Escritora, sim, porém assintomática

Tá vendo esse monte de desenho no meu Instagram? Sou eu, não conseguindo escrever. 

Déjà vu, né? Eu sei. E eu provavelmente devia ficar aliviada. Orgulhosa do avanço nas minhas outras linguagens, feliz porque cada imagem chama mil vezes mais atenção do que qualquer par de palavras. Mas não fico, né? Sou eu pela metade, e essa metade me faz uma falta danada. Fico encarando o tempo livre meio decepcionada, ansiosa pela próxima página, sedenta como nunca por um texto publicado, mas é o que é. Não sou eu: são elas. Minhas mãos, talvez cansadas, que não andam querendo escrever.

O desenho, nesses dias, vem quase como um escape. Como se a criação precisasse acontecer de um jeito ou de outro, mesmo que os dois jeitos não tenham muito a ver – se não sai a crônica, vem um dragão na parede; se a ficção não avança, bora fracassar também no design de estampa. E se eu desenhar a bruxa da história, vale por um capítulo? E assim segue o jogo, se esbaldando nessa gangorra sem me deixar saber se eu devia investir mais em uma coisa ou na outra. Escrever? Desenhar? Ora, se essas duas não vivem sozinhas, quem sou eu pra separar? 

Elas é que teimam em não se encontrar.

Li outro dia que, se você quer que a arte seja sua profissão, você precisa tratá-la como tal, e lá veio o gatilho da insegurança de novo. Acho que um dia eu concordei com isso, mas hoje só em partes. É que criar é um mundo meio fora do mundo (e, mais do que qualquer outro, fora desse mundo apertado que a gente inventou). Concordo, então, em separar certas horas do dia, em praticar, praticar e praticar. Concordo em (tentar) não trocar a página em branco pela faxina da casa, a rega das plantas, o passeio com a cachorra. Fácil falar. 

Mas, a essa altura dos meus quase 35, já não concordo com a parte de que é preciso sistematizar seus estudos e perseguir um diploma atrás do outro, emendando graduação, pós, mestrado, contando com um título bonito que mais ajuda no currículo do que na profissão. Vai por mim, vivi três graduações, duas pós e não tô fazendo nada do que eu estudei. Curso universitário é bom, sim, mas ninguém vai ser tão pior por falta dele – talvez até, mão-na-massa-mente falando, possa ter suas vantagens.

Porque a faculdade te faz pensar, e pensar demais não é tão bom para a criação. Melhor não saber que está tudo errado, pra não travar antes de começar. Sabotagem é uma coisa feia, e comparação é ainda pior. Mas não me leve a mal: estudar é ótimo pra você se formar como pessoa, investigar assuntos que te fascinam, aprender a organizar pensamentos, leituras e argumentos. Recomendo demais. Mas pra criar? Sei não. Eu, hoje, com uma turma de adolescentes recém-saídos do colegial ou aspirantes a estrelas empanturradas de ego? Passo longe. Prefiro escrever meus capítulos soltos no silêncio de uma praça e desenhar quando tiver confiança, dando passinho atrás de passinho até que o rótulo de artista brote naturalmente, de um portfólio cultivado no brilho dos olhos, na vontade das mãos, na força do ódio e nos sonhos de uma vida inteira. 

Antes de viajar

Nunca fui muito de ter medos. Minha mãe vivia falando que eu era meio corajosa demais, coração de barata e tal; e isso, quase sempre, foi verdade. Mas eu tenho pelo menos um pânico muito real. Que é viajar.

Não viajar, viajar em si – pegar o avião, o carro, estar num lugar estranho, longe de casa, das pessoas… A graça são justamente os lugares estranhos, as camas estranhas, as ruas estranhas, acho fascinante ouvir pessoas que não falam a minha língua e a rotina perfeitamente calculada do avião é, para mim, quase reconfortante. Sobe, desata o cinto, lê um livro, serve a comida, escova os dentes, estica as pernas, vê um filme, dorme, acorda, olha a janela, repete. 

O problema é tudo, absolutamente tudo, o que vem antes disso. Tudo aquilo que pode dar errado e que pode fazer a viagem, vejam só, não acontecer. 

Para Portugal, o desespero começou no planejamento, meses atrás. “Ah, mas essa é a parte boa!” – ouvia enquanto pesquisava cidades, estadias, aluguéis de carro, passagens de ônibus, cotações de todo tipo. Talvez fosse mesmo, se feita por qualquer outro – e olha que eu o fiz impressionantemente bem. É que não consigo evitar pensar que, se o apartamento se revelar uma espelunca, se o orçamento estiver generoso demais ou apertado demais, se o carro for muito pequeno, se a previsão do tempo estiver errada, a culpa vai ser exclusivamente minha. Terei esquecido de pensar em algum detalhe que qualquer pessoa mais relaxada teria considerado – porque a pressão por pensar em tudo faz a gente escolher os caminhos mais complicados. Ah, a ironia.

Mas agora o roteiro está feito e tudo está pago. Espere. O que é essa dor esquisita aqui, faltando duas semanas para decolar? E se eu tiver uma emergência por lá? Coisas estranhas começam a aparecer. E desaparecem assim que me permito esperar, inspirar, expirar. Olho de novo: não poderia estar mais normal. 

Faltando uma semana, sinto que me animei. Vamos às malas? Oba! Hora de usar meus melhores casacos. Ou não? O quão frio, exatamente, vai estar…? Aiai. Até a minha cachorra sabe que o clima muda dentro e fora de mim quando estamos às vésperas de viajar. Reviro meu guarda-roupa, encho uma bolsa de remédios, me enterro em documentos, calculo todas as variáveis e decido que nenhuma delas é suficientemente favorável. “Estou levando coisas demais” e “estou deixando de levar algo essencial” convivem lado-a-lado sem, aparentemente, se anular. 

Finalmente, os dias que antecedem a partida são tomados por um torpor inútil, uma espera, um looping exaustivo de escrever, checar e riscar itens em listas espalhadas por três cadernos na esperança de controlar um futuro que não tem muito onde errar. 

Hoje, faltam três dias para o embarque e ainda sobram dois ou três fantasmas espiando sobre meus ombros. Eles habitam aeroportos e cochicham sobre passaportes, passagens, seguros, riem de algum documento que não vai bater. Falam da mala despachada que não vai chegar e lembram que é ano de Covid, então é preciso imprimir comprovante de vacinação, fazer exame de PCR, preencher formulários sanitários de dois países diferentes – mas isso, só na véspera do voo, por sadismo dos ministérios. O check-in, só 24h antes, ou tinha que pagar um rim e um olho para escolher lugar. Vamos sentar juntos? A essa altura, isso nem é o que me preocupa mais (mas a esperança está aí, de dedos cruzados). O importante é chegar lá, mesmo que isso envolva uma escala de cinco horas para um voo que, descobri há alguns dias, será de ridículos quinze minutos. Primeira cagada detectada? Tarde demais. 

Mas por que será que só eu estou me preocupando com isso tudo? 

Ah, sim, porque provavelmente eu não deveria. Ninguém precisa perder a cabeça por algo que tanta gente faz todo santo dia. Sou excelente em sofrer à toa.

E escrevo este relato, sincero e um pouco envergonhado, porque, às vezes, o horror abstrato perde um pouco da monstruosidade quando aprisionado, assim, no papel. Coisas escritas parecem mais óbvias, mais simples, meras sequências de tarefas pequeninas a realizar – por isso me cerco de listas, que tiram da memória a obrigação de trabalhar sob pressão e funcionam como um atestado de que vai ficar tudo bem. A viagem está pronta, afinal. Você já fez isso antes, nada jamais deu errado, e nem sozinha você está.

(Boba sou eu de achar que tenho que estar do outro lado do oceano para começar a viajar.)

Leia-me ou me devoro

Não é que eu não consiga escrever.

Mas não tenho conseguido, não é? O último texto que publiquei data de cinco meses atrás, quase exatamente. E, em minha defesa, eu bem que tenho tentado: abro o caderno, o computador, rabisco alguma coisa, sinto-me exposta. Percebo-me ridícula, paro e apago. Desescrevo – o que significa, ironicamente, que eu escrevi. 

Tinha conseguido, portanto, produzir uma frase. Mas, uma vez ali, ela soou alheia, como uma cópia falsa – repetitiva, apagada e riscada. Então, vamos começar de novo: o que uma pessoa de 34 anos escreve hoje em dia? Essa é difícil. Não sou boa de encontrar outras de mim por aí. Reformulemos: o que é que eu escrevo hoje em dia? Ora, não me olhe assim, é uma pergunta genuína.

Reconheço que tenho algumas respostas. Escrevo, desde o final do ano passado, um rascunho de livro infanto-juvenil. Com bruxas, fantasmas, sombras, uma escola, e não contarei mais. Não, não. Creio que você ainda não tenha lido nada parecido e tenho testemunhas para confirmar. Espero que um dia você possa ler, o que significa que eu terei terminado.

Escrevo teses e artigos acadêmicos quando obrigada. Escrevo também, e com muito mais propriedade, algo como este texto aqui: crônica, ensaio – já sofri demais tentando categorizar. O ponto é que escrevo faz algum tempo, mas também não escrevo faz algum tempo, e gostaria de fazê-lo mais. Aliás, “gostaria” não é a palavra: preciso, desesperadamente. 

É que essa coisa de trabalhar num livro, cheio de segredos e em longuíssimo prazo, me dá uma necessidade urgente de escrever algo outro, que eu possa efetivamente (e constantemente) publicar. Pois andei descobrindo, em poucos meses de autora-aprendiz, que desejo estar sendo lida, o tempo todo – minha humildade que tampe os ouvidos. E que a outra opção é desaparecer. (Candido, sem acento, rebelde, dizia que a leitura é parte da literatura, e acho que é mais ou menos isso que faz o escritor: é lido, ou nada.) 

Então, não é que eu não consiga, realmente, escrever.

O que tem faltado é coragem para publicar – e isso é quase o mesmo que não escrever. Falta a audácia de imaginar que minha voz seja necessária em meio ao deserto de grãozinhos cheios de opinião e palavras-chave que se esparramam irritando os olhos, feito uma tempestade tediosamente quadrada. E se a minha for igualmente tediosa? 

Bem, então, provavelmente, serei uma má escritora. Mas terei escrito e terei publicado. E, por hora, isso deve bastar.


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Várias vidas

Vocês já tiveram a sensação de que viveram várias vidas?

Recentemente, comecei a rever o anime Cowboy Bebop na Netflix. Queria me preparar para a estreia do live-action com John Cho e, ao mesmo tempo, apresentar ao Gabriel essa que foi uma das minhas séries favoritas na adolescência, quando passava horas explorando a programação exótica da Locomotion, na TVA. Na época, Bebop (como apelidei com carinho) me rendeu um avatar em fóruns online, uma trilha decorada de ponta-a-ponta e um boneco articulado do protagonista, Spike Spiegel – que até poucos meses atrás ainda se equilibrava na minha mesa, chutando alto numa pose de kung-fu.

A verdade é que, vinte anos depois, a trilha foi, provavelmente, a única coisa que eu realmente guardei de toda aquela obsessão. Revendo os episódios, noto que não me lembro de nenhum detalhe, nenhuma história, nem mesmo o que diabos acontecia naquela cena tão bonita da catedral (que me impactara por semanas). Lembro-me dos personagens, do visual, da sensação… Mas o que acontece com eles? Só (re)assistindo para descobrir. 

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A descida é sempre mais fácil

Acabo de terminar uma defesa de mestrado sobre três distopias. Enquanto falo sobre a última, mais contemporânea, noto que o problema central é a coexistência entre diferentes espécies, mais diferentes na ideia do que na prática, e o exercício de poder de uma sobre a outra. A obra defende, poeticamente, a urgência por coletividade, por colaboração, pelo fim de muros inúteis, fronteiras e massacres. 

Estou no campo da ficção, mas a realidade, ultimamente, tem superado em muito o horror do cinema e da literatura. Lá no Oriente Médio, no Afeganistão, dezenas de jornais me informam que o Talibã voltou ao poder. O mesmo Talibã que baleou uma jovem Malala na cabeça, em 2012, no Paquistão, por querer estudar. E agora esse grupo, que usa a religião como desculpa para trancar, estuprar, podar, mandar e assassinar, ocupa Cabul, menos de um mês após a saída das tropas americanas do país. E declara que aquele mundo é seu.

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Rádio Jota #04 – Tanques, mudanças climáticas e mulheres livres

Olá, queridos ouvintes! Estou de volta com mais um Rádio Jota, o programa de variedades culturais do Caderno Jota. Eu sou Juliana Varella, e hoje trago meu novo companheiro de mesa, o microfone Marty Mic Fly! Deem as boas vindas ao Marty. Agradeço ao Douglas Oliveira por ter sugerido esse nome maravilhoso, e vamos às notícias!

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Rádio Jota: Scarlett vs. Disney, incêndio na Cinemateca e Julia Ducournau

Olá, queridos ouvintes! Sejam bem-vindos de volta ao Rádio Jota, o programa de notícias e dicas culturais do Caderno Jota. Se você ainda não conhece o programa, dá uma olhadinha lá no Spotify! Toda semana, tenho dedicado alguns minutinhos a discutir duas ou três notícias culturais, tentando juntar informação e reflexão. Hoje, convido vocês a pensarem comigo dois assuntos quentes: o caso Scarlett vs. Disney; e o incêndio na Cinemateca Brasileira. Pra não perder o costume, também prometo trazer uma dica cultural diferentona, que eu aposto que vocês ainda não conhecem. Vamos lá?

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Abe – diretor brasileiro harmoniza gastronomia, adolescência e conflitos milenares em filme que abraça

Desde que montei minha pequena lista de filmes sobre cozinheiros, novos títulos gastronômicos têm aparecido por todos os lados, como se zombassem do fato de que não esperei uma semaninha ou duas para incluí-los. Sabor da vida, por exemplo, estreou recentemente na Filme Filme, lembrando-me de finalmente vê-lo; Tomates verdes fritos entrou no catálogo do Sesc Digital (até 30/09 aqui); e, agora, Abe chega aos cinemas depois de pelo menos dois anos de espera. Mas a verdade é que fico feliz com tanta abundância – ando percebendo o quanto esse tipo de filme é, intrinsecamente, feel good, e quem não precisa de um pouco de otimismo hoje em dia?

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Caros Camaradas! – passado escondido pela URSS volta à tona em drama ambíguo

Estreia neste fim de semana nos cinemas o representante russo ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021, Caros Camaradas!. O longa não chegou à lista definitiva, mas fez parte dos 15 finalistas, e tem chamado atenção especial pelo nome que acompanha seu pôster: Andrei Konchalovsky, cineasta russo relativamente badalado nos anos 80 que, desde então, tem se dedicado a produções mais independentes – com as quais ele diz ter liberdade e não se preocupar com o sucesso comercial (como explicou em entrevista ao The Guardian). Como é bom ter dinheiro sobrando, né? 

Caros Camaradas!, de fato, parece se preocupar mais em estudar um momento histórico – uma greve brutalmente reprimida na cidade de Novocherkassk, em 1962, e mantida em segredo até recentemente – do que em conquistar o espectador. Nós, que só conhecemos uma pequena parte do que foi a União Soviética e suas experiências políticas, embarcamos na expectativa de encontrar, ali, uma narrativa imersiva que ajude a compreender num nível mais visceral as turbulências do período, como o cinema tantas vezes permitiu fazer. Contudo, o que encontramos é algo mais próximo de um livro didático: frio e excessivamente descritivo.

Konchalovsky, é verdade, adota um ponto de vista humano que facilita o percurso – o de uma mulher que é membro de uma espécie de cúpula local do Partido Socialista, mas que acaba sendo pessoalmente afetada pelas escolhas do então Secretário Geral Nikita Kruschev. Essa perspectiva se mostra o elemento mais interessante do filme: Lyuda (Yuliya Vysotskaya, esposa de Konchalovsky) traz uma ambiguidade que impede que a produção possa ser posicionada contra ou a favor de qualquer um dos lados em jogo. Ela abre o filme questionando o governo, mas logo se coloca como crítica ferrenha dos trabalhadores em greve, sugerindo, inclusive, uma repressão mais severa. Sob tudo isso, ela mantém um discurso de exaltação ao falecido Stálin, mas eventualmente questiona suas convicções quando vê que, na vida real, aliados e inimigos não são tão claros quanto na teoria.

Apesar disso, o longa se apoia demais em diálogos informativos, esforçando-se em descrever para o leigo um contexto bastante específico e complexo: o de um governo socialista que encara a insatisfação popular diante do aumento de preços dos alimentos. A crise escancara a hipocrisia de um sistema que se vende como coletivista, mas não consegue dialogar com o povo, e parece desprezar os trabalhadores (generalizados como “bêbados” e arruaceiros). Vê-se, ainda, um atrito entre os interesses do exército e da KGB, além do contraste entre a rebeldia de uma juventude que acredita na democracia e a teimosia de uma geração que lutou, na sua época, por um líder totalitário. 

Cada elemento desse complicado cenário é extensamente explicado, mas não necessariamente mostrado, vivenciado ou sentido. Até mesmo o ponto climático da ação – quando o estado ordena que se usem armas de fogo contra a população – vem com uma frieza mal colocada. No caso, não é o tipo de distanciamento que intensifica a dor, como em certos filmes que sugerem o horror pelo contraste ou pela ausência, mas sim um distanciamento de quem está olhando para o lugar errado, mais preocupado com a mensagem do que com seus personagens. A protagonista, no meio do caos, parece fugir das balas por obrigação, e reage de forma prática e quase robótica diante das mortes de colegas. Consequência do choque? Talvez. Mas falta definição na forma como a sequência toda é mostrada – ou se vai pelo lado da poesia, ou pela brutalidade. O meio do caminho só enfraquece o impacto.

Talvez essa didaticidade e esse distanciamento se devam ao fato de que o roteiro é co-escrito por Elena Kiseleva, uma jornalista que se embrenhou recentemente pelo cinema. O equilíbrio entre descrever e narrar é um desafio antigo da profissão, que frequentemente se esconde por trás do escudo da imparcialidade. No cinema, é preciso quebrar esse escudo ou se perde o espectador.

A perspectiva pessoal, felizmente, vai ganhando mais espaço na segunda parte do filme, quando Lyuda se desgruda do Comitê e parte numa missão paralela para encontrar sua filha, uma adolescente que se identifica mais com os manifestantes do que com a mãe. É especialmente sensível que o primeiro diálogo entre as duas, lá no início, tenha tido como tema um sutiã – Lyuda reprimia a filha por não usá-lo, enquanto essa criticava a mãe por ter um caso com um homem casado. Dos dois lados, estavam julgamentos sobre comportamentos considerados imorais, mas a geração mais jovem já reconhecia a futilidade e a hipocrisia do controle sobre o vestuário, talvez por influência dos movimentos feministas em ascensão na Europa e nos Estados Unidos.

O que está em jogo, portanto, parece ser mais do que a discordância entre políticos e trabalhadores. É a União Soviética pós-stalinista que se vê em crise com os ideais socialistas. Quem protesta traz a mesma insatisfação que as gerações anteriores sentiram com os czares – sinal do fracasso da revolução e do novo modelo –, e adiciona a isso a defesa de liberdades democráticas e individuais que dialogam com um mundo fora dali.

Caros Camaradas!, mesmo que imperfeito, chega aos cinemas em bom momento. Entre tantas palavras, algumas ajudam a jogar luz sobre o tema da violência policial/militar e sobre as atuais discussões acerca de modelos políticos. Em certo momento, por exemplo, debate-se o papel do exército: proteger o povo contra ameaças externas ou proteger o governo contra o povo, como acabou se tornando o padrão em sociedades pouco democráticas (caham…)? Vale pensar, ainda, nas proximidades gritantes entre governos totalitários em sociedades socialistas e capitalistas – no fim, o abuso de poder será uma constante onde quer que se permita a sua concentração. Seja na Rússia, seja na Alemanha, seja no Brasil.

10 Filmes sobre cozinheiros

Se a cozinha é o seu lugar favorito da casa, seus amigos estão sempre se convidando para jantar, e você até andou aproveitando o isolamento para aprender novas receitas, prepare-se para se deliciar com esta lista:


First Cow

O sucesso indie “First Cow”, dirigido por Kelly Reichardt, já está no catálogo do Mubi com um cardápio do tipo “improvisadão”. Ambientado no início do século XIX, o filme conta a história de um cozinheiro que viaja até o extremo Oeste americano procurando começar uma vida por lá. Chegando a um pequeno povoado, ele se une a um imigrante chinês e começa a produzir bolinhos fritos – que parecem bolinhos de chuva –, trazendo a esse ambiente bruto um gostinho de infância e uma lembrança da vida urbana. Os quitutes são um sucesso, mas há um problema: a receita usa leite, só existe uma vaca na região, e ela não pertence a eles.


Meu eterno talvez

Procurando algo mais açucarado? A dica é a comédia romântica “Meu eterno talvez”, em cartaz na Netflix. Com Ali Wong e Randall Park, o filme acompanha um casal de amigos que se conhece desde a infância, mas acaba se afastando e se reencontra depois de 15 anos em posições radicalmente opostas. Ela se tornou uma chef renomada, enquanto ele não conseguiu evoluir muito desde que os dois se viram pela última vez. Será que duas pessoas tão diferentes vão conseguir se entender?


A 100 passos de um sonho

Agora pense num filme com pratos de encher os olhos, dignos de revista. É assim em “A 100 passos de um sonho”: essa é a história de uma família indiana que emigra para a França e decide abrir um restaurante, começando uma rivalidade com seu vizinho de frente: um tradicional restaurante francês que ostenta uma estrela Michelin. 


Julie e Julia

Todo grande cozinheiro precisa começar por algum lugar, não é mesmo? Em “Julie e Julia”, de Nora Ephron, Amy Adams é uma mulher que decide aprender a cozinhar com a ajuda de um livro de receitas da famosa Julia Child, e documenta todo o processo num blog. A história de Child, interpretada por Meryl Streep, vai sendo contada em paralelo, mostrando como ela, também, enfrentou suas dificuldades para entrar nesse mundo até então exclusivamente masculino.


Chef

O multitalentoso Jon Favreau escreve, dirige e protagoniza a comédia inspiradora “Chef”, que tem sabor de comida de rua. No filme, ele vive um chef de cozinha que abandona o trabalho num grande restaurante após receber uma crítica negativa e perceber que não estava feliz. Então, ele decide abrir um food truck junto com seu melhor amigo e o filho, e pegar a estrada.


Ratatouille

Uma das animações mais fofas da Pixar consegue juntar a paixão francesa pela gastronomia e uma das figuras mais temidas por qualquer dono de restaurante: um rato. Pois Ratatouille é justamente sobre um ratinho com talento para a cozinha, cujas intenções são obviamente frustradas por sua natureza. As coisas começam a dar certo quando ele se une a um cozinheiro aprendiz, humano, e começa a levar suas receitas para um respeitado restaurante, sem que ninguém desconfie.


Sem reservas

Passando para uma proposta meio-doce, meio-azeda, recomendamos o romance “Sem reservas”, com Catherine Zeta Jones, Aaron Eckhart e uma pequenininha Abigail Breslin. O filme adota o clichê da mulher bem-sucedida que é temida por todos os seus colegas e não consegue conciliar a vida familiar com a profissional, mas complica a questão ao colocar, na vida da chef Kate, uma responsabilidade repentina: cuidar da sobrinha de dez anos após a morte da irmã. Para piorar, um novo chef é contratado por seu restaurante, e ela teme que ele tenha vindo roubar o seu lugar.


Pegando fogo

Seguindo na linha de chefs problemáticos, que tal conhecer Adam Jones? O chefe de cozinha vivido por Bradley Cooper em “Pegando Fogo” conseguiu arruinar a própria carreira com seu comportamento irresponsável e vício em drogas. Agora, sóbrio e queimado, ele tenta retornar à ativa assumindo o comando de um importante restaurante londrino.


Os sabores do palácio

Falando em trabalhos importantes, você já parou para pensar em quem prepara a comida para as autoridades? Em “Os sabores do palácio”, a chef Hortense Laborie é convidada para ser a cozinheira particular do presidente francês, amante da gastronomia e sedento por novos sabores. Competente e firme em suas escolhas arriscadas, Hortense consegue conquistar seu novo patrão, mas logo perceberá que, num lugar tão cheio de egos e poderes, não é só ele que precisa aprovar seu trabalho… 


The Lunchbox

Para encerrar o menu com aquela “comfort food” de aquecer o coração, sugerimos o indiano “The lunchbox”. Nele, uma dona-de-casa prepara marmitas para o marido numa tentativa de melhorar a relação; mas, certo dia, o almoço é entregue no endereço errado e vai parar nas mãos de um homem solitário, prestes a se aposentar. Depois de explicado o engano, os dois começam a trocar cartas por meio das marmitas e desenvolvem uma profunda amizade, mesmo sem nunca terem se conhecido. 


Já ficou com fome? Então aprecie este vídeo com personagens cozinhando no dia-a-dia em filmes do Studio Ghibli:


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