Antes de viajar

Nunca fui muito de ter medos. Minha mãe vivia falando que eu era meio corajosa demais, coração de barata e tal; e isso, quase sempre, foi verdade. Mas eu tenho pelo menos um pânico muito real. Que é viajar.

Não viajar, viajar em si – pegar o avião, o carro, estar num lugar estranho, longe de casa, das pessoas… A graça são justamente os lugares estranhos, as camas estranhas, as ruas estranhas, acho fascinante ouvir pessoas que não falam a minha língua e a rotina perfeitamente calculada do avião é, para mim, quase reconfortante. Sobe, desata o cinto, lê um livro, serve a comida, escova os dentes, estica as pernas, vê um filme, dorme, acorda, olha a janela, repete. 

O problema é tudo, absolutamente tudo, o que vem antes disso. Tudo aquilo que pode dar errado e que pode fazer a viagem, vejam só, não acontecer. 

Para Portugal, o desespero começou no planejamento, meses atrás. “Ah, mas essa é a parte boa!” – ouvia enquanto pesquisava cidades, estadias, aluguéis de carro, passagens de ônibus, cotações de todo tipo. Talvez fosse mesmo, se feita por qualquer outro – e olha que eu o fiz impressionantemente bem. É que não consigo evitar pensar que, se o apartamento se revelar uma espelunca, se o orçamento estiver generoso demais ou apertado demais, se o carro for muito pequeno, se a previsão do tempo estiver errada, a culpa vai ser exclusivamente minha. Terei esquecido de pensar em algum detalhe que qualquer pessoa mais relaxada teria considerado – porque a pressão por pensar em tudo faz a gente escolher os caminhos mais complicados. Ah, a ironia.

Mas agora o roteiro está feito e tudo está pago. Espere. O que é essa dor esquisita aqui, faltando duas semanas para decolar? E se eu tiver uma emergência por lá? Coisas estranhas começam a aparecer. E desaparecem assim que me permito esperar, inspirar, expirar. Olho de novo: não poderia estar mais normal. 

Faltando uma semana, sinto que me animei. Vamos às malas? Oba! Hora de usar meus melhores casacos. Ou não? O quão frio, exatamente, vai estar…? Aiai. Até a minha cachorra sabe que o clima muda dentro e fora de mim quando estamos às vésperas de viajar. Reviro meu guarda-roupa, encho uma bolsa de remédios, me enterro em documentos, calculo todas as variáveis e decido que nenhuma delas é suficientemente favorável. “Estou levando coisas demais” e “estou deixando de levar algo essencial” convivem lado-a-lado sem, aparentemente, se anular. 

Finalmente, os dias que antecedem a partida são tomados por um torpor inútil, uma espera, um looping exaustivo de escrever, checar e riscar itens em listas espalhadas por três cadernos na esperança de controlar um futuro que não tem muito onde errar. 

Hoje, faltam três dias para o embarque e ainda sobram dois ou três fantasmas espiando sobre meus ombros. Eles habitam aeroportos e cochicham sobre passaportes, passagens, seguros, riem de algum documento que não vai bater. Falam da mala despachada que não vai chegar e lembram que é ano de Covid, então é preciso imprimir comprovante de vacinação, fazer exame de PCR, preencher formulários sanitários de dois países diferentes – mas isso, só na véspera do voo, por sadismo dos ministérios. O check-in, só 24h antes, ou tinha que pagar um rim e um olho para escolher lugar. Vamos sentar juntos? A essa altura, isso nem é o que me preocupa mais (mas a esperança está aí, de dedos cruzados). O importante é chegar lá, mesmo que isso envolva uma escala de cinco horas para um voo que, descobri há alguns dias, será de ridículos quinze minutos. Primeira cagada detectada? Tarde demais. 

Mas por que será que só eu estou me preocupando com isso tudo? 

Ah, sim, porque provavelmente eu não deveria. Ninguém precisa perder a cabeça por algo que tanta gente faz todo santo dia. Sou excelente em sofrer à toa.

E escrevo este relato, sincero e um pouco envergonhado, porque, às vezes, o horror abstrato perde um pouco da monstruosidade quando aprisionado, assim, no papel. Coisas escritas parecem mais óbvias, mais simples, meras sequências de tarefas pequeninas a realizar – por isso me cerco de listas, que tiram da memória a obrigação de trabalhar sob pressão e funcionam como um atestado de que vai ficar tudo bem. A viagem está pronta, afinal. Você já fez isso antes, nada jamais deu errado, e nem sozinha você está.

(Boba sou eu de achar que tenho que estar do outro lado do oceano para começar a viajar.)

Leia-me ou me devoro

Não é que eu não consiga escrever.

Mas não tenho conseguido, não é? O último texto que publiquei data de cinco meses atrás, quase exatamente. E, em minha defesa, eu bem que tenho tentado: abro o caderno, o computador, rabisco alguma coisa, sinto-me exposta. Percebo-me ridícula, paro e apago. Desescrevo – o que significa, ironicamente, que eu escrevi. 

Tinha conseguido, portanto, produzir uma frase. Mas, uma vez ali, ela soou alheia, como uma cópia falsa – repetitiva, apagada e riscada. Então, vamos começar de novo: o que uma pessoa de 34 anos escreve hoje em dia? Essa é difícil. Não sou boa de encontrar outras de mim por aí. Reformulemos: o que é que eu escrevo hoje em dia? Ora, não me olhe assim, é uma pergunta genuína.

Reconheço que tenho algumas respostas. Escrevo, desde o final do ano passado, um rascunho de livro infanto-juvenil. Com bruxas, fantasmas, sombras, uma escola, e não contarei mais. Não, não. Creio que você ainda não tenha lido nada parecido e tenho testemunhas para confirmar. Espero que um dia você possa ler, o que significa que eu terei terminado.

Escrevo teses e artigos acadêmicos quando obrigada. Escrevo também, e com muito mais propriedade, algo como este texto aqui: crônica, ensaio – já sofri demais tentando categorizar. O ponto é que escrevo faz algum tempo, mas também não escrevo faz algum tempo, e gostaria de fazê-lo mais. Aliás, “gostaria” não é a palavra: preciso, desesperadamente. 

É que essa coisa de trabalhar num livro, cheio de segredos e em longuíssimo prazo, me dá uma necessidade urgente de escrever algo outro, que eu possa efetivamente (e constantemente) publicar. Pois andei descobrindo, em poucos meses de autora-aprendiz, que desejo estar sendo lida, o tempo todo – minha humildade que tampe os ouvidos. E que a outra opção é desaparecer. (Candido, sem acento, rebelde, dizia que a leitura é parte da literatura, e acho que é mais ou menos isso que faz o escritor: é lido, ou nada.) 

Então, não é que eu não consiga, realmente, escrever.

O que tem faltado é coragem para publicar – e isso é quase o mesmo que não escrever. Falta a audácia de imaginar que minha voz seja necessária em meio ao deserto de grãozinhos cheios de opinião e palavras-chave que se esparramam irritando os olhos, feito uma tempestade tediosamente quadrada. E se a minha for igualmente tediosa? 

Bem, então, provavelmente, serei uma má escritora. Mas terei escrito e terei publicado. E, por hora, isso deve bastar.


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Várias vidas

Vocês já tiveram a sensação de que viveram várias vidas?

Recentemente, comecei a rever o anime Cowboy Bebop na Netflix. Queria me preparar para a estreia do live-action com John Cho e, ao mesmo tempo, apresentar ao Gabriel essa que foi uma das minhas séries favoritas na adolescência, quando passava horas explorando a programação exótica da Locomotion, na TVA. Na época, Bebop (como apelidei com carinho) me rendeu um avatar em fóruns online, uma trilha decorada de ponta-a-ponta e um boneco articulado do protagonista, Spike Spiegel – que até poucos meses atrás ainda se equilibrava na minha mesa, chutando alto numa pose de kung-fu.

A verdade é que, vinte anos depois, a trilha foi, provavelmente, a única coisa que eu realmente guardei de toda aquela obsessão. Revendo os episódios, noto que não me lembro de nenhum detalhe, nenhuma história, nem mesmo o que diabos acontecia naquela cena tão bonita da catedral (que me impactara por semanas). Lembro-me dos personagens, do visual, da sensação… Mas o que acontece com eles? Só (re)assistindo para descobrir. 

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A descida é sempre mais fácil

Acabo de terminar uma defesa de mestrado sobre três distopias. Enquanto falo sobre a última, mais contemporânea, noto que o problema central é a coexistência entre diferentes espécies, mais diferentes na ideia do que na prática, e o exercício de poder de uma sobre a outra. A obra defende, poeticamente, a urgência por coletividade, por colaboração, pelo fim de muros inúteis, fronteiras e massacres. 

Estou no campo da ficção, mas a realidade, ultimamente, tem superado em muito o horror do cinema e da literatura. Lá no Oriente Médio, no Afeganistão, dezenas de jornais me informam que o Talibã voltou ao poder. O mesmo Talibã que baleou uma jovem Malala na cabeça, em 2012, no Paquistão, por querer estudar. E agora esse grupo, que usa a religião como desculpa para trancar, estuprar, podar, mandar e assassinar, ocupa Cabul, menos de um mês após a saída das tropas americanas do país. E declara que aquele mundo é seu.

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Rádio Jota #04 – Tanques, mudanças climáticas e mulheres livres

Olá, queridos ouvintes! Estou de volta com mais um Rádio Jota, o programa de variedades culturais do Caderno Jota. Eu sou Juliana Varella, e hoje trago meu novo companheiro de mesa, o microfone Marty Mic Fly! Deem as boas vindas ao Marty. Agradeço ao Douglas Oliveira por ter sugerido esse nome maravilhoso, e vamos às notícias!

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Rádio Jota: Scarlett vs. Disney, incêndio na Cinemateca e Julia Ducournau

Olá, queridos ouvintes! Sejam bem-vindos de volta ao Rádio Jota, o programa de notícias e dicas culturais do Caderno Jota. Se você ainda não conhece o programa, dá uma olhadinha lá no Spotify! Toda semana, tenho dedicado alguns minutinhos a discutir duas ou três notícias culturais, tentando juntar informação e reflexão. Hoje, convido vocês a pensarem comigo dois assuntos quentes: o caso Scarlett vs. Disney; e o incêndio na Cinemateca Brasileira. Pra não perder o costume, também prometo trazer uma dica cultural diferentona, que eu aposto que vocês ainda não conhecem. Vamos lá?

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Abe – diretor brasileiro harmoniza gastronomia, adolescência e conflitos milenares em filme que abraça

Desde que montei minha pequena lista de filmes sobre cozinheiros, novos títulos gastronômicos têm aparecido por todos os lados, como se zombassem do fato de que não esperei uma semaninha ou duas para incluí-los. Sabor da vida, por exemplo, estreou recentemente na Filme Filme, lembrando-me de finalmente vê-lo; Tomates verdes fritos entrou no catálogo do Sesc Digital (até 30/09 aqui); e, agora, Abe chega aos cinemas depois de pelo menos dois anos de espera. Mas a verdade é que fico feliz com tanta abundância – ando percebendo o quanto esse tipo de filme é, intrinsecamente, feel good, e quem não precisa de um pouco de otimismo hoje em dia?

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Caros Camaradas! – passado escondido pela URSS volta à tona em drama ambíguo

Estreia neste fim de semana nos cinemas o representante russo ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021, Caros Camaradas!. O longa não chegou à lista definitiva, mas fez parte dos 15 finalistas, e tem chamado atenção especial pelo nome que acompanha seu pôster: Andrei Konchalovsky, cineasta russo relativamente badalado nos anos 80 que, desde então, tem se dedicado a produções mais independentes – com as quais ele diz ter liberdade e não se preocupar com o sucesso comercial (como explicou em entrevista ao The Guardian). Como é bom ter dinheiro sobrando, né? 

Caros Camaradas!, de fato, parece se preocupar mais em estudar um momento histórico – uma greve brutalmente reprimida na cidade de Novocherkassk, em 1962, e mantida em segredo até recentemente – do que em conquistar o espectador. Nós, que só conhecemos uma pequena parte do que foi a União Soviética e suas experiências políticas, embarcamos na expectativa de encontrar, ali, uma narrativa imersiva que ajude a compreender num nível mais visceral as turbulências do período, como o cinema tantas vezes permitiu fazer. Contudo, o que encontramos é algo mais próximo de um livro didático: frio e excessivamente descritivo.

Konchalovsky, é verdade, adota um ponto de vista humano que facilita o percurso – o de uma mulher que é membro de uma espécie de cúpula local do Partido Socialista, mas que acaba sendo pessoalmente afetada pelas escolhas do então Secretário Geral Nikita Kruschev. Essa perspectiva se mostra o elemento mais interessante do filme: Lyuda (Yuliya Vysotskaya, esposa de Konchalovsky) traz uma ambiguidade que impede que a produção possa ser posicionada contra ou a favor de qualquer um dos lados em jogo. Ela abre o filme questionando o governo, mas logo se coloca como crítica ferrenha dos trabalhadores em greve, sugerindo, inclusive, uma repressão mais severa. Sob tudo isso, ela mantém um discurso de exaltação ao falecido Stálin, mas eventualmente questiona suas convicções quando vê que, na vida real, aliados e inimigos não são tão claros quanto na teoria.

Apesar disso, o longa se apoia demais em diálogos informativos, esforçando-se em descrever para o leigo um contexto bastante específico e complexo: o de um governo socialista que encara a insatisfação popular diante do aumento de preços dos alimentos. A crise escancara a hipocrisia de um sistema que se vende como coletivista, mas não consegue dialogar com o povo, e parece desprezar os trabalhadores (generalizados como “bêbados” e arruaceiros). Vê-se, ainda, um atrito entre os interesses do exército e da KGB, além do contraste entre a rebeldia de uma juventude que acredita na democracia e a teimosia de uma geração que lutou, na sua época, por um líder totalitário. 

Cada elemento desse complicado cenário é extensamente explicado, mas não necessariamente mostrado, vivenciado ou sentido. Até mesmo o ponto climático da ação – quando o estado ordena que se usem armas de fogo contra a população – vem com uma frieza mal colocada. No caso, não é o tipo de distanciamento que intensifica a dor, como em certos filmes que sugerem o horror pelo contraste ou pela ausência, mas sim um distanciamento de quem está olhando para o lugar errado, mais preocupado com a mensagem do que com seus personagens. A protagonista, no meio do caos, parece fugir das balas por obrigação, e reage de forma prática e quase robótica diante das mortes de colegas. Consequência do choque? Talvez. Mas falta definição na forma como a sequência toda é mostrada – ou se vai pelo lado da poesia, ou pela brutalidade. O meio do caminho só enfraquece o impacto.

Talvez essa didaticidade e esse distanciamento se devam ao fato de que o roteiro é co-escrito por Elena Kiseleva, uma jornalista que se embrenhou recentemente pelo cinema. O equilíbrio entre descrever e narrar é um desafio antigo da profissão, que frequentemente se esconde por trás do escudo da imparcialidade. No cinema, é preciso quebrar esse escudo ou se perde o espectador.

A perspectiva pessoal, felizmente, vai ganhando mais espaço na segunda parte do filme, quando Lyuda se desgruda do Comitê e parte numa missão paralela para encontrar sua filha, uma adolescente que se identifica mais com os manifestantes do que com a mãe. É especialmente sensível que o primeiro diálogo entre as duas, lá no início, tenha tido como tema um sutiã – Lyuda reprimia a filha por não usá-lo, enquanto essa criticava a mãe por ter um caso com um homem casado. Dos dois lados, estavam julgamentos sobre comportamentos considerados imorais, mas a geração mais jovem já reconhecia a futilidade e a hipocrisia do controle sobre o vestuário, talvez por influência dos movimentos feministas em ascensão na Europa e nos Estados Unidos.

O que está em jogo, portanto, parece ser mais do que a discordância entre políticos e trabalhadores. É a União Soviética pós-stalinista que se vê em crise com os ideais socialistas. Quem protesta traz a mesma insatisfação que as gerações anteriores sentiram com os czares – sinal do fracasso da revolução e do novo modelo –, e adiciona a isso a defesa de liberdades democráticas e individuais que dialogam com um mundo fora dali.

Caros Camaradas!, mesmo que imperfeito, chega aos cinemas em bom momento. Entre tantas palavras, algumas ajudam a jogar luz sobre o tema da violência policial/militar e sobre as atuais discussões acerca de modelos políticos. Em certo momento, por exemplo, debate-se o papel do exército: proteger o povo contra ameaças externas ou proteger o governo contra o povo, como acabou se tornando o padrão em sociedades pouco democráticas (caham…)? Vale pensar, ainda, nas proximidades gritantes entre governos totalitários em sociedades socialistas e capitalistas – no fim, o abuso de poder será uma constante onde quer que se permita a sua concentração. Seja na Rússia, seja na Alemanha, seja no Brasil.

10 Filmes sobre cozinheiros

Se a cozinha é o seu lugar favorito da casa, seus amigos estão sempre se convidando para jantar, e você até andou aproveitando o isolamento para aprender novas receitas, prepare-se para se deliciar com esta lista:


First Cow

O sucesso indie “First Cow”, dirigido por Kelly Reichardt, já está no catálogo do Mubi com um cardápio do tipo “improvisadão”. Ambientado no início do século XIX, o filme conta a história de um cozinheiro que viaja até o extremo Oeste americano procurando começar uma vida por lá. Chegando a um pequeno povoado, ele se une a um imigrante chinês e começa a produzir bolinhos fritos – que parecem bolinhos de chuva –, trazendo a esse ambiente bruto um gostinho de infância e uma lembrança da vida urbana. Os quitutes são um sucesso, mas há um problema: a receita usa leite, só existe uma vaca na região, e ela não pertence a eles.


Meu eterno talvez

Procurando algo mais açucarado? A dica é a comédia romântica “Meu eterno talvez”, em cartaz na Netflix. Com Ali Wong e Randall Park, o filme acompanha um casal de amigos que se conhece desde a infância, mas acaba se afastando e se reencontra depois de 15 anos em posições radicalmente opostas. Ela se tornou uma chef renomada, enquanto ele não conseguiu evoluir muito desde que os dois se viram pela última vez. Será que duas pessoas tão diferentes vão conseguir se entender?


A 100 passos de um sonho

Agora pense num filme com pratos de encher os olhos, dignos de revista. É assim em “A 100 passos de um sonho”: essa é a história de uma família indiana que emigra para a França e decide abrir um restaurante, começando uma rivalidade com seu vizinho de frente: um tradicional restaurante francês que ostenta uma estrela Michelin. 


Julie e Julia

Todo grande cozinheiro precisa começar por algum lugar, não é mesmo? Em “Julie e Julia”, de Nora Ephron, Amy Adams é uma mulher que decide aprender a cozinhar com a ajuda de um livro de receitas da famosa Julia Child, e documenta todo o processo num blog. A história de Child, interpretada por Meryl Streep, vai sendo contada em paralelo, mostrando como ela, também, enfrentou suas dificuldades para entrar nesse mundo até então exclusivamente masculino.


Chef

O multitalentoso Jon Favreau escreve, dirige e protagoniza a comédia inspiradora “Chef”, que tem sabor de comida de rua. No filme, ele vive um chef de cozinha que abandona o trabalho num grande restaurante após receber uma crítica negativa e perceber que não estava feliz. Então, ele decide abrir um food truck junto com seu melhor amigo e o filho, e pegar a estrada.


Ratatouille

Uma das animações mais fofas da Pixar consegue juntar a paixão francesa pela gastronomia e uma das figuras mais temidas por qualquer dono de restaurante: um rato. Pois Ratatouille é justamente sobre um ratinho com talento para a cozinha, cujas intenções são obviamente frustradas por sua natureza. As coisas começam a dar certo quando ele se une a um cozinheiro aprendiz, humano, e começa a levar suas receitas para um respeitado restaurante, sem que ninguém desconfie.


Sem reservas

Passando para uma proposta meio-doce, meio-azeda, recomendamos o romance “Sem reservas”, com Catherine Zeta Jones, Aaron Eckhart e uma pequenininha Abigail Breslin. O filme adota o clichê da mulher bem-sucedida que é temida por todos os seus colegas e não consegue conciliar a vida familiar com a profissional, mas complica a questão ao colocar, na vida da chef Kate, uma responsabilidade repentina: cuidar da sobrinha de dez anos após a morte da irmã. Para piorar, um novo chef é contratado por seu restaurante, e ela teme que ele tenha vindo roubar o seu lugar.


Pegando fogo

Seguindo na linha de chefs problemáticos, que tal conhecer Adam Jones? O chefe de cozinha vivido por Bradley Cooper em “Pegando Fogo” conseguiu arruinar a própria carreira com seu comportamento irresponsável e vício em drogas. Agora, sóbrio e queimado, ele tenta retornar à ativa assumindo o comando de um importante restaurante londrino.


Os sabores do palácio

Falando em trabalhos importantes, você já parou para pensar em quem prepara a comida para as autoridades? Em “Os sabores do palácio”, a chef Hortense Laborie é convidada para ser a cozinheira particular do presidente francês, amante da gastronomia e sedento por novos sabores. Competente e firme em suas escolhas arriscadas, Hortense consegue conquistar seu novo patrão, mas logo perceberá que, num lugar tão cheio de egos e poderes, não é só ele que precisa aprovar seu trabalho… 


The Lunchbox

Para encerrar o menu com aquela “comfort food” de aquecer o coração, sugerimos o indiano “The lunchbox”. Nele, uma dona-de-casa prepara marmitas para o marido numa tentativa de melhorar a relação; mas, certo dia, o almoço é entregue no endereço errado e vai parar nas mãos de um homem solitário, prestes a se aposentar. Depois de explicado o engano, os dois começam a trocar cartas por meio das marmitas e desenvolvem uma profunda amizade, mesmo sem nunca terem se conhecido. 


Já ficou com fome? Então aprecie este vídeo com personagens cozinhando no dia-a-dia em filmes do Studio Ghibli:


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Tudo o que eu não gostei na série Loki

Pensei em chamar este texto de “tudo o que eu não gostei na série Loki”, mas achei que ia soar apelativo. Então, lembrei que a internet funciona assim mesmo, fui em frente e digitei as nove palavrinhas polêmicas. Pelo menos, estaria falando a verdade. 

Loki é a terceira série original da Marvel a estrear na Disney Plus, expandindo o MCU, desenvolvendo melhor alguns personagens secundários e preparando o terreno para a famosa e um tanto vaga “Fase 4”. A primeira delas foi WandaVision, uma série que, antes de estrear, era uma gigantesca incógnita na minha cabeça; mas, depois, se tornou meu xodó entre os lançamentos do ano. Tinha humor, tinha ritmo, tinha uma química imensa entre os atores, e usava das situações lúdicas e absurdas para falar de coisa séria: luto, dor, negação. E tinha Elizabeth Olsen, diva em todas as décadas.

A segunda foi Falcão e o Soldado Invernal, outra que não me interessara muito até estrear, mas acabou surpreendendo. Usando do formato conhecido dos filmes de ação e perseguição, ela trouxe como tema central o racismo e a mudança dos tempos: o que significaria – para o mundo, para um país conservador e para uma pessoa negra – se o próximo Capitão América fosse negro? Sem se apressar, a jornada de Sam Wilson (Anthony Mackie) foi mostrando os diferentes lados dessa história, os dilemas morais, as consequências, as responsabilidades, as dificuldades (financeiras inclusive), ao mesmo tempo em que trabalhava em segundo plano uma trama sobre refugiados que os colocava ora como vítimas, ora como vilões, e ora ainda como seres humanos complexos com um ideal de coletividade. Nada mal para uma série da Marvel sobre dois sidekicks, né?

Então chegou Loki, a única que se propunha a seguir um personagem já muito popular entre os fãs: o vilão de Vingadores, irmão de Thor, Deus da Trapaça, mezzo-alívio cômico, mezzo-sex symbol vivido por Tom Hiddleston desde 2011. Não que eu esperasse muito, mas olhar para o Gabriel com uma cara meio indignada e dizer “cara, isso tá muito ruim” toda quarta-feira? Isso, eu não esperava. 

#chateada

A série parte do momento em que, tentando resgatar as joias do infinito no passado, Homem de Ferro, Capitão América e Homem Formiga se atrapalham e deixam o Tesseract cair no chão. Loki, então, pega a joia e desaparece. Agora, descobrimos que esse breve momento de vitória não durou quase nada, já que, ao se teletransportar, Loki é interceptado por um grupo de soldados (representantes dos Guardiões do Tempo) e enviado para um escritório/prisão (o TVA). A acusação é de que Loki provocou uma ruptura na “linha do tempo sagrada” ao se apossar do Tesseract, e, se você estava prestando um mínimo de atenção, talvez estranhe essa informação. Afinal, quem provocou a mudança foi o trio de Vingadores, não? Hm, não tente pensar demais nisso. 

Daí em diante, o que acontece é uma espécie de jornada de autoconhecimento e transformação para Loki, que, entre outras coisas, terá acesso ao “vídeo da sua vida” (tão brega quanto parece), descobrirá que não é a única versão de si mesmo no multiverso (e nem sequer a melhor), verá que existem forças mais poderosas do que Thanos (e que usam as jóias do infinito como pesos de papel, o que é uma piada muito barata) e viverá alguns dias como uma barata-tonta entre planetas, épocas e dimensões. Divertido? Mais no papel do que na prática.

Talvez o maior erro de Loki tenha sido se preocupar demais em apresentar uma nova grande ameaça megalomaníaca para o Universo Marvel, esquecendo-se de trabalhar seu personagem principal, como alguns veículos já defenderam muito bem. Mas certamente não foi o único. Aponto pelo menos outros três:

Muito se falou da cena em que Loki sugere, com uma frase vaga, que poderia ser bissexual. “Uau, como a Disney está abraçando a diversidade!”, “Nossa, a Marvel arrasou!”, blablabla. Acontece que, a partir daí, ele começa a viver um relacionamento potencialmente romântico com Sylvie, sua versão feminina. O que estaria ótimo, se ele também sugerisse qualquer tipo de flerte com seus outros espelhos, já que a ideia é explorar seu narcisismo. Mas não: o clima Loki-Sylvie só existe porque estamos colocando um personagem masculino para passar tempo demais com uma personagem feminina (e meninos não podem ser amigos de meninas, todo mundo sabe). Diga-se de passagem, todos os outros Lokis se consideram iguais em algum sentido, mas o Loki-Hiddleston faz questão de frisar como ela é diferente. Mais diferente do que um JACARÉ, só porque é mulher.

Meu segundo ponto crítico na série é a apresentação do protagonista como o oposto de um vilão. E não estou falando em humanização, que em geral é super válida, mas na completa distorção do personagem na pressa por gerar simpatia e redenção a tempo para a chegada do próximo filme da marca. O que sai pela culatra, acho eu, já que Loki é o sucesso que é justamente por seus traços vilanescos: a arrogância e a astúcia, em especial. Aqui, o mesmo Deus asgardiano que estava determinado a dominar a Terra, e disposto a se aliar a Thanos mesmo que isso colocasse em risco o universo inteiro, não tem nem arrogância nem astúcia. Pior: ele não tem nenhum plano. Nenhum. Nem sequer um planinho que dá errado, ou uma proposta aos Guardiões do Tempo, uma intenção de virar o jogo, nada. Loki está nu, com frio. Patético e frágil.

Lembra desse Loki aqui, usado extensamente na divulgação? Então, foi pra te enganar.

Ok, talvez eu esteja sendo cruel aqui, pois ele expressa a intenção de se aproximar desse novo poder para tirar alguma vantagem, mas isso nunca passa do primeiro episódio. O resto do tempo, Loki gasta sendo jogado de um lado ao outro, seguindo os impulsos e as convicções de terceiros. A série justifica essa impotência do personagem pela crise de consciência que ele tem ao descobrir que não é dono do próprio destino, rever em tela as próprias crueldades e ouvir de um completo estranho que sua mania de grandeza é, na verdade, a ilusão de uma criança desesperada por atenção. Terapia eficiente essa, né?

Mas, mesmo que a gente acredite que Owen Wilson seja sobrenaturalmente convincente, será mesmo que um único vídeo de 5 minutos seria capaz de convencer o Deus da Trapaça de que seu “glorioso propósito” era morrer nas mãos de Thanos, de um jeito bobo, sem ter jamais conquistado nada? Cá entre nós, essa criatura domina mágica, mas não consegue conceber um deep fake e uma boa edição, sei lá…? 

Terceiro ponto, e esse é para quem assistiu até o fim [vem spoiler aqui]: o diálogo final defende a tese de que, se você tirar o poder de um ditador, a consequência será, necessariamente, o caos. Digo, gente… Vocês já ouviram falar em democracia? O argumento que Loki parece não conseguir refutar (e isso já plenamente posicionado como o “bonzinho” e “sensato”) é que, ou se tem um indivíduo no controle de tudo – a única pessoa a quem pode ser concedido o livre-arbítrio –, ou não será possível controlar mais nada e o universo (multiverso, no caso) se auto-destruirá, porque as pessoas poderão fazer “o que quiserem”. É claro que, em se tratando de uma saga de aventura e fantasia, a tal ameaça de caos se intensifica por uma coleção de outros hiper-vilões, mas isso não muda o fato de que se propõe, com todas as palavras, que uma ditadura seja a situação mais desejável. Uma que só permite a existência de uma única linha do tempo, à custa de infinitas outras, porque essa é a linha em que existe o próprio ditador. (Duh)  [Fim dos spoilers]

Em suma, para uma série que se propõe a desenvolver um personagem que é notoriamente ambíguo, manipulador, e que passou filmes e filmes oscilando entre o “Bem” e o “Mal”, Loki se mostra imensamente frustrante. Ela agradou e vai continuar agradando, sim, a muitos fãs, mas tenho a impressão de que é mais pelos easter eggs, pelos coadjuvantes carismáticos (praticamente todos roubam a cena de Hiddleston) e pelas portas que abre para o futuro da franquia do que pelo que faz por Loki, em si. 

Uma pena. Como li outro dia numa matéria muito boa, a Marvel tem falhado com seus vilões há tempos, e não foi desta vez que ela fez justiça. Esperemos que, na próxima temporada, já confirmada, a equipe de roteiristas se lembre de quem é o verdadeiro protagonista.