revelam mais turvos (e irrelevantes) do que nunca.

O filme é em todos os sentidos mais intenso que o desenho de 1967, com o qual muitos espectadores tiveram o primeiro contato com a história de Rudyard Kipling: há mais aventura, mais drama, mais tensão, mais emoção. Mas nem era preciso. Com aqueles efeitos visuais, até a mais fraca das tramas seria hipnotizante.

“Mogli – O Menino Lobo” causa um espanto semelhante ao que causou “Avatar” em 2009, como se uma revolução técnica de repente desabrochasse diante dos olhos do espectador. A diferença é que, aqui, não é só o visual dos animais e da floresta (todos construídos em CGI, sobre um cenário quase completamente coberto por panos azuis) que surpreende, mas toda a qualidade da produção.

As vozes originais, gravadas por nomes como Bill Murray (o urso Baloo), Idris Elba (o tigre Shere Khan), Lupita Nyong’O (a loba Raksha) e Scarlett Johansson (a cobra Kaa), são tão responsáveis pela imersão na fantasia quanto o design – e o elenco faz um trabalho tão bom que o fato de dois animais digitais estarem conversando entre si (numa floresta digital) nunca parece falso.

Se isso tudo não faz de “Mogli – O Menino Lobo” uma animação, é porque existe um único ator em cena (Neel Sethi, que interpreta Mogli), acompanhado por alguns detalhes do cenário e eventuais marionetes. A captura de movimento dos animais e a criação dos cenários virtuais foram feitos antes das filmagens com o ator-mirim e combinados posteriormente.

O roteiro, escrito pelo quase estreante Justin Marks, tem sacadas inteligentes e funciona bem tanto para o público infantil quanto para o adulto – pelo menos, na maior parte do tempo. Uma cena, em especial, pode incomodar: quando o gigantesco orangotango Louie (Christopher Walken, cuja voz não combina tão bem com o personagem) tenta convencer Mogli a ajudá-lo, tem início um número musical desnecessário e um tanto inseguro – nem falado, nem propriamente cantado. Em seguida, acontece uma perseguição dentro das ruínas que parece saída de um videogame. Passado esse trecho, porém, o filme volta aos trilhos.

“Mogli – O Menino Lobo”, ao contrário de outras refilmagens recentes de clássicos da Disney, é um filme necessário. Favreau se permite distanciar do original (considerando, aqui, a animação dos anos 60 e não o livro), criando uma fábula mais atual, mais poderosa e mais livre – tanto no conteúdo quanto na forma. Despreocupado com rótulos, o filme consegue explorar todas as possibilidades do cinema como meio e atinge o “status” de experiência. Uma experiência que deve conquistar as novas (e as velhas) gerações.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: novo filme dos irmãos Coen, “Ave, César!” é um manifesto sobre o cinema

Um filme dos irmãos Ethan e Joel Coen nunca é, apenas, um filme: é um manifesto. A dupla que trouxe aos cinemas alguns dos mais impactantes (e, por vezes, estranhos) filmes desta geração, como “O Grande Lebowski”, “Queime Depois de Ler”, “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, e “Inside Llewyn Davis”, faz agora uma sarcástica e apaixonada ode ao cinema no longa que estreia no dia 14 de abril: “Ave, César!”.

A primeira impressão que se tem sobre “Ave, César!” é que se trata de uma comédia, uma sátira do universo cheio de egos e intrigas que é um estúdio de cinema. De fato, estão lá os atores famosos com segredos sujos, os caipiras deslumbrados, a atriz que engravida e não sabe quem é o pai, a repórter do tabloide (e a outra, que se diz “uma jornalista séria”, mas busca os mesmos furos) e todo aquele circo que conhecemos por Hollywood.

E estão lá grande parte das estrelas do cinema atual: George Clooney, Josh Brolin, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Tilda Swinton, Ralph Fiennes, Frances McDormand (responsável pela melhor sequência do filme), Jonah Hill, Christopher Lambert e o ainda não tão conhecido Alden Ehrenreich, que carrega um dos papéis principais. Para onde se olha, enfim, há um rosto conhecido – e algo me diz que não é por acaso.

O filme não se resume, contudo, a uma grande piada interna. Para falar de cinema, “Ave, César” passeia por diversos gêneros e os abraça com unhas e dentes: entram em cena grandes momentos de comédia, drama, musical, noir e até um pouco de romance – tanto dentro das produções do estúdio onde se passa a história, quanto na narrativa principal.

Os Coen também aproveitam a oportunidade para fazer algumas críticas sérias: em particular, ao comunismo. O filme, como o excelente “Trumbo” (2015), se passa nos anos 50 e aborda um certo “mal estar” que se deu naquela época entre os roteiristas, acusados de inserirem mensagens comunistas nos filmes, e os estúdios de Hollywood.

Aqui, um grupo deles se identifica abertamente com o partido russo e reclama da falta de reconhecimento dos estúdios pelo seu trabalho. O discurso político, porém, é rapidamente ofuscado pela ingenuidade desses personagens, que, como os escravos do filme que o ator Baird Whitlock (Clooney) está gravando – o tal “Ave, César!” do título-, obedecem cegamente a um líder que não lhes dá nada em troca.

O filme usa essa visão comunista para provocar uma crise de fé num dos personagens, fazendo-o questionar se o estúdio estaria ou não explorando seus funcionários e se os filmes que eles fazem seriam mesmo instrumentos de manipulação e manutenção do status quo. O interessante é que, mesmo que essa questão seja colocada de forma tão cômica, há um fundo de verdade que provoca o espectador.

Outro protagonista – o executivo do estúdio interpretado por Josh Brolin – também tem seus sentimentos pela profissão colocados à prova, depois de receber uma proposta de emprego de uma empresa de aviação (interessada em transportar bombas de hidrogênio). Do outro lado da mesa, um homem alega que “o cinema não é uma indústria séria”, que “filmes são frívolos” e que “com a chegada da televisão, ninguém mais vai querer assistir a filmes”. 60 anos depois, ainda estamos falando sobre eles.

Se há um defeito em “Ave, César!” que pode custar o coração do público, é que o filme termina num tom decrescente. Depois de tantos momentos de tensão e expectativa, de tantas sacadas hilárias e de tantos questionamentos, o fechamento da história é, apenas, uma espécie de retorno à estaca zero – como, aliás, é bem comum nos trabalhos dos irmãos. Há, sim, a sugestão suave de mudança numa palavra gaguejada ou num suspiro mais profundo, mas os segundos finais, simplesmente, não dão ao espectador um sentimento de satisfação. Apesar de tudo, faltou alguma coisa… Talvez um simples e tradicional “O Fim”.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: Kevin Costner vive anti-herói perturbado em “Mente Criminosa”

Nem todo filme precisa ser cabeça. Mas um filme despretensioso pode ter, simplesmente, as doses certas de ação, drama e suspense para manter o espectador interessado até o fim. “Mente Criminosa”, que estreia no próximo dia 14, é assim.

O filme dirigido por Ariel Vromen (“O Homem de Gelo”) traz Kevin Costner no papel principal, como um anti-herói que lembra os valentões de Liam Neeson (um pouco como Costner já fizera em “3 Dias Para Matar”), mas com uma atuação consideravelmente mais compromissada.

O ator interpreta Jericho, um sociopata que passou a maior parte da vida na prisão, porque um acidente na infância fez com que ele perdesse completamente a empatia e as noções de certo e errado (o que, somado às circunstâncias desse acidente, transformaram-no em um assassino).

Essa deficiência, porém, torna-o o candidato perfeito para uma ação desesperada da CIA: a replicação das memórias de um agente morto em seu cérebro. O espectador pode questionar a base científica para tal operação, mas o pouco de explicação que o filme coloca é suficiente para que se “compre” a história e siga sem problemas.

Passado o estranhamento inicial, o público logo se verá hipnotizado pela evolução de Jericho – que passa a ter os dois personagens dentro de si, numa convivência conflituosa que rende ótimos momentos. Vale notar que o criminoso nunca deixa de ser ele mesmo (ele não “reencarna” o agente, como seria a opção mais charlatã), mas “agrega” um pouco dos sentimentos e conhecimentos do outro em sua própria personalidade.

Além de Costner, o longa também traz no elenco nomes como Gal Gadot, Ryan Reynolds, Tommy Lee Jones, Gary Oldman e Michael Pitt. Gadot, que recentemente roubou a cena em “Batman vs Superman” como a Mulher Maravilha, não tem aqui um papel tão empoderador – ela é, afinal, “a esposa” e “a mãe” que precisa ser resgatada em algum momento –, mas, ainda assim, é uma personagem forte que não vai decepcionar o público feminino.

Se o elenco é um dos pontos altos do filme, o ponto baixo é a dupla de vilões formada por Antje Traue e Jordi Mollà, cujas motivações são mostradas apenas vagamente e cujas personalidades se resumem a estereótipos de “chefão calmo e violento” e “capanga devota e ineficiente”.

“Mente Criminosa” é um filme médio que acaba ganhando o espectador por acertar no tom: há um pouco de humor, romance e suspense e um tanto de drama, mas o foco nunca deixa de ser a ação. Despretensioso, mas bem feito, este é aquele filme que poderia passar na televisão no meio da tarde – e você assistiria até o último minuto sem mudar de canal.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: apesar das expectativas, “O Escaravelho do Diabo” não consegue deixar sua marca

Se você está lendo este texto, provavelmente já ouvir falar em “O Escaravelho do Diabo”. O longa, que chega aos cinemas no dia 14 de abril, é a adaptação de um dos maiores clássicos juvenis brasileiros, publicado inicialmente em 1953 por Lúcia Machado de Almeida, depois incluído na Coleção Vaga-Lume em 1972 e reeditado infinitamente (27 vezes, na verdade) de forma que, praticamente, todas as gerações já tiveram algum contato com ele.

O filme toma algumas liberdades, mas tenta manter a atmosfera de suspense da obra original. A história, em geral, é a mesma: um assassino em série está atacando ruivos numa cidade do interior e, antes de matar cada alvo, envia a ele um escaravelho. Quem investiga o caso é o irmão da primeira vítima, Alberto (Thiago Rosseti), que, no filme, é um garoto de 12 anos.

Esta é uma das principais diferenças em relação ao livro, já que o protagonista costumava ser um estudante de medicina, bem mais velho. Talvez a intenção seja que, na tela, as crianças se identifiquem com alguém da idade delas, mas é questionável se isso funcionará ou não com um personagem tão apático.

Após ver o irmão morto, por exemplo, o garoto tem uma conversa com o delegado Pimentel (Marcos Caruso) que só pode ser descrita como surreal: ele não apenas mostra que não entendeu o que aconteceu (um sinal de choque, mas pouco convincente na cena), como não se enraivece quando o policial o aborda de forma totalmente insensível. Mais tarde, Alberto será mostrado como um jovem de instinto investigador, mas suas pesquisas sobre o assassino terão pouca ou nenhuma relevância para o desenvolvimento da história.

O filme sofre um pouco com atuações caricatas (herança, sem dúvida, do passado novelesco do diretor), mas sua maior fraqueza é outra: para um suspense de assassinatos, o assassino, simplesmente, não dá medo. Ele é, sim, apresentado como um louco de sangue frio, que mata sem hesitar (o que, provavelmente, é culpado pela classificação de 12 anos), mas, quando finalmente podemos vê-lo em seu “habitat” ou conhecemos seu passado, as visões são, apenas, bizarras – com direito a grunhidos, contorções e fantasias que caberiam melhor a um filme de público-alvo bem abaixo desses 12 anos.

“O Escaravelho do Diabo” não é uma adaptação ruim, mas deve funcionar para uma parcela pequena do público. Algumas cenas são fortes demais para crianças menores, ao mesmo tempo em que o filme não é desafiador o suficiente para as mais velhas. Para os pais, não será nenhuma tortura (nós sabemos o que vocês passam…), mas também não será especialmente estimulante. Infelizmente, um dos filmes mais esperados do ano deverá, simplesmente, passar batido.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Rua Cloverfield, 10” combina o realismo do suspense psicológico com um toque de sci-fi

Preciso confessar: nunca tinha visto “Cloverfield – Monstro”. Não porque eu tenha algum problema particular com filmes de monstros (pelo contrário, é o meu tipo de filme), mas, simplesmente, nunca sentei no sofá e tomei uma atitude a respeito. Isto é, até assistir a “Rua Cloverfield, 10” e perceber o que eu estava perdendo.

A sequência do cultuado found-footage da produtora de J.J. Abrams, que chega aos cinemas no dia 7 de abril, não é bem uma sequência, nem é um found-footage (para alívio de muitos de nós), mas é bom o suficiente para fazer qualquer um ir correndo atrás do original. Aliás, é ridiculamente bom.

O filme acompanha a aspirante a estilista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que, por alguma razão, acaba de abandonar o noivo. Na estrada, ela sofre um acidente e acorda dentro de um bunker, onde vivem Howard (John Goodman, numa atuação arrepiante) e Emmett (John Gallagher Jr.).

Michelle logo descobre que não tem permissão para sair, porque Howard acredita que o ar, do lado de fora, está contaminado. Se isso é verdade ou não, ela não pode dizer, já que eles não têm nenhum tipo de comunicação com o mundo exterior. Para piorar, a previsão é que os três permaneçam trancados por um ou dois anos.

Para quem, como eu, esperou até agora para dar uma olhada no primeiro filme, minha dica é: espere um pouco mais. “Rua Cloverfield, 10” funciona muito bem sozinho e, arrisco dizer, até melhor. A relação com o primeiro filme tem a ver, apenas, com o que acontece do lado de fora do bunker – e, mesmo assim, é uma relação distante.

O que o longa de estreia de Dan Trachtenberg faz é misturar a ficção científica do universo de “Cloverfield – Monstro” com um suspense psicológico de fincar as unhas na poltrona. A maior parte do filme, afinal, se ocupa não com monstros e possíveis ataques químicos, mas com as relações de desconfiança entre os três protagonistas.

Winstead e Goodman são o coração do filme, carregando em seus olhares um milhão de significados. De um lado, Michelle tem a consciência de que pode estar sendo vítima de um sequestro e que seu abdutor pode ser qualquer coisa entre um louco paranoico, um estuprador ou um assassino (ou todas as anteriores) – mas também tem que lidar com a possibilidade de que o mundo exterior tenha se tornado inabitável e que seu sequestrador, na verdade, seja seu salvador. Do outro, Howard passou a vida toda se preparando para o apocalipse e, quando ele finalmente chega, não recebe de seus “hóspedes” a gratidão esperada. Como transformar aquele ambiente no lar perfeito que ele sonhou?

“Rua Cloverfield, 10” é uma opção obrigatória para fãs de suspense e ficção científica. Para quem tem um pé atrás por ser sequência, não há razão para se preocupar: além de diferente do anterior na forma, o filme também é bastante independente no tema, existindo sozinho ou como parte de algo maior. Estreia nesta quinta-feira.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.