A descida é sempre mais fácil

Acabo de terminar uma defesa de mestrado sobre três distopias. Enquanto falo sobre a última, mais contemporânea, noto que o problema central é a coexistência entre diferentes espécies, mais diferentes na ideia do que na prática, e o exercício de poder de uma sobre a outra. A obra defende, poeticamente, a urgência por coletividade, por colaboração, pelo fim de muros inúteis, fronteiras e massacres. 

Estou no campo da ficção, mas a realidade, ultimamente, tem superado em muito o horror do cinema e da literatura. Lá no Oriente Médio, no Afeganistão, dezenas de jornais me informam que o Talibã voltou ao poder. O mesmo Talibã que baleou uma jovem Malala na cabeça, em 2012, no Paquistão, por querer estudar. E agora esse grupo, que usa a religião como desculpa para trancar, estuprar, podar, mandar e assassinar, ocupa Cabul, menos de um mês após a saída das tropas americanas do país. E declara que aquele mundo é seu.

Um mundo em pânico, no caso. Com civis (os mesmos que eles disseram apoiar o golpe, autointitulado um “levante popular”) correndo para aeroportos lotados numa tentativa desesperada de fugir, dependurando-se em aviões sem calcular os riscos. Pelo menos sete morreram assim. Talvez parecesse um destino menos pior do que a perda repentina de todos os seus direitos? Mas afinal, será mesmo que aquele mundo poderia, em questão de dias, regredir séculos para uma realidade pré-capitalista, pré-feminista, pré-globalizada, pré-democrática? Não estamos exagerando…? Ah, mas você já deveria saber que a descida é sempre mais fácil do que a subida.

Aos jornais internacionais, porta-vozes do Talibã tentam evitar o bloqueio de recursos ou uma nova invasão militar adotando um discurso moderado: “Seremos um governo inclusivo”, dizem, cercados por homens e metralhadoras. “As mulheres poderão continuar seus estudos e trabalhar”, prometem, enquanto crescem relatos de soldados invadindo escritórios bancários e mandando essas mesmas mulheres para suas casas, anunciando que os maridos ou outros parentes masculinos tomarão seus lugares. 

Os maridos. Os irmãos. Os pais. Já imaginou perder tudo o que você conquistou com estudo e trabalho, incluindo seu dinheiro e sua identidade, para alguém que você ama? Mas espere, isso soa familiar… Onde foi que você já viu essa cena antes? Sim, você viu. Margaret Atwood também viu, e usou essa imagem para ancorar sua distopia mais famosa. Aquela, que você talvez tenha conhecido pela televisão, ou pelo livro: chama “O Conto da Aia”. 

Rádio Jota #04 – Tanques, mudanças climáticas e mulheres livres

Olá, queridos ouvintes! Estou de volta com mais um Rádio Jota, o programa de variedades culturais do Caderno Jota. Eu sou Juliana Varella, e hoje trago meu novo companheiro de mesa, o microfone Marty Mic Fly! Deem as boas vindas ao Marty. Agradeço ao Douglas Oliveira por ter sugerido esse nome maravilhoso, e vamos às notícias!

Estou gravando este programa numa sexta-feira 13, e não há nada mais horripilante no momento do que a pessoa que ocupa a presidência do país. Pois, na última semana, esse tal senhor apelou, literalmente, para tanques de guerra, numa tentativa desesperada – e fracassada – de demonstrar poder. No mesmo dia da votação da PEC do voto impresso na câmara dos deputados, algumas dezenas de veículos do exército desfilaram em frente ao planalto, coisa que não acontecia desde 1984 assim, fora de datas comemorativas. 

O desfile foi ordenado pelo próprio presidente para entregar a ele um convite para uma cerimônia militar que acontece todos os anos. É o auge do auto-convite, né? E vocês aí achando que café é que é cringe… Mas sigamos. O fato de esse showzinho acontecer no dia da votação certamente não é coincidência: Bolsonaro vem tentando emplacar o voto impresso desde que foi eleito (pelo voto eletrônico), o que só pode ser explicado como 1. Mais uma estratégia para desviar a atenção do que realmente importa, ou 2. Um jeito de tornar mais fácil a manipulação do voto no futuro, ou de levantar a dúvida sobre o principal instrumento da democracia hoje. Pois, mesmo perdendo na câmara, como aconteceu, ele já conseguiu colocar aquele pontinho de interrogação na cabeça de muitos brasileiros.  

Agora, se essa barulheira toda era pra botar medo em alguém… Acho que passou bem longe disso. Um dos tanques que desfilou soltava uma fumaça preta como um carro velho, bem capenga, e o evento virou chacota instantânea na internet. Mas duvido que ele tenha se incomodado com isso: o lema da presidência desde o início tem sido “falem mal, mas falem de mim”, e, mais uma vez, o Brasil está falando dele.  

Enquanto isso, chega hoje a notícia de que o projeto de lançamento no Brasil do filme Marighella, pronto desde 2019 e já exibido em festivais no mundo todo, foi oficialmente cancelado pela Ancine, sob alegação de “desistência” da produtora – no caso a O2. O curioso é que a produtora, segundo a reportagem de Jotabê Medeiros, negou a informação e, portanto, qualquer que tenha sido o motivo para o bloqueio, não foi desistência. Surpresa seria se um governo totalmente militarista apoiasse um filme sobre um líder que se opôs à ditadura militar. O filme estava previsto pra estrear em novembro nos cinemas. 

Continuando no clima de terror, nesta semana a ONU divulgou mais um dos seus relatórios sobre o clima, desta vez estabelecendo um “sinal vermelho” bem claro para a humanidade. Primeiramente, o relatório confirmou que o aquecimento global é culpa nossa – nenhuma novidade aqui – e que um crescimento de um grau e meio em relação à era pré-industrial já é praticamente inevitável, mas pode chegar a dois graus antes de 2050. E isso não significa só um calor insuportável: alguns países insulares correm o risco de desaparecer, ou perder grandes porções, com a elevação do nível do mar. Isso sem contar no aumento de coisas como ciclones, enchentes, secas e outros desastres naturais.

Para evitar o apocalipse, o ideal seria zerar a emissão de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, mas os efeitos ainda demorariam 30 anos pra serem sentidos. Algo me diz que parar de queimar e desmatar florestas também ajudaria bastante.

Voltando pra cultura, porque dei uma desviada aí, vocês lembram da história da Britney Spears, presa numa tutela do pai por 13 anos? Pois é: pra quem não me viu falando disso num dos meus vídeos no Instagram, a Britney foi colocada sob tutela legal do pai quando teve aquele pequeno surto em 2008. Isso colocou todo o seu dinheiro e todos os seus direitos sob o controle do pai, que, desde então, transformou a filha numa máquina de fazer shows em Las Vegas, lucrando rios de dólares, mas negando a ela até mesmo a possibilidade de escolher o próprio advogado. 

Em julho, com a história se tornando pública e amplamente divulgada, ela ganhou o direito de escolher o advogado e, em questão de semanas, seu pai decidiu abandonar voluntariamente a tutela, alegando que não havia base legal nenhuma para retirá-lo à força, mas que ele “quer o bem da filha”. Aham. Milagres da mídia, né? Fica aqui meu boa sorte pra Britney, que vai ter um longo caminho aprendendo a ser dona da própria carreira. E, se for pra ser doidinha, que seja uma doidinha livre!

E, pra fechar com uma dica, hoje eu recomendo pra vocês uma leitura que terminei esses dias: “Afiadas”, de Michelle Dean. O livro tem como subtítulo “as mulheres que fizeram da opinião uma arte”, e é sobre isso que ele fala: são minibiografias de nomes como Norah Ephron, Susan Sontag, Hannah Arendt e Pauline Kael, mulheres que trabalharam como jornalistas, acadêmicas ou roteiristas, ou um pouco de tudo, e que ficaram famosas por terem “opiniões fortes”. 

Bom, a ideia de que qualquer mulher que tenha uma voz pública vai ser considerada “afiada”, de um jeito pejorativo, é abraçada pela autora, que tenta mostrar, no seu livro, como essas autoras eram diferentes entre si. Umas apoiam o movimento feminista quando ele estoura nos anos 60, outras rejeitam; umas escrevem sobre cinema, outras sobre teatro ou literatura; e umas inclusive não se dão bem com as outras. 

Ler essas histórias e me fez querer ler pelo menos um texto de cada uma dessas mulheres, pra ver na prática essa personalidade toda que o livro mostra em cada capítulo. Porém, achei que a autora dá atenção demais às intrigas pessoais fora das redações, de um jeito que acaba reforçando o estereótipo de que mulheres que escrevem são mulheres “difíceis”, que arranjam briga com todo mundo e que estão sempre criticando tudo. É verdade? Provavelmente é. Mas me interessa mais a obra do que a vida delas.  Dito isso, vale muito a leitura, especialmente se você, como eu, é uma mulher tentando se encontrar na crítica e no jornalismo. É bom saber quem foram as divas que abriram caminho pra você.

É isso por hoje! Obrigada a quem me acompanhou até aqui, lembrando que quem quiser enviar uma mensagem ou sugestão, é só me procurar no instagram no @julianavarella ou enviar um email para cadernojota@gmail.com. Até a próxima! 

Rádio Jota: Scarlett vs. Disney, incêndio na Cinemateca e Julia Ducournau

Olá, queridos ouvintes! Sejam bem-vindos de volta ao Rádio Jota, o programa de notícias e dicas culturais do Caderno Jota. Se você ainda não conhece o programa, dá uma olhadinha lá no Spotify! Toda semana, tenho dedicado alguns minutinhos a discutir duas ou três notícias culturais, tentando juntar informação e reflexão. Hoje, convido vocês a pensarem comigo dois assuntos quentes: o caso Scarlett vs. Disney; e o incêndio na Cinemateca Brasileira. Pra não perder o costume, também prometo trazer uma dica cultural diferentona, que eu aposto que vocês ainda não conhecem. Vamos lá?

Começando com a bomba hollywoodiana da vez: a atriz Scarlett Johansson, intérprete de Natasha Romanoff, AKA Viúva Negra há 11 anos, abriu um processo contra a Walt Disney alegando quebra de contrato pelo lançamento simultâneo do filme-solo da heroína nos cinemas e no Disney Plus. Desde então, a Disney respondeu menosprezando a acusação, a agência da Scarlett retrucou e a coisa virou uma guerra midiática. Mas vamos por partes.

Você, aí em casa, com seu salário xoxo que mal paga o aluguel, ficou sabendo que a atriz já tinha recebido 20 milhões de dólares pela participação no filme, e ficou revoltado: cara, do quê que ela tá reclamando? E, de fato, se a gente for pensar no salário base de cada um dos Vingadores para os seus primeiros filmes-solo, esse foi, de longe, o mais alto. Robert Downey Jr. ganhou meio milhão para o primeiro Homem de Ferro, Chris Evans cerca de 1 milhão por Capitão América e a Brie Larson, 5 milhões por Capitã Marvel – pelo que foi divulgado na época de cada lançamento. Porém, onde esses atores realmente ganham é com uma espécie de “participação nos lucros”  – eles incluem no acordo uma porcentagem do que o filme arrecadar em ingressos nos cinemas. E é aí que entra o processo da Scarlett.

Se 20 milhões é muita coisa, o que esses atores podem ganhar com a tal participação é coisa de 50, 70 milhões. E, apesar de o filme da Viúva Negra ter feito cerca de 60 milhões no streaming, como divulgado pela própria Disney, esse número não conta no acordo – só a bilheteria dos cinemas. Entendeu o problema? A questão que o processo levanta não é sobre quanto ela ganhou, mas sobre quanto a Disney ganhou e não compartilhou com ela, ao assumir o risco de reduzir o lucro nos cinemas investindo no aplicativo. 

Isso aconteceu num período de pandemia? Sim. Era necessário lançar no streaming? Era. Mas também era necessário negociar a mudança, se o contrato previa algo diferente, especialmente porque essa estratégia pode se tornar permanente depois da pandemia. E o caso não é exclusivo da Scarlett – ela representa muita gente com esse gesto, que, diga-se de passagem, é bastante corajoso. A equipe da Pixar responsável pela animação Luca, por exemplo, também reclamou do lançamento simultâneo, mas não tinha o peso de alguém como ela pra bancar um processo. E a Warner chegou a negociar condições especiais com nomes como Gal Gadot e Patty Jenkins antes de lançar seus filmes na HBO Max, porque sabia que ia dar problema. 

Ou seja? Tem muito mais em jogo aí do que o salário de uma atriz: é a mudança de formatos de distribuição e de relações entre profissionais e estúdios que está sendo negociada.

Agora, vem comigo respirar fundo e passar pro segundo assunto do dia, porque parece que todo programa tem que pegar fogo em alguma coisa por aqui. 

Na última quinta-feira, 29 de julho, um incêndio tomou conta de um dos galpões da Cinemateca Brasileira, como já estava previsto e avisado há pelo menos um ano. Como assim? Bom, em agosto de 2020 a equipe inteira da Cinemateca foi demitida por falta de dinheiro pra pagar os salários – isso, porque a verba de 14 milhões prometida para o ano inteiro simplesmente não tinha sido entregue pelo Governo Federal, e, no ano anterior, só metade disso tinha sido repassado. Ou seja, o espaço que deveria preservar e difundir o cinema brasileiro ficou sobrevivendo por meses com uma equipe sem salário e sem um centavo para fazer o seu trabalho. 

É a velha história: você não precisa ter jogado gasolina e acendido o fósforo pra ser o culpado pelo incêndio. É só mexer os pauzinhos pra tornar impossível qualquer prevenção do estrago que um acervo cheio de material inflamável vai fazer mais cedo ou mais tarde. Era questão de tempo e todo mundo do meio artístico sabia. Mas, no Brasil, não adianta falar: as pessoas só acreditam quando veem o fogo. E olha lá.

A tragédia da Cinemateca, é claro, não vem sozinha. Ela é parte de um processo muito maior de sucateamento da cultura brasileira que só vem piorando nos últimos anos. Coincidência ou não, nesta mesma semana diversos sistemas do CNPq, incluindo a Plataforma Lattes, onde ficam registrados os currículos acadêmicos de basicamente todos os pesquisadores do Brasil, caíram por conta de uma falha técnica. O medo se espalhou rapidinho, porque, se não houvesse backup, as bolsas de pesquisa seriam afetadas; o ingresso em cursos de pós-graduação seria afetado; contratações seriam afetadas, enfim. E a gente sabe que as únicas pessoas que se importariam com isso eram os próprios acadêmicos, o que torna tudo mais doloroso. Felizmente, o CNPq garantiu que tinha backup e que nada foi perdido. E a gente espera que seja verdade.

E eu falo que isso tudo é sucateamento e não problemas pontuais porque é um conjunto de coisas que vão enfraquecendo acadêmicos, artistas, intelectuais, todos aqueles que tendem a ser mais questionadores, pouco a pouco. O próprio CNPq sofreu um corte de orçamento em 2021 que prejudicou o pagamento das bolsas de doutorado, por exemplo. Isso significa que várias pessoas que tiveram suas bolsas aprovadas há meses não receberam nada até agora, e precisam continuar pagando pra trabalhar. As Universidades Federais também tiveram suas verbas cortadas entre 2020 e 2021 ao ponto que algumas, como a UFRJ e a Unifesp, afirmaram que não têm como bancar o retorno às aulas presenciais.

E, falando em incêndios, vocês devem lembrar de outros ícones da cultura brasileira que queimaram recentemente – o Museu Nacional em 2018, o Memorial da América Latina em 2013, o Museu de História Natural em BH em 2020, e o Museu da Língua Portuguesa no finalzinho de 2015. Esse, finalmente, está reabrindo ao público nesta semana e você já pode até reservar seus ingressos pelo site. Pelo menos uma boa notícia, né? Ô museu maravilhoso!

Pra fechar nosso encontro, trago uma dica mucho loka: um curta-metragem chamado “Junior”, da diretora francesa Julia Ducournau. Ducournau foi a vencedora da Palma de Ouro neste ano com seu segundo longa, Titane, e já tinha levado o prêmio da crítica em Cannes com seu filme de estreia, “Raw” – ou Grave. “Junior”, de 2011, é uma produção de 21 minutos sobre uma menina super moleca e bruta, que começa a entrar na puberdade e vê seu corpo se transformando – no caso, bem literalmente. É um filme com elementos fantásticos e grotescos, que tenta quebrar a ideia do feminino como algo delicado, belo ou, principalmente, controlável, algo que ela vai levar para seus filmes seguintes. 

E o interessante de ver esse curta é descobrir que a diretora tem adotado uma persona comum em todos os seus grandes projetos até agora: a adolescente de “Junior” se chama Justine, como a protagonista de Raw e uma das personagens de Titane, e todas são interpretadas pela mesma atriz, Garance Marillier. Ao que parece, Justine é a mulher monstruosa, errada, ameaçadora, do novo cinema monstruoso, errado, ameaçador e brilhante de Ducournau.  O curta “Junior” fica disponível até 21 de agosto no site shortoftheweek.com.

É isso por hoje! Se tiver comentários ou sugestões, não deixe de me procurar no instagram, no @julianavarella, ou mandar um email para cadernojota@gmail.com. Obrigada a você que me acompanhou até aqui e até a próxima!

Abe – diretor brasileiro harmoniza gastronomia, adolescência e conflitos milenares em filme que abraça

Desde que montei minha pequena lista de filmes sobre cozinheiros, novos títulos gastronômicos têm aparecido por todos os lados, como se zombassem do fato de que não esperei uma semaninha ou duas para incluí-los. Sabor da vida, por exemplo, estreou recentemente na Filme Filme, lembrando-me de finalmente vê-lo; Tomates verdes fritos entrou no catálogo do Sesc Digital (até 30/09 aqui); e, agora, Abe chega aos cinemas depois de pelo menos dois anos de espera. Mas a verdade é que fico feliz com tanta abundância – ando percebendo o quanto esse tipo de filme é, intrinsecamente, feel good, e quem não precisa de um pouco de otimismo hoje em dia?

Pois Abe foi uma surpresa deliciosa e já é um dos meus favoritos do ano. Dirigido pelo brasileiro Fernando Grostein Andrade, o filme abraça intensamente a ideia do diálogo entre culturas, e expressa esse encontro por meio da gastronomia. Para contar essa história (doce, mas complexa), ele une as forças do ator americano Noah Schnapp, mais conhecido como o Will de Stranger Things, às do músico e ator brasileiro Seu Jorge.

Schnapp, protagonista e narrador, vive o adolescente Abe, do título. Ou Abraham, ou Ibrahim. É que, apesar de nascido nos Estados Unidos e ser um autêntico nova-iorquino, ele é descendente, de um lado, de judeus-israelenses, e, do outro, de muçulmanos-palestinos: uma verdadeira bomba genética. Seus pais, é fato, são ateus, mas isso não ameniza em nada a tensão que se forma a cada jantar com os parentes – até amplifica. 

Abe, influenciado pela avó recém-falecida, é apaixonado por comida e já se tornou o melhor cozinheiro na casa. Ele narra suas experiências gastronômicas na internet, por meio de uma conta no Instagram, enquanto tenta lidar com as pressões familiares fora da cozinha. Prestes a completar treze anos, o jovem começa a querer experimentar as tradições de seus avós – desde a celebração de um Bar Mitzvah até o desafiador jejum do Ramadã (uma dificuldade para quem gosta tanto de comer). Mas, a cada passo que dá de um lado, o outro se sente insultado. Como pertencer simultaneamente a dois mundos tão hostis um ao outro, sem deixar de se reconhecer, também, como americano?

Com poucos amigos e pais que não compreendem nem seu amor pela cozinha, nem sua curiosidade pelas raízes, Abe encontra no chef Chico (Seu Jorge) um mentor acidental. Alguém capaz de compreender a sensação de deslocamento que ele vive naquele momento. 

Os dois se conhecem durante uma busca de Abe pela receita perfeita de falafel – quando o garoto descobre o acarajé. Pequeno parênteses aqui para quem não está ligando os pontos: o acarajé é uma adaptação do falafel para terras brasileiras, possivelmente criado por escravos muçulmanos que substituíram o grão-de-bico por feijão. No filme, é explicado que palestinos e israelenses também preparam o bolinho de formas distintas – os primeiros adicionando favas, e os segundos, usando apenas grão-de-bico.

O longa pincela pequenas curiosidades como essa a cada cena, convidando o público a pensar a “fusão” como fazem os grandes chefs: como uma soma e não uma divisão. Algo capaz de gerar sabores inéditos, se bem harmonizado. A metáfora pode parecer ingênua, mas há uma sensatez na percepção de que, no final do dia, é na mesa de jantar que se confrontam as ideias, e é dentro de cada casa e cada pequeno núcleo familiar que se constroem os muros e as pontes mais fortes.

O tema, no que diz respeito às feridas mútuas entre Israel e Palestina, é espinhoso, mas ganha um tratamento respeitoso, mesmo que superficial o suficiente para manter o tom leve de um filme-família. Ao invés de negar as diferenças, Abe, como Abe, propõe o diálogo, a reflexão sobre origens e o reconhecimento de experiências comuns – coisa que exige certo conhecimento de História e Antropologia, ou ao menos disposição para aprender um pouco dos dois. E, assim, disfarçado de comfort food, o filme contrabandeia ideias subversivas como essa, e pode até convencer alguém de que religião, olha que heresia, se discute sim, e que estudar História (ou a história da gastronomia, pelo menos) pode mudar o mundo.

Ambicioso para um filminho tão fofo, não?

Caros Camaradas! – passado escondido pela URSS volta à tona em drama ambíguo

Estreia neste fim de semana nos cinemas o representante russo ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021, Caros Camaradas!. O longa não chegou à lista definitiva, mas fez parte dos 15 finalistas, e tem chamado atenção especial pelo nome que acompanha seu pôster: Andrei Konchalovsky, cineasta russo relativamente badalado nos anos 80 que, desde então, tem se dedicado a produções mais independentes – com as quais ele diz ter liberdade e não se preocupar com o sucesso comercial (como explicou em entrevista ao The Guardian). Como é bom ter dinheiro sobrando, né? 

Caros Camaradas!, de fato, parece se preocupar mais em estudar um momento histórico – uma greve brutalmente reprimida na cidade de Novocherkassk, em 1962, e mantida em segredo até recentemente – do que em conquistar o espectador. Nós, que só conhecemos uma pequena parte do que foi a União Soviética e suas experiências políticas, embarcamos na expectativa de encontrar, ali, uma narrativa imersiva que ajude a compreender num nível mais visceral as turbulências do período, como o cinema tantas vezes permitiu fazer. Contudo, o que encontramos é algo mais próximo de um livro didático: frio e excessivamente descritivo.

Konchalovsky, é verdade, adota um ponto de vista humano que facilita o percurso – o de uma mulher que é membro de uma espécie de cúpula local do Partido Socialista, mas que acaba sendo pessoalmente afetada pelas escolhas do então Secretário Geral Nikita Kruschev. Essa perspectiva se mostra o elemento mais interessante do filme: Lyuda (Yuliya Vysotskaya, esposa de Konchalovsky) traz uma ambiguidade que impede que a produção possa ser posicionada contra ou a favor de qualquer um dos lados em jogo. Ela abre o filme questionando o governo, mas logo se coloca como crítica ferrenha dos trabalhadores em greve, sugerindo, inclusive, uma repressão mais severa. Sob tudo isso, ela mantém um discurso de exaltação ao falecido Stálin, mas eventualmente questiona suas convicções quando vê que, na vida real, aliados e inimigos não são tão claros quanto na teoria.

Apesar disso, o longa se apoia demais em diálogos informativos, esforçando-se em descrever para o leigo um contexto bastante específico e complexo: o de um governo socialista que encara a insatisfação popular diante do aumento de preços dos alimentos. A crise escancara a hipocrisia de um sistema que se vende como coletivista, mas não consegue dialogar com o povo, e parece desprezar os trabalhadores (generalizados como “bêbados” e arruaceiros). Vê-se, ainda, um atrito entre os interesses do exército e da KGB, além do contraste entre a rebeldia de uma juventude que acredita na democracia e a teimosia de uma geração que lutou, na sua época, por um líder totalitário. 

Cada elemento desse complicado cenário é extensamente explicado, mas não necessariamente mostrado, vivenciado ou sentido. Até mesmo o ponto climático da ação – quando o estado ordena que se usem armas de fogo contra a população – vem com uma frieza mal colocada. No caso, não é o tipo de distanciamento que intensifica a dor, como em certos filmes que sugerem o horror pelo contraste ou pela ausência, mas sim um distanciamento de quem está olhando para o lugar errado, mais preocupado com a mensagem do que com seus personagens. A protagonista, no meio do caos, parece fugir das balas por obrigação, e reage de forma prática e quase robótica diante das mortes de colegas. Consequência do choque? Talvez. Mas falta definição na forma como a sequência toda é mostrada – ou se vai pelo lado da poesia, ou pela brutalidade. O meio do caminho só enfraquece o impacto.

Talvez essa didaticidade e esse distanciamento se devam ao fato de que o roteiro é co-escrito por Elena Kiseleva, uma jornalista que se embrenhou recentemente pelo cinema. O equilíbrio entre descrever e narrar é um desafio antigo da profissão, que frequentemente se esconde por trás do escudo da imparcialidade. No cinema, é preciso quebrar esse escudo ou se perde o espectador.

A perspectiva pessoal, felizmente, vai ganhando mais espaço na segunda parte do filme, quando Lyuda se desgruda do Comitê e parte numa missão paralela para encontrar sua filha, uma adolescente que se identifica mais com os manifestantes do que com a mãe. É especialmente sensível que o primeiro diálogo entre as duas, lá no início, tenha tido como tema um sutiã – Lyuda reprimia a filha por não usá-lo, enquanto essa criticava a mãe por ter um caso com um homem casado. Dos dois lados, estavam julgamentos sobre comportamentos considerados imorais, mas a geração mais jovem já reconhecia a futilidade e a hipocrisia do controle sobre o vestuário, talvez por influência dos movimentos feministas em ascensão na Europa e nos Estados Unidos.

O que está em jogo, portanto, parece ser mais do que a discordância entre políticos e trabalhadores. É a União Soviética pós-stalinista que se vê em crise com os ideais socialistas. Quem protesta traz a mesma insatisfação que as gerações anteriores sentiram com os czares – sinal do fracasso da revolução e do novo modelo –, e adiciona a isso a defesa de liberdades democráticas e individuais que dialogam com um mundo fora dali.

Caros Camaradas!, mesmo que imperfeito, chega aos cinemas em bom momento. Entre tantas palavras, algumas ajudam a jogar luz sobre o tema da violência policial/militar e sobre as atuais discussões acerca de modelos políticos. Em certo momento, por exemplo, debate-se o papel do exército: proteger o povo contra ameaças externas ou proteger o governo contra o povo, como acabou se tornando o padrão em sociedades pouco democráticas (caham…)? Vale pensar, ainda, nas proximidades gritantes entre governos totalitários em sociedades socialistas e capitalistas – no fim, o abuso de poder será uma constante onde quer que se permita a sua concentração. Seja na Rússia, seja na Alemanha, seja no Brasil.

10 Filmes sobre cozinheiros

Se a cozinha é o seu lugar favorito da casa, seus amigos estão sempre se convidando para jantar, e você até andou aproveitando o isolamento para aprender novas receitas, prepare-se para se deliciar com esta lista:


First Cow

O sucesso indie “First Cow”, dirigido por Kelly Reichardt, já está no catálogo do Mubi com um cardápio do tipo “improvisadão”. Ambientado no início do século XIX, o filme conta a história de um cozinheiro que viaja até o extremo Oeste americano procurando começar uma vida por lá. Chegando a um pequeno povoado, ele se une a um imigrante chinês e começa a produzir bolinhos fritos – que parecem bolinhos de chuva –, trazendo a esse ambiente bruto um gostinho de infância e uma lembrança da vida urbana. Os quitutes são um sucesso, mas há um problema: a receita usa leite, só existe uma vaca na região, e ela não pertence a eles.


Meu eterno talvez

Procurando algo mais açucarado? A dica é a comédia romântica “Meu eterno talvez”, em cartaz na Netflix. Com Ali Wong e Randall Park, o filme acompanha um casal de amigos que se conhece desde a infância, mas acaba se afastando e se reencontra depois de 15 anos em posições radicalmente opostas. Ela se tornou uma chef renomada, enquanto ele não conseguiu evoluir muito desde que os dois se viram pela última vez. Será que duas pessoas tão diferentes vão conseguir se entender?


A 100 passos de um sonho

Agora pense num filme com pratos de encher os olhos, dignos de revista. É assim em “A 100 passos de um sonho”: essa é a história de uma família indiana que emigra para a França e decide abrir um restaurante, começando uma rivalidade com seu vizinho de frente: um tradicional restaurante francês que ostenta uma estrela Michelin. 


Julie e Julia

Todo grande cozinheiro precisa começar por algum lugar, não é mesmo? Em “Julie e Julia”, de Nora Ephron, Amy Adams é uma mulher que decide aprender a cozinhar com a ajuda de um livro de receitas da famosa Julia Child, e documenta todo o processo num blog. A história de Child, interpretada por Meryl Streep, vai sendo contada em paralelo, mostrando como ela, também, enfrentou suas dificuldades para entrar nesse mundo até então exclusivamente masculino.


Chef

O multitalentoso Jon Favreau escreve, dirige e protagoniza a comédia inspiradora “Chef”, que tem sabor de comida de rua. No filme, ele vive um chef de cozinha que abandona o trabalho num grande restaurante após receber uma crítica negativa e perceber que não estava feliz. Então, ele decide abrir um food truck junto com seu melhor amigo e o filho, e pegar a estrada.


Ratatouille

Uma das animações mais fofas da Pixar consegue juntar a paixão francesa pela gastronomia e uma das figuras mais temidas por qualquer dono de restaurante: um rato. Pois Ratatouille é justamente sobre um ratinho com talento para a cozinha, cujas intenções são obviamente frustradas por sua natureza. As coisas começam a dar certo quando ele se une a um cozinheiro aprendiz, humano, e começa a levar suas receitas para um respeitado restaurante, sem que ninguém desconfie.


Sem reservas

Passando para uma proposta meio-doce, meio-azeda, recomendamos o romance “Sem reservas”, com Catherine Zeta Jones, Aaron Eckhart e uma pequenininha Abigail Breslin. O filme adota o clichê da mulher bem-sucedida que é temida por todos os seus colegas e não consegue conciliar a vida familiar com a profissional, mas complica a questão ao colocar, na vida da chef Kate, uma responsabilidade repentina: cuidar da sobrinha de dez anos após a morte da irmã. Para piorar, um novo chef é contratado por seu restaurante, e ela teme que ele tenha vindo roubar o seu lugar.


Pegando fogo

Seguindo na linha de chefs problemáticos, que tal conhecer Adam Jones? O chefe de cozinha vivido por Bradley Cooper em “Pegando Fogo” conseguiu arruinar a própria carreira com seu comportamento irresponsável e vício em drogas. Agora, sóbrio e queimado, ele tenta retornar à ativa assumindo o comando de um importante restaurante londrino.


Os sabores do palácio

Falando em trabalhos importantes, você já parou para pensar em quem prepara a comida para as autoridades? Em “Os sabores do palácio”, a chef Hortense Laborie é convidada para ser a cozinheira particular do presidente francês, amante da gastronomia e sedento por novos sabores. Competente e firme em suas escolhas arriscadas, Hortense consegue conquistar seu novo patrão, mas logo perceberá que, num lugar tão cheio de egos e poderes, não é só ele que precisa aprovar seu trabalho… 


The Lunchbox

Para encerrar o menu com aquela “comfort food” de aquecer o coração, sugerimos o indiano “The lunchbox”. Nele, uma dona-de-casa prepara marmitas para o marido numa tentativa de melhorar a relação; mas, certo dia, o almoço é entregue no endereço errado e vai parar nas mãos de um homem solitário, prestes a se aposentar. Depois de explicado o engano, os dois começam a trocar cartas por meio das marmitas e desenvolvem uma profunda amizade, mesmo sem nunca terem se conhecido. 


Já ficou com fome? Então aprecie este vídeo com personagens cozinhando no dia-a-dia em filmes do Studio Ghibli:


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Tudo o que eu não gostei na série Loki

Pensei em chamar este texto de “tudo o que eu não gostei na série Loki”, mas achei que ia soar apelativo. Então, lembrei que a internet funciona assim mesmo, fui em frente e digitei as nove palavrinhas polêmicas. Pelo menos, estaria falando a verdade. 

Loki é a terceira série original da Marvel a estrear na Disney Plus, expandindo o MCU, desenvolvendo melhor alguns personagens secundários e preparando o terreno para a famosa e um tanto vaga “Fase 4”. A primeira delas foi WandaVision, uma série que, antes de estrear, era uma gigantesca incógnita na minha cabeça; mas, depois, se tornou meu xodó entre os lançamentos do ano. Tinha humor, tinha ritmo, tinha uma química imensa entre os atores, e usava das situações lúdicas e absurdas para falar de coisa séria: luto, dor, negação. E tinha Elizabeth Olsen, diva em todas as décadas.

A segunda foi Falcão e o Soldado Invernal, outra que não me interessara muito até estrear, mas acabou surpreendendo. Usando do formato conhecido dos filmes de ação e perseguição, ela trouxe como tema central o racismo e a mudança dos tempos: o que significaria – para o mundo, para um país conservador e para uma pessoa negra – se o próximo Capitão América fosse negro? Sem se apressar, a jornada de Sam Wilson (Anthony Mackie) foi mostrando os diferentes lados dessa história, os dilemas morais, as consequências, as responsabilidades, as dificuldades (financeiras inclusive), ao mesmo tempo em que trabalhava em segundo plano uma trama sobre refugiados que os colocava ora como vítimas, ora como vilões, e ora ainda como seres humanos complexos com um ideal de coletividade. Nada mal para uma série da Marvel sobre dois sidekicks, né?

Então chegou Loki, a única que se propunha a seguir um personagem já muito popular entre os fãs: o vilão de Vingadores, irmão de Thor, Deus da Trapaça, mezzo-alívio cômico, mezzo-sex symbol vivido por Tom Hiddleston desde 2011. Não que eu esperasse muito, mas olhar para o Gabriel com uma cara meio indignada e dizer “cara, isso tá muito ruim” toda quarta-feira? Isso, eu não esperava. 

#chateada

A série parte do momento em que, tentando resgatar as joias do infinito no passado, Homem de Ferro, Capitão América e Homem Formiga se atrapalham e deixam o Tesseract cair no chão. Loki, então, pega a joia e desaparece. Agora, descobrimos que esse breve momento de vitória não durou quase nada, já que, ao se teletransportar, Loki é interceptado por um grupo de soldados (representantes dos Guardiões do Tempo) e enviado para um escritório/prisão (o TVA). A acusação é de que Loki provocou uma ruptura na “linha do tempo sagrada” ao se apossar do Tesseract, e, se você estava prestando um mínimo de atenção, talvez estranhe essa informação. Afinal, quem provocou a mudança foi o trio de Vingadores, não? Hm, não tente pensar demais nisso. 

Daí em diante, o que acontece é uma espécie de jornada de autoconhecimento e transformação para Loki, que, entre outras coisas, terá acesso ao “vídeo da sua vida” (tão brega quanto parece), descobrirá que não é a única versão de si mesmo no multiverso (e nem sequer a melhor), verá que existem forças mais poderosas do que Thanos (e que usam as jóias do infinito como pesos de papel, o que é uma piada muito barata) e viverá alguns dias como uma barata-tonta entre planetas, épocas e dimensões. Divertido? Mais no papel do que na prática.

Talvez o maior erro de Loki tenha sido se preocupar demais em apresentar uma nova grande ameaça megalomaníaca para o Universo Marvel, esquecendo-se de trabalhar seu personagem principal, como alguns veículos já defenderam muito bem. Mas certamente não foi o único. Aponto pelo menos outros três:

Muito se falou da cena em que Loki sugere, com uma frase vaga, que poderia ser bissexual. “Uau, como a Disney está abraçando a diversidade!”, “Nossa, a Marvel arrasou!”, blablabla. Acontece que, a partir daí, ele começa a viver um relacionamento potencialmente romântico com Sylvie, sua versão feminina. O que estaria ótimo, se ele também sugerisse qualquer tipo de flerte com seus outros espelhos, já que a ideia é explorar seu narcisismo. Mas não: o clima Loki-Sylvie só existe porque estamos colocando um personagem masculino para passar tempo demais com uma personagem feminina (e meninos não podem ser amigos de meninas, todo mundo sabe). Diga-se de passagem, todos os outros Lokis se consideram iguais em algum sentido, mas o Loki-Hiddleston faz questão de frisar como ela é diferente. Mais diferente do que um JACARÉ, só porque é mulher.

Meu segundo ponto crítico na série é a apresentação do protagonista como o oposto de um vilão. E não estou falando em humanização, que em geral é super válida, mas na completa distorção do personagem na pressa por gerar simpatia e redenção a tempo para a chegada do próximo filme da marca. O que sai pela culatra, acho eu, já que Loki é o sucesso que é justamente por seus traços vilanescos: a arrogância e a astúcia, em especial. Aqui, o mesmo Deus asgardiano que estava determinado a dominar a Terra, e disposto a se aliar a Thanos mesmo que isso colocasse em risco o universo inteiro, não tem nem arrogância nem astúcia. Pior: ele não tem nenhum plano. Nenhum. Nem sequer um planinho que dá errado, ou uma proposta aos Guardiões do Tempo, uma intenção de virar o jogo, nada. Loki está nu, com frio. Patético e frágil.

Lembra desse Loki aqui, usado extensamente na divulgação? Então, foi pra te enganar.

Ok, talvez eu esteja sendo cruel aqui, pois ele expressa a intenção de se aproximar desse novo poder para tirar alguma vantagem, mas isso nunca passa do primeiro episódio. O resto do tempo, Loki gasta sendo jogado de um lado ao outro, seguindo os impulsos e as convicções de terceiros. A série justifica essa impotência do personagem pela crise de consciência que ele tem ao descobrir que não é dono do próprio destino, rever em tela as próprias crueldades e ouvir de um completo estranho que sua mania de grandeza é, na verdade, a ilusão de uma criança desesperada por atenção. Terapia eficiente essa, né?

Mas, mesmo que a gente acredite que Owen Wilson seja sobrenaturalmente convincente, será mesmo que um único vídeo de 5 minutos seria capaz de convencer o Deus da Trapaça de que seu “glorioso propósito” era morrer nas mãos de Thanos, de um jeito bobo, sem ter jamais conquistado nada? Cá entre nós, essa criatura domina mágica, mas não consegue conceber um deep fake e uma boa edição, sei lá…? 

Terceiro ponto, e esse é para quem assistiu até o fim [vem spoiler aqui]: o diálogo final defende a tese de que, se você tirar o poder de um ditador, a consequência será, necessariamente, o caos. Digo, gente… Vocês já ouviram falar em democracia? O argumento que Loki parece não conseguir refutar (e isso já plenamente posicionado como o “bonzinho” e “sensato”) é que, ou se tem um indivíduo no controle de tudo – a única pessoa a quem pode ser concedido o livre-arbítrio –, ou não será possível controlar mais nada e o universo (multiverso, no caso) se auto-destruirá, porque as pessoas poderão fazer “o que quiserem”. É claro que, em se tratando de uma saga de aventura e fantasia, a tal ameaça de caos se intensifica por uma coleção de outros hiper-vilões, mas isso não muda o fato de que se propõe, com todas as palavras, que uma ditadura seja a situação mais desejável. Uma que só permite a existência de uma única linha do tempo, à custa de infinitas outras, porque essa é a linha em que existe o próprio ditador. (Duh)  [Fim dos spoilers]

Em suma, para uma série que se propõe a desenvolver um personagem que é notoriamente ambíguo, manipulador, e que passou filmes e filmes oscilando entre o “Bem” e o “Mal”, Loki se mostra imensamente frustrante. Ela agradou e vai continuar agradando, sim, a muitos fãs, mas tenho a impressão de que é mais pelos easter eggs, pelos coadjuvantes carismáticos (praticamente todos roubam a cena de Hiddleston) e pelas portas que abre para o futuro da franquia do que pelo que faz por Loki, em si. 

Uma pena. Como li outro dia numa matéria muito boa, a Marvel tem falhado com seus vilões há tempos, e não foi desta vez que ela fez justiça. Esperemos que, na próxima temporada, já confirmada, a equipe de roteiristas se lembre de quem é o verdadeiro protagonista.

Elize Matsunaga: fascinação pelo grotesco

Nunca entendi direito a febre dos true crimes. Não sou fã de histórias reais e, dentre elas, as que exploram crimes hediondos são as que menos me interessam. Programas pinga-sangue no fim de tarde? Tô fora. Filme do Tarantino sobre o assassinato de Sharon Tate? Pre-gui-ça. Documentários sobre serial killers carismáticos? Crimes mal resolvidos? Traumas para a vida toda? A busca frenética por saber quem matou quem e como, com detalhes? Gente, vocês estão bem…?

É, ninguém está. Apesar disso, resolvi assistir á nova série documental “da Netflix” (produzido por terceiros, pago e aprovado pela Netflix, como todos os seus “originais”), Elize Matsunaga: Era uma vez um crime. Tive dois motivos: um – os tais “terceiros” eram a produtora Boutique Filmes, onde o Gabriel trabalha (o nome dele está nos créditos!), e ele me garantiu que a série era interessante; dois – a direção é da Eliza Capai, de quem eu conhecia o documentário Espero tua (re)volta, sobre os movimentos estudantis que ocuparam escolas públicas em São Paulo uns anos atrás, e com quem eu tinha tido uma conversa muito boa na época, entre uma garfada e outra num restaurante vegetariano. 

A série e o longa de Capai não têm muita semelhança entre si, exceto pelo fato de que ela, novamente, assume uma posição de ouvinte e deixa que outros contem a história. Não há narração pessoal, como nos trabalhos de Petra Costa, por exemplo. Aqui, quem descreve os eventos, comenta e conecta são os repórteres que cobriram o caso quando ele estourou, em 2012; além dos advogados de defesa e acusação; amigos e familiares dos dois lados; e a própria Elize – que pela primeira vez teve direito a uma saída temporária da prisão e concedeu uma longa entrevista à equipe, contando passo-a-passo sua versão da história.

Uma tragédia de elite?

São raras as vezes que um assassino confesso se dispõe a falar desse jeito para o grande público, mais raro ainda uma assassina. Daí o apelo da série. Num momento em que se discute feminicídio, violência doméstica, direitos da mulher e a importância da sua voz, a história de Elize chega como uma exceção particularmente complexa e provocadora. Afinal, entender o que motivou o crime não anula o fato de que ele ocorreu – e incluiu os horrores de um corpo esquartejado. 

Porém, conhecer certos detalhes ajuda a perceber esse caso como algo muito maior do que o desentendimento entre duas pessoas ou a violência unilateral de uma: o que está pintado ali, em cores berrantes, é a tragédia de uma elite branca brasileira tão descolada da realidade que sua própria capacidade de empatizar ou se horrorizar com o outro (humano ou não) já se esvaiu há tempos, no momento em que saiu para caçar um animal pelo mero prazer de caçar, ou começou a colecionar armas de fogo e espalhá-las pela casa simplesmente porque gostava. 

Penso nessa série, na fascinação pelos crimes reais e na narrativa que se constrói sobre Elize e Marcos pela ideia do grotesco. O feio que se emoldura como belo, o baixo que se mistura ao alto, a contradição entre o ideal e o imperfeito que modela nossas vidas e dá origem aos melhores dramas. A vida de Elize é cheia de contrastes: a pobreza e a riqueza; a experiência como garota de programa e o sonho de ter uma família tradicional; a aparência delicada e o crime horripilante. A voz calma e o conteúdo terrível do que diz. 

Mas também é grotesca a vida privada dessas pessoas tão perfeitamente civilizadas: eles tinham uma cobra; um quarto que mais parecia um arsenal terrorista; expunham a cabeça de um veado na sala de estar… A cada informação, o conjunto se torna mais estranho, errado, fascinante. E o público aplaude como num freak show.

Grandes simplificações

A impressão é de que a realidade passou a quilômetros daquele apartamento. E seria difícil imaginar um desfecho menos extremo para uma crise conjugal, quando os dois lados tinham tão fácil acesso a pistolas, rifles e uma submetralhadora “como a de Al Capone”.

Mas aponto para essas esquisitices não para amenizar a culpa de quem, de fato, apertou o gatilho, mas para espalhar essa culpa em infinitos pedacinhos (com o perdão do trocadilho). Pois o que a série faz, com sucesso, é mostrar que o contexto é sempre muito mais complicado do que a imagem que se grava num minuto, e que a ideia que temos de Bem e de Mal são, no fundo, grandes simplificações. 

A obra replica o formato do julgamento e dá voz a todos os lados, reconstruindo a história muito além do momento do crime. Contudo, ela não parece fazer isso para que o público julgue quem está certo ou errado, mas para mostrar que o comportamento humano é esse conjunto caótico de experiências e emoções, que às vezes levam a eventos absurdos.

Nesse caso, não há sequer grandes divergências entre versões. Como não há dúvida sobre quem cometeu o crime, a questão passa a ser algo mais abstrato (e essencialmente irrespondível), como o que ela sentiu ao cometê-lo. É como outro filme que assisti esta semana – um drama holandês chamado “Caráter”, de 1997, que também começa com um assassinato e parte para construir sua história. É curioso como produções tão distintas podem dialogar tanto entre si!

Garantia de arrepios

No fim, cada um vai sentir sua parcela de arrepios com “Era uma vez um crime” – seja pela frieza com que Elize conta sua história, seja pela melodia macabra que acompanha algumas cenas… Ou seja por imaginar o tamanho da pretensão de um homem que veste o manto de salvador enquanto “tira” a mulher de uma vida financeiramente independente para emoldurá-la em casa como um troféu, enquanto avalia outras mulheres feito corridas de Uber num fórum online.

Ou, talvez, como foi o meu caso, os arrepios venham mesmo dos comentários dos vivos e não-encarcerados. Absolutamente cegos às próprias contradições.

Até a Netflix está preocupada com o totalitarismo

Acabei de ver, meio por acaso, o primeiro episódio de uma série documental da Netflix chamada Como se tornar um tirano. Ela deve ter acabado de chegar, já que a data de lançamento é 2021, e não poderia ter vindo em melhor momento. Na verdade, sua existência é quase um mau sinal: se chegamos no ponto em que a cultura pop está discutindo tirania e desenhando didaticamente o que significa ser um tirano (mais didaticamente do que Harry Potter e Star Wars), é porque talvez já seja tarde demais. 

Pessimismo à parte, lembro-me de quando estava na escola, talvez no colegial, e minha professora de História tentava explicar a um bando de alunos incrédulos como a Alemanha nazista tinha se tornado uma realidade. “Que povo cruel!”, julgávamos, do alto de nossos incontestáveis bons-sensos. “Como eles podem ter concordado com isso?”. E a História parecia, naquele momento, apenas uma curiosidade sobre um mundo distante que precisávamos conhecer porque cairia na prova. 

Acho que o filme A Onda foi o primeiro a plantar a dúvida em muitos de nós. “Será que…”, começamos a nos perguntar, preocupados, “Será que somos muito mais manipuláveis do que imaginávamos? Será que aquilo poderia acontecer com qualquer um de nós?!”. 

Ah, a ignorância é uma bênção, né?

Sempre ouvi dizer que a História era cíclica, e até pouco tempo atrás tinha a sensação de que isso só se aplicava ao mundo da moda, que cansava de inovar e colava da geração anterior a cada duas ou três décadas, previsivelmente. Quanto à História real, ela era feita de ciclos enormes – coisa de séculos, que eu não ia ver. Imagine, uma crise de verdade? Ditadura, guerra, assassinatos políticos? Não na minha vez.

Aí, já não era ignorância. Era negação. Meu cérebro tentando se autopreservar durante uma juventude alimentada por George Orwell, Aldous Huxley e Ray Bradbury e professoras desanimadoramente realistas, como aquela. Mas a verdade é que, depois que você aprende a ler os sinais, fica ridiculamente fácil reconhecer um governo potencialmente totalitário, ou tirânico, quando você o vê. E, a julgar pela série da Netflix, não somos apenas nós que estamos olhando para ele.

Como se tornar um tirano tem como alvo todas aquelas pessoas que, como eu e meus colegas no colegial, não acreditam que o nazismo poderia nascer aqui, hoje, e acham exagero quando alguém compara, por exemplo, Bolsonaro a Hitler. De fato, eles não são iguais, e o Brasil de 2021 não é a Alemanha de 1934, mas não se iluda pensando que Hitler era, de alguma forma, especial, ou que sua influência sobre o povo alemão não tem semelhanças com o que está acontecendo aqui e em outros países no mundo, agora. 

Isso pode parecer uma teoria da conspiração, mas é só História. O totalitarismo, como bem notou Hannah Arendt, tem padrões muito claros, e a turma de Adolph ajudou a lapidar alguns deles. É aqui, então, que entra a série. Narrada por Peter Dinklage (experiente em tronos e tiranias) e costurada pelas trajetórias de Hitler, Stálin, Kim Il-Sung, Muammar Khadafi e Idi Amin Dada, ela aproveita o formato portátil dos episódios de meia-hora, com ilustrações dinâmicas e tom de voz despojado, para ensinar ao público quais são esses padrões. Então, sob o disfarce de um “livro de regras” para aconselhar um futuro tirano, a produção vai tentando tornar o espectador mais preparado para reconhecer o perigo e, quem sabe, não se deixar manipular tão facilmente da próxima vez (ou nesta). Bem sabemos que conhecer o problema não é suficiente para impedir que ele aconteça, mas é um bom primeiro passo. 

Se tudo isso está soando abstrato demais, aqui vão alguns dos ingredientes essenciais para a criação de um tirano, segundo esse “livro de regras”:

  1. Megalomania, excesso de autoconfiança ou simples narcisismo delirante: a arte de acreditar que “só você pode salvar o mundo”, como vem ensinando Hollywood há pelo menos meio século (Neo, estou olhando para você)
  1. Um dedo bem apontado para o Outro: uma nação feliz não tem interesse em tiranos, então é importante identificar algo que esteja causando indignação (como uma crise econômica), e depois eleger um Grande Culpado (que nunca será você mesmo, é claro, mas normalmente imigrantes, acadêmicos, artistas, mulheres um pouco mais questionadoras, comunistas, judeus etc). O Partido Nazista, vejam só, ascendeu depois da Queda da Bolsa de 29, o que me faz pensar se a ascensão global da extrema direita nos dias de hoje não pode ser um reflexo da crise de 2008, quando uma série de bancos americanos quebraram em decorrência da bolha imobiliária, afetando mercados do mundo inteiro.
  1. Gente como a gente: nada como uma caneta Bic para mostrar que alguém é simples, né? Pois os maiores ditadores da História sempre se preocuparam em manter uma imagem próxima do povo para que fossem reconhecidos como os “verdadeiros representantes” do país, mesmo que isso só fosse verdade na hora da foto. Afinal, isso não é sobre um partido ou um plano de governo, mas sobre criar um ídolo. 
  1. Publicidade é tudo: Goebbels sabia disso. Hoje em dia, talvez a publicidade clássica, baseada na repetição infinita de uma imagem e uma ideia, tenha sido substituída pelo investimento na desinformação – com mil fontes dizendo coisas diferentes, quem é que vai acreditar nos jornais quando eles apontarem os erros do governo?
  1. Esquadrão de minions: pra quem não sabe, o termo “minion”, usado na animação “Meu malvado favorito”, significa algo como “capanga”, ou “seguidor fiel” de alguém poderoso, frequentemente um vilão. Como explica Dinklage (e a História), qualquer pessoa que pretenda aplicar um golpe de governo e se manter ali, numa posição de poder absoluto, precisa se cercar de aliados extremamente fiéis, capazes de fechar os olhos para tudo o que ocorrer de absurdo ou desumano (como campos de concentração nazistas), por lealdade à sua imagem.

E isso foi só o primeiro episódio. Deu até um medinho, né? 

Revisitando Doug

Eu e o Gabriel temos um novo hobby: rever um episódio de Doug por dia, após o almoço. Na verdade, não tenho certeza se estamos revendo ou vendo pela primeira vez, pois os episódios que entraram na Disney Plus fazem parte de uma segunda fase, produzida depois que a Disney comprou a produtora do criador Jim Jinkins (Jumbo Pictures) da Nickelodeon em 1996. Até então, já haviam sido exibidas quatro temporadas da série animada, de 1991 a 1994.

A verdade é que eu nunca soube da existência de duas fases distintas até agora, e só suspeitei porque a música de abertura não era a mesma, e alguns outros detalhes não pareciam certos: Roger ficou rico, a mãe de Doug está grávida e onde foi parar o Homem Codorna?? Pois minha memória é fraca o suficiente para que eu me questionasse se não tinha sido sempre assim, mas, nesse caso, não tinha. Infelizmente, ela também não me permite saber se, quando criança, cheguei a assistir às duas versões ou apenas à primeira (a TV Cultura tinha os direitos da fase Nickelodeon, mas o SBT aparentemente exibiu a fase Disney um pouco depois).

Novidade ou não, essa segunda parte também é criação de Jinkins, e a qualidade é igualmente assombrosa, apesar de tudo soar um pouco mais adulto e consciente. Cada episódio discute algum aprendizado profundo na vida de Doug, como saber trabalhar em equipe, não ser ganancioso ou não acreditar em boatos, tudo isso por meio de situações cotidianas envolvendo os amigos e a escola. Até aí, nada de tão diferente de outros programas infantis, né?

O diferencial de Doug, que fica mais claro agora que se pode ver com distanciamento, é que os personagens são bastante falhos, e suas reações – às vezes mesquinhas, às vezes impulsivas, muitas vezes perdidas na imaginação – oferecem ao público a chance de se identificar de verdade, não apenas projetar um ideal ou rir da desgraça alheia. Doug, por exemplo, fica tão animado certo dia por ter conseguido arrancar risadas dos colegas, que se vislumbra um grande comediante, entretendo a todos com seu incomparável humor perspicaz. Tadinho, ele é ingênuo. Mas também não perde uma oportunidade para mandar nos outros – o que eventualmente se mostra um grande erro, mas mostra à criança que seus próprios impulsos egocêntricos não são incomuns. 

Outro elemento que me encanta nessa animação é o fato de o protagonista não ser nenhum padrão de garoto aventureiro, valente ou galãzinho: ele é medroso, inseguro, usa um colete de vovó, tem até uma pancinha simpática, tem um cachorro (mais esperto que ele) e, acima de tudo, tem um diário. E isso não apenas funciona como uma justificativa para a narração, mas mostra como Doug consegue aprender com suas experiências, observando-as e refletindo sobre elas, como numa espécie de terapia – e isso é um exemplo muito bom para qualquer criança, especialmente uma criança introvertida. Sei bem, porque cresci escrevendo em diários todas as noites até a adolescência, e foi um hábito que moldou tanto meu caráter quanto minha escrita. Porém, não era algo que um garoto poderia fazer e admitir publicamente… Diários eram, naquela época, até onde chegava aos meus ouvidos, “coisa de menina”. E Doug tinha um.

E, já que estamos falando em expectativas de gênero, vale lembrar que a Paty Maionese não é só um interesse amoroso para Doug – ela é uma amiga e, nessa temporada que estou assistindo, o amor platônico é bem amenizado (o que é ótimo considerando que é uma série sobre crianças). Além disso, Patty tem algo de moleca: ela gosta de esportes, compartilha do mesmo amor de Doug e Skeeter por uma banda de rock, e tem dificuldade de se integrar a um grupo feminista num episódio sobre isso, porque também criou suas hipóteses sobre o que é considerado feminino (ela acredita que o grupo será “fútil” e “arrogante”, mas aprende na prática que não é).

Rever Doug (mesmo que não os mesmos episódios) me fez lembrar de algo que costuma voltar à minha cabeça de tempos em tempos: a ideia de que tendemos (a imprensa, especialmente) a subestimar a importância do conteúdo produzido para crianças, e excluí-lo das nossas coberturas e recomendações. E o fazemos porque esquecemos que foi graças a séries como Doug, Castelo Rá-Tim Bum, Animais do Bosque dos Vinténs, Os Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Anos Incríveis, e livros como Harry Potter ou os da Coleção Vagalume, e filmes como as animações clássicas da Disney ou A História Sem Fim, que todos nós aprendemos muitos dos valores que carregamos até hoje, para o bem ou para o mal. E isso vale para todas as gerações, marcadas por vidas inteiras por aquilo que viram e leram na infância. Porque a arte tem esse poder de tocar, não tem? E nunca foi preciso ser adulto para ser tocado por ela.