Elize Matsunaga: fascinação pelo grotesco

Nunca entendi direito a febre dos true crimes. Não sou fã de histórias reais e, dentre elas, as que exploram crimes hediondos são as que menos me interessam. Programas pinga-sangue no fim de tarde? Tô fora. Filme do Tarantino sobre o assassinato de Sharon Tate? Pre-gui-ça. Documentários sobre serial killers carismáticos? Crimes mal resolvidos? Traumas para a vida toda? A busca frenética por saber quem matou quem e como, com detalhes? Gente, vocês estão bem…?

É, ninguém está. Apesar disso, resolvi assistir á nova série documental “da Netflix” (produzido por terceiros, pago e aprovado pela Netflix, como todos os seus “originais”), Elize Matsunaga: Era uma vez um crime. Tive dois motivos: um – os tais “terceiros” eram a produtora Boutique Filmes, onde o Gabriel trabalha (o nome dele está nos créditos!), e ele me garantiu que a série era interessante; dois – a direção é da Eliza Capai, de quem eu conhecia o documentário Espero tua (re)volta, sobre os movimentos estudantis que ocuparam escolas públicas em São Paulo uns anos atrás, e com quem eu tinha tido uma conversa muito boa na época, entre uma garfada e outra num restaurante vegetariano. 

A série e o longa de Capai não têm muita semelhança entre si, exceto pelo fato de que ela, novamente, assume uma posição de ouvinte e deixa que outros contem a história. Não há narração pessoal, como nos trabalhos de Petra Costa, por exemplo. Aqui, quem descreve os eventos, comenta e conecta são os repórteres que cobriram o caso quando ele estourou, em 2012; além dos advogados de defesa e acusação; amigos e familiares dos dois lados; e a própria Elize – que pela primeira vez teve direito a uma saída temporária da prisão e concedeu uma longa entrevista à equipe, contando passo-a-passo sua versão da história.

Uma tragédia de elite?

São raras as vezes que um assassino confesso se dispõe a falar desse jeito para o grande público, mais raro ainda uma assassina. Daí o apelo da série. Num momento em que se discute feminicídio, violência doméstica, direitos da mulher e a importância da sua voz, a história de Elize chega como uma exceção particularmente complexa e provocadora. Afinal, entender o que motivou o crime não anula o fato de que ele ocorreu – e incluiu os horrores de um corpo esquartejado. 

Porém, conhecer certos detalhes ajuda a perceber esse caso como algo muito maior do que o desentendimento entre duas pessoas ou a violência unilateral de uma: o que está pintado ali, em cores berrantes, é a tragédia de uma elite branca brasileira tão descolada da realidade que sua própria capacidade de empatizar ou se horrorizar com o outro (humano ou não) já se esvaiu há tempos, no momento em que saiu para caçar um animal pelo mero prazer de caçar, ou começou a colecionar armas de fogo e espalhá-las pela casa simplesmente porque gostava. 

Penso nessa série, na fascinação pelos crimes reais e na narrativa que se constrói sobre Elize e Marcos pela ideia do grotesco. O feio que se emoldura como belo, o baixo que se mistura ao alto, a contradição entre o ideal e o imperfeito que modela nossas vidas e dá origem aos melhores dramas. A vida de Elize é cheia de contrastes: a pobreza e a riqueza; a experiência como garota de programa e o sonho de ter uma família tradicional; a aparência delicada e o crime horripilante. A voz calma e o conteúdo terrível do que diz. 

Mas também é grotesca a vida privada dessas pessoas tão perfeitamente civilizadas: eles tinham uma cobra; um quarto que mais parecia um arsenal terrorista; expunham a cabeça de um veado na sala de estar… A cada informação, o conjunto se torna mais estranho, errado, fascinante. E o público aplaude como num freak show.

Grandes simplificações

A impressão é de que a realidade passou a quilômetros daquele apartamento. E seria difícil imaginar um desfecho menos extremo para uma crise conjugal, quando os dois lados tinham tão fácil acesso a pistolas, rifles e uma submetralhadora “como a de Al Capone”.

Mas aponto para essas esquisitices não para amenizar a culpa de quem, de fato, apertou o gatilho, mas para espalhar essa culpa em infinitos pedacinhos (com o perdão do trocadilho). Pois o que a série faz, com sucesso, é mostrar que o contexto é sempre muito mais complicado do que a imagem que se grava num minuto, e que a ideia que temos de Bem e de Mal são, no fundo, grandes simplificações. 

A obra replica o formato do julgamento e dá voz a todos os lados, reconstruindo a história muito além do momento do crime. Contudo, ela não parece fazer isso para que o público julgue quem está certo ou errado, mas para mostrar que o comportamento humano é esse conjunto caótico de experiências e emoções, que às vezes levam a eventos absurdos.

Nesse caso, não há sequer grandes divergências entre versões. Como não há dúvida sobre quem cometeu o crime, a questão passa a ser algo mais abstrato (e essencialmente irrespondível), como o que ela sentiu ao cometê-lo. É como outro filme que assisti esta semana – um drama holandês chamado “Caráter”, de 1997, que também começa com um assassinato e parte para construir sua história. É curioso como produções tão distintas podem dialogar tanto entre si!

Garantia de arrepios

No fim, cada um vai sentir sua parcela de arrepios com “Era uma vez um crime” – seja pela frieza com que Elize conta sua história, seja pela melodia macabra que acompanha algumas cenas… Ou seja por imaginar o tamanho da pretensão de um homem que veste o manto de salvador enquanto “tira” a mulher de uma vida financeiramente independente para emoldurá-la em casa como um troféu, enquanto avalia outras mulheres feito corridas de Uber num fórum online.

Ou, talvez, como foi o meu caso, os arrepios venham mesmo dos comentários dos vivos e não-encarcerados. Absolutamente cegos às próprias contradições.

Até a Netflix está preocupada com o totalitarismo

Acabei de ver, meio por acaso, o primeiro episódio de uma série documental da Netflix chamada Como se tornar um tirano. Ela deve ter acabado de chegar, já que a data de lançamento é 2021, e não poderia ter vindo em melhor momento. Na verdade, sua existência é quase um mau sinal: se chegamos no ponto em que a cultura pop está discutindo tirania e desenhando didaticamente o que significa ser um tirano (mais didaticamente do que Harry Potter e Star Wars), é porque talvez já seja tarde demais. 

Pessimismo à parte, lembro-me de quando estava na escola, talvez no colegial, e minha professora de História tentava explicar a um bando de alunos incrédulos como a Alemanha nazista tinha se tornado uma realidade. “Que povo cruel!”, julgávamos, do alto de nossos incontestáveis bons-sensos. “Como eles podem ter concordado com isso?”. E a História parecia, naquele momento, apenas uma curiosidade sobre um mundo distante que precisávamos conhecer porque cairia na prova. 

Acho que o filme A Onda foi o primeiro a plantar a dúvida em muitos de nós. “Será que…”, começamos a nos perguntar, preocupados, “Será que somos muito mais manipuláveis do que imaginávamos? Será que aquilo poderia acontecer com qualquer um de nós?!”. 

Ah, a ignorância é uma bênção, né?

Sempre ouvi dizer que a História era cíclica, e até pouco tempo atrás tinha a sensação de que isso só se aplicava ao mundo da moda, que cansava de inovar e colava da geração anterior a cada duas ou três décadas, previsivelmente. Quanto à História real, ela era feita de ciclos enormes – coisa de séculos, que eu não ia ver. Imagine, uma crise de verdade? Ditadura, guerra, assassinatos políticos? Não na minha vez.

Aí, já não era ignorância. Era negação. Meu cérebro tentando se autopreservar durante uma juventude alimentada por George Orwell, Aldous Huxley e Ray Bradbury e professoras desanimadoramente realistas, como aquela. Mas a verdade é que, depois que você aprende a ler os sinais, fica ridiculamente fácil reconhecer um governo potencialmente totalitário, ou tirânico, quando você o vê. E, a julgar pela série da Netflix, não somos apenas nós que estamos olhando para ele.

Como se tornar um tirano tem como alvo todas aquelas pessoas que, como eu e meus colegas no colegial, não acreditam que o nazismo poderia nascer aqui, hoje, e acham exagero quando alguém compara, por exemplo, Bolsonaro a Hitler. De fato, eles não são iguais, e o Brasil de 2021 não é a Alemanha de 1934, mas não se iluda pensando que Hitler era, de alguma forma, especial, ou que sua influência sobre o povo alemão não tem semelhanças com o que está acontecendo aqui e em outros países no mundo, agora. 

Isso pode parecer uma teoria da conspiração, mas é só História. O totalitarismo, como bem notou Hannah Arendt, tem padrões muito claros, e a turma de Adolph ajudou a lapidar alguns deles. É aqui, então, que entra a série. Narrada por Peter Dinklage (experiente em tronos e tiranias) e costurada pelas trajetórias de Hitler, Stálin, Kim Il-Sung, Muammar Khadafi e Idi Amin Dada, ela aproveita o formato portátil dos episódios de meia-hora, com ilustrações dinâmicas e tom de voz despojado, para ensinar ao público quais são esses padrões. Então, sob o disfarce de um “livro de regras” para aconselhar um futuro tirano, a produção vai tentando tornar o espectador mais preparado para reconhecer o perigo e, quem sabe, não se deixar manipular tão facilmente da próxima vez (ou nesta). Bem sabemos que conhecer o problema não é suficiente para impedir que ele aconteça, mas é um bom primeiro passo. 

Se tudo isso está soando abstrato demais, aqui vão alguns dos ingredientes essenciais para a criação de um tirano, segundo esse “livro de regras”:

  1. Megalomania, excesso de autoconfiança ou simples narcisismo delirante: a arte de acreditar que “só você pode salvar o mundo”, como vem ensinando Hollywood há pelo menos meio século (Neo, estou olhando para você)
  1. Um dedo bem apontado para o Outro: uma nação feliz não tem interesse em tiranos, então é importante identificar algo que esteja causando indignação (como uma crise econômica), e depois eleger um Grande Culpado (que nunca será você mesmo, é claro, mas normalmente imigrantes, acadêmicos, artistas, mulheres um pouco mais questionadoras, comunistas, judeus etc). O Partido Nazista, vejam só, ascendeu depois da Queda da Bolsa de 29, o que me faz pensar se a ascensão global da extrema direita nos dias de hoje não pode ser um reflexo da crise de 2008, quando uma série de bancos americanos quebraram em decorrência da bolha imobiliária, afetando mercados do mundo inteiro.
  1. Gente como a gente: nada como uma caneta Bic para mostrar que alguém é simples, né? Pois os maiores ditadores da História sempre se preocuparam em manter uma imagem próxima do povo para que fossem reconhecidos como os “verdadeiros representantes” do país, mesmo que isso só fosse verdade na hora da foto. Afinal, isso não é sobre um partido ou um plano de governo, mas sobre criar um ídolo. 
  1. Publicidade é tudo: Goebbels sabia disso. Hoje em dia, talvez a publicidade clássica, baseada na repetição infinita de uma imagem e uma ideia, tenha sido substituída pelo investimento na desinformação – com mil fontes dizendo coisas diferentes, quem é que vai acreditar nos jornais quando eles apontarem os erros do governo?
  1. Esquadrão de minions: pra quem não sabe, o termo “minion”, usado na animação “Meu malvado favorito”, significa algo como “capanga”, ou “seguidor fiel” de alguém poderoso, frequentemente um vilão. Como explica Dinklage (e a História), qualquer pessoa que pretenda aplicar um golpe de governo e se manter ali, numa posição de poder absoluto, precisa se cercar de aliados extremamente fiéis, capazes de fechar os olhos para tudo o que ocorrer de absurdo ou desumano (como campos de concentração nazistas), por lealdade à sua imagem.

E isso foi só o primeiro episódio. Deu até um medinho, né? 

Revisitando Doug

Eu e o Gabriel temos um novo hobby: rever um episódio de Doug por dia, após o almoço. Na verdade, não tenho certeza se estamos revendo ou vendo pela primeira vez, pois os episódios que entraram na Disney Plus fazem parte de uma segunda fase, produzida depois que a Disney comprou a produtora do criador Jim Jinkins (Jumbo Pictures) da Nickelodeon em 1996. Até então, já haviam sido exibidas quatro temporadas da série animada, de 1991 a 1994.

A verdade é que eu nunca soube da existência de duas fases distintas até agora, e só suspeitei porque a música de abertura não era a mesma, e alguns outros detalhes não pareciam certos: Roger ficou rico, a mãe de Doug está grávida e onde foi parar o Homem Codorna?? Pois minha memória é fraca o suficiente para que eu me questionasse se não tinha sido sempre assim, mas, nesse caso, não tinha. Infelizmente, ela também não me permite saber se, quando criança, cheguei a assistir às duas versões ou apenas à primeira (a TV Cultura tinha os direitos da fase Nickelodeon, mas o SBT aparentemente exibiu a fase Disney um pouco depois).

Novidade ou não, essa segunda parte também é criação de Jinkins, e a qualidade é igualmente assombrosa, apesar de tudo soar um pouco mais adulto e consciente. Cada episódio discute algum aprendizado profundo na vida de Doug, como saber trabalhar em equipe, não ser ganancioso ou não acreditar em boatos, tudo isso por meio de situações cotidianas envolvendo os amigos e a escola. Até aí, nada de tão diferente de outros programas infantis, né?

O diferencial de Doug, que fica mais claro agora que se pode ver com distanciamento, é que os personagens são bastante falhos, e suas reações – às vezes mesquinhas, às vezes impulsivas, muitas vezes perdidas na imaginação – oferecem ao público a chance de se identificar de verdade, não apenas projetar um ideal ou rir da desgraça alheia. Doug, por exemplo, fica tão animado certo dia por ter conseguido arrancar risadas dos colegas, que se vislumbra um grande comediante, entretendo a todos com seu incomparável humor perspicaz. Tadinho, ele é ingênuo. Mas também não perde uma oportunidade para mandar nos outros – o que eventualmente se mostra um grande erro, mas mostra à criança que seus próprios impulsos egocêntricos não são incomuns. 

Outro elemento que me encanta nessa animação é o fato de o protagonista não ser nenhum padrão de garoto aventureiro, valente ou galãzinho: ele é medroso, inseguro, usa um colete de vovó, tem até uma pancinha simpática, tem um cachorro (mais esperto que ele) e, acima de tudo, tem um diário. E isso não apenas funciona como uma justificativa para a narração, mas mostra como Doug consegue aprender com suas experiências, observando-as e refletindo sobre elas, como numa espécie de terapia – e isso é um exemplo muito bom para qualquer criança, especialmente uma criança introvertida. Sei bem, porque cresci escrevendo em diários todas as noites até a adolescência, e foi um hábito que moldou tanto meu caráter quanto minha escrita. Porém, não era algo que um garoto poderia fazer e admitir publicamente… Diários eram, naquela época, até onde chegava aos meus ouvidos, “coisa de menina”. E Doug tinha um.

E, já que estamos falando em expectativas de gênero, vale lembrar que a Paty Maionese não é só um interesse amoroso para Doug – ela é uma amiga e, nessa temporada que estou assistindo, o amor platônico é bem amenizado (o que é ótimo considerando que é uma série sobre crianças). Além disso, Patty tem algo de moleca: ela gosta de esportes, compartilha do mesmo amor de Doug e Skeeter por uma banda de rock, e tem dificuldade de se integrar a um grupo feminista num episódio sobre isso, porque também criou suas hipóteses sobre o que é considerado feminino (ela acredita que o grupo será “fútil” e “arrogante”, mas aprende na prática que não é).

Rever Doug (mesmo que não os mesmos episódios) me fez lembrar de algo que costuma voltar à minha cabeça de tempos em tempos: a ideia de que tendemos (a imprensa, especialmente) a subestimar a importância do conteúdo produzido para crianças, e excluí-lo das nossas coberturas e recomendações. E o fazemos porque esquecemos que foi graças a séries como Doug, Castelo Rá-Tim Bum, Animais do Bosque dos Vinténs, Os Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Anos Incríveis, e livros como Harry Potter ou os da Coleção Vagalume, e filmes como as animações clássicas da Disney ou A História Sem Fim, que todos nós aprendemos muitos dos valores que carregamos até hoje, para o bem ou para o mal. E isso vale para todas as gerações, marcadas por vidas inteiras por aquilo que viram e leram na infância. Porque a arte tem esse poder de tocar, não tem? E nunca foi preciso ser adulto para ser tocado por ela.

Tela grande, tela pequena – a chegada da HBO Max e algumas reflexões sobre cinema e plataformas digitais

Estreou hoje no Brasil a nova plataforma de streaming da HBO, HBO Max – consertando alguns dos problemas bizarros da antiga HBO Go e trazendo uma pequena seleção de novas dores de cabeça para quem tentou logar (foi preciso fazer um novo cadastro, mesmo já sendo assinante), assinar (houve problemas com o pagamento nas primeiras horas) ou assistir (as legendas estavam abominavelmente desconfiguradas).

Para impulsionar o tão aguardado e atrasado lançamento, o serviço trouxe alguns títulos inéditos por aqui, mas já extensamente discutidos lá fora, como Friends – The Reunion e The Flight Attendant, além da comédia pandêmica Confinamento (Locked down), com Anne Hathaway e Chiwetel Ejiofor, e da série Raised by wolves, parcialmente produzida e dirigida por Ridley Scott. Mulher Maravilha 1984 também já chega no catálogo, junto com toda a família DC (incluindo, sim, a Liga da Justiça de Zack Snyder) e as franquias de sucesso da Warner, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Invocação do Mal. Animações clássicas do Cartoon Network também aparecem, como As meninas superpoderosas, O laboratório de Dexter e Coragem, o cão covarde, assim como Looney Tunes, Os Jetsons, Os Simpsons e Scooby Doo

O cardápio é variado e promissor – a HBO sempre teve boas produções originais, e a tendência é que elas se multipliquem agora. Porém, sempre que uma nova (ou meramente renovada) plataforma é anunciada, algumas questões sobre cinema, filmes e acessibilidade voltam à tona, reacendidas como lâmpadas sensíveis ao aperto de um botão: até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais? Até que ponto o streaming torna o produto audiovisual mais democrático, ou ainda mais fechado em nichos do que era quando só se tinham cinemas e locadoras? E como fica o papel dos cinemas nisso tudo, hein? Será que eles sobrevivem à explosão do digital?

Até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais?

Essa última pergunta tem me incomodado um pouco mais desde que comecei a usar meu computador para ver parte dos filmes sobre os quais queria escrever. Faço isso pela praticidade – consigo assistir e escrever ao mesmo tempo, na minha mesa, e posso usar o headphone para não interferir nas reuniões do Gabriel (pois home office ainda é uma realidade por aqui). E essa situação – necessária no momento – me fez perceber a falta que eu sinto de uma sala escura, de uma poltrona estofada, de uma tela enorme, e de um grupo de pessoas compartilhando aquele espaço e aquele tempo silenciosamente. 

Acredito no equilíbrio, é claro. Cinema é caro e demanda um tempo muito maior do que a sessão caseira. Tem ainda o custo do deslocamento, da pipoca, do refrigerante, ou da refeição que acompanha a saída… E preciso dizer que a pipoca do Gabriel é melhor que a de qualquer lugar. Qualquer dia vou filmar pra vocês.

O cinema escolhe o filme por você (ou te dá opções para contar nos dedos), mas carrega o risco de você não gostar e, pior, não poder trocar na metade. Porém, ultimamente até isso tem soado como uma grande vantagem: em casa, às vezes a paciência é tão curta que me vejo pulando de um título ao outro, mergulhando por não mais que dez minutos em cada. E isso não é bom: filme nenhum se constrói em dez minutos. Mas tente dizer isso para a minha mão no controle remoto. 

As distrações são reais, e entregar-se tão completamente à hipnose do cinema (como escreveu Barthes) é missão vinte vezes mais complicada na conveniência do lar. Na TV, a coisa é um pouco mais fácil: minha família sempre valorizou o momento do filme como algo quase sagrado, e só se levantava do sofá para um xixi e olha lá. Hoje, eu e o Gabriel ainda somos assim: estouramos o milho, apagamos as luzes, puxamos o edredom e não levantamos mais. Às vezes, só para guardar o balde ou encher os copos. Mas eu falo. Adquiri a mania de comentar as cenas enquanto assistimos, e isso me transporta a um lugar radicalmente diferente do cinema de verdade – esse é o cinema discutido em tempo real, consciente de si. Sem hipnose. Sem aquela coisa de sair meio zonzo tentando lembrar quem você é ou onde está.

Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

No computador, a história é outra: tenho desenvolvido a capacidade de ver filmes picotados, como minisséries aleatoriamente fatiadas. “Vamos descer com a Cacau?” – pausa. “Opa, chegou um email aqui!” – pausa. “Deixa eu responder essa mensagem…” – pausa. “Nossa, tá meio cansativo né…” – pausa. Ora, não é à toa que está cansativo, você nunca embarcou nessa viagem: é como se estivesse apenas olhando os vídeos de quem foi e te contou. Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

Bem, talvez esses filmes em pedaços sejam como livros: você lê algumas páginas por noite e, ao final de uma semana ou duas (ou alguns meses, vai saber), a história finalmente se fecha e você se vê com uma sensação de completude – mesmo que já tenha esquecido os detalhes.

A verdade é que, idealmente, tem espaço para tudo. Cada plataforma funciona melhor em sua hora e lugar, e cada momento pede uma escolha diferente – às vezes é preciso se virar sem sair de casa. Às vezes, nem há cinema na cidade, ou você quer ver alguma coisa que não está em cartaz; ou você está gripado, e está chovendo, e nada seria capaz de te tirar da cama. Ou você só precisa assistir a um trecho daquele clássico para relaxar enquanto passa a roupa. Ou a grana está curta, e o jeito é esperar até o filme entrar num dos streamings que você divide com o resto da família, em vez de pagar um ingresso cheio no cinema na estreia.

O digital tem motivo de sobra para ser o sucesso que é. Mas tenho cada vez mais certeza quando falo que o filme que você vai ver aí, no escritório, no quarto ou na sala de estar, não é o mesmo que você veria na sala escura e isolada de um cinema fora do seu casulo. Que aquela aventurinha boba que não te empolgou dessa vez talvez tivesse sido capaz de te levar a outro mundo, enquanto você estivesse lá, enfeitiçado. E aquela cena final que te emocionou, mas que você logo esqueceu, talvez tivesse te acompanhado no caminho para casa, e crescido com a ajuda das luzes coloridas dos carros e daquela chuva fina e bonita na calçada.

Hoje eu entendo por que alguns cineastas têm tanto medo de que seus filmes sejam vistos apenas em telas individuais. O filme é o mesmo, mas você não é. E a gente precisa se lembrar disso enquanto ainda dá para comparar.

Solos – antologia sci-fi explora a estética do isolamento em coleção de autorretratos

Qual seria o formato dramático mais óbvio para um cenário de isolamento e distanciamento social? Na minha cabeça, o monólogo. Apesar disso, não vimos uma explosão de produções pandêmicas estreladas por um único ator ou atriz – no máximo, observamos tentativas de replicar a realidade mostrando personagens comunicando-se através de telas, como nós. Doentes, como nós. E tivemos algumas experiências interessantes com elencos reduzidos, como o romance Malcolm & Marie, além das muitas experiências com apocalipses (que justificam o uso de máscaras em cena). Mas monólogos? Nem tanto.

Foi em parte por isso que me interessei pela nova série original da Amazon, Solos. Com sete episódios de 30 minutos cada, ela traz histórias vagamente interligadas sobre personagens que, por um motivo ou por outro, precisam se reconectar com as próprias memórias e revisitar suas escolhas e perspectivas sobre o mundo. São autorretratos, praticamente, como sessões de terapia, porém ancoradas num futuro tecnologicamente mais avançado. Alguns com diálogos, outros mais puramente monológicos, todos fechados em ambientes únicos. Replicando a situação contemporânea bem mais na forma do que no conteúdo – exceto por uma das histórias, que menciona mais abertamente uma pandemia.

O outro atrativo, que pode ser simultaneamente bom e ruim, é o elenco quase excessivamente estelar: Anne Hathaway, Anthony Mackie, Helen Mirren, Uzo Aduba, Constance Wu, Nicole Beharie, Dan Stevens e Morgan Freeman. Desses, apenas Stevens e Freeman contracenam, enquanto os demais respondem a Inteligências Artificiais, vozes no telefone, crianças, ou… Bem, a eles mesmos. 

O casting extremo faz sentido: é preciso ser muito bom para encarar sozinho textos como o do episódio 5 (com Wu), e o público precisa simpatizar com você o suficiente para se dispor a assisti-lo durante meia-hora, às vezes multiplicado (como Mackie). Por outro lado, acho que minha favorita foi a ainda desconhecida (por mim, que não vi Orange is the new black) Uzo Aduba, que encarna a paranoia em pessoa enquanto conversa com uma IA que tenta convencê-la a sair de casa, 20 anos após o início do isolamento coletivo por uma doença que pode ou não ter acabado. 

Também me sensibilizei com a sempre maravilhosa Helen Mirren, aqui embarcando numa viagem para o espaço enquanto relembra sua infância e juventude. Sua história é triste, mas ela a conta de um jeito doce – até parece uma menina. E os episódios seguem assim, bem diferentes uns dos outros, mas ligados por uma ideia, uma mensagem: a de que é preciso reconhecer a vida enquanto se está vivendo, pois o tempo não volta atrás. 

É uma mensagem bem mais amarga do que eu esperaria de uma produção tão hollywoodiana, ainda mais uma que parece querer ser seu livro de autoajuda em meio a (ou no fim de) uma pandemia… Mas, pensando bem, por que não? No fim das contas, o que aquele mix de monólogos tenta mostrar é que o que há de humano em todo mundo – as inseguranças, as futilidades, as desconfianças, as brincadeiras, as paixonites, as amizades, os medos, as escolhas ruins, a busca por conforto, o conflito entre a autopreservação e o desejo de contato com o outro – há em todo mundo e em todos os tempos. E a gente pode esquecer que ainda existe humanidade quando coisas tão horríveis quanto a negação da ciência e da História, a recusa das vacinas, a derrubada de florestas, o assassinato de jovens negros, a celebração pública de uma execução pela polícia, passam a fazer parte do dia-a-dia.

Solos é uma criação de David Weil (que escreveu um episódio da nova Twilight Zone e comandou a série Hunters, também da Amazon), com alguns episódios dirigidos por Sam Taylor-Johnson (O garoto de Liverpool, Cinquenta tons de cinza), Zach Braff (Despedida em grande estilo) e Tiffany Johnson (Girls room). Já os roteiros são assinados pelo próprio Weil, com a participação de Stacey Osei-Kuffour (Watchmen), Bekka Bowling (mais experiente como atriz, mas que traz claramente um humor sombrio ao episódio em que participa) e Tori Sampson (sem outros créditos por enquanto, mas fiquemos de olho).

Uma pedida rápida, nem tão pesada, mas nem tão feel good quanto as cores vibrantes e a presença de Morgan Freeman fazem parecer. Dê uma chance: aposto que pelo menos um dos episódios vai te provocar.

Assunto de Família – Koreeda numa sexta à noite

Demorei para ver Assunto de família, não sei exatamente por quê. Talvez porque tenha perdido o timing da estreia, e vocês sabem o que acontece com filmes que caem no limbo da “minha lista”… Ou talvez tenha sido porque, sem a justificativa do trabalho (“preciso ver para escrever”, o que geralmente se limita ao fim de semana de lançamento), as sessões de “cinema” em casa acabaram gravitando rumo a filmes mais mainstream, bons para ver em família com um balde de pipoca, sem a culpa na consciência de ter indicado algo pesado ou lento demais.

Sei lá. A verdade é que vivo pedindo e inventando desculpas, como a personagem da Helen Mirren na nova série Solos, da Amazon (que estou terminando, mais sobre ela em breve*). Então, a novidade é que decidi parar com essas besteiras e me organizar para que todos aqueles filmes que eu quero-ver-mas-são-cult-demais-para-uma-sexta-à-noite tenham seu espaço reservado na semana. E comecei, é claro, desrespeitando meu novo cronograma: assisti a Assunto de família numa sexta-feira. À noite. E amei.

Para você que está meio perdido, Koreeda é Hirokazu Koreeda (ou Kore-eda, depende de quem escreve): um diretor japonês nos seus cinquenta e tantos anos com um dom muito especial para contar histórias banais. Seus filmes falam sobre famílias e relações humanas com empatia e sem julgamentos; são filmes sobre o dia-a-dia, feitos de diálogos e olhares, sem grandes eventos. Mas são filmes imensos.

Meu primeiro Koreeda foi Ninguém pode saber, de 2004, que vi numa Mostra Internacional de Cinema de SP quando ainda estava no colégio (era meu último ano, se não perdi as contas). O filme era inspirado numa história real e acompanhava quatro irmãos que precisavam viver escondidos e trancados em casa, porque sua mãe não tinha autorização para ter tantos moradores no mesmo apartamento. Assunto de família repete essa situação, sugerindo que o controle sobre o número de cabeças por teto talvez seja parte da cultura imobiliária japonesa. O que acontece em Ninguém pode saber é que a mãe começa a passar longos períodos fora de casa, até que essas crianças se veem obrigadas a desbravar o mundo sozinhas – suas roupas e tênis novos ganhando as cores sujas do tempo, cena após cena. Koreeda é assim, de partir o coração.

Dare mo Shiranai (Nobody Knows) (2004) - The Book, The Film, The T-ShirtThe  Book, The Film, The T-Shirt
“Ninguém pode saber”, de 2004, também explora o tema das crianças em situação de abandono ou de pobreza

O cineasta estourou pouco depois com O que eu mais desejo (2011), Pais e filhos (2013), Nossa irmã mais nova (2015), Depois da tempestade (2016), O terceiro assassinato (2017) e, enfim, levou a Palma de Ouro em Cannes com Assunto de Família (2018). Todos esses, mais o curioso Boneca inflável (2009), que eu ainda não vi, estão disponíveis na plataforma Reserva Imovision, exceto por Ninguém pode saber. Esse, infelizmente, é difícil de encontrar.

A boa notícia é que Assunto de família também está na Netflix. Seu nome original é “Manbiki kazoku”, algo como “família de ladrões”, que é um título mais ou menos preciso. Afinal, essa é a história de uma família que não é bem uma família, de ladrões que não são bem ladrões. Vejam bem: são cinco (depois seis) pessoas que moram juntas numa casa, mas que não são oficialmente aparentadas. A senhorinha, dona do imóvel, é chamada de avó, mas não é a avó verdadeira de ninguém: seu marido era o avô biológico de uma adolescente que vive com ela, mas fruto de uma segunda família. O casal adulto, que sustenta o grupo com trabalho e furtos em supermercados (apesar de a “avó” receber uma pensão), também não tem relação sanguínea com a idosa, mas retribui a estadia ajudando a cuidar da casa e da rotina. Já o garotinho mais novo foi encontrado sozinho dentro de um carro e resgatado, anos antes, até se tornar parte da “família” – mesmo hesitando em chamar os adultos de “pai” ou “mãe”. A trama começa quando uma nova criança – uma menininha de três ou quatro anos, no máximo – é resgatada também. O “pai” e o “filho” a encontram sozinha e com fome numa noite gelada e decidem trazê-la apenas para jantar. Depois, os adultos ouvem os pais da menina brigando e deduzem o resto. 

Koreeda, mais uma vez, tenta não fazer julgamentos. Podemos pensar que essas crianças foram sequestradas, pois nunca há, da parte da “nova família”, uma tentativa de contato com os pais originais. Podemos nos incomodar com o fato de que elas aprendem com os adultos a cometer pequenos furtos, complementando a renda irrisória (“se está no mercado é porque ainda não pertence a ninguém”, ensina o “pai”); ou podemos vê-las felizes e cercadas de carinho e imaginar que aquilo é uma família de verdade. Mesmo que saibamos que até a vovozinha tem seus esquemas obscuros para ganhar dinheiro. 

O segredo para apreciar esse quadro fragmentado e incomum é perceber que o foco não está no contexto social, mas no doméstico: a câmera tem consciência do entorno, mas se concentra mesmo é nas relações entre aqueles seis personagens, e apenas eles. E tudo fica mais complicado, ou mais simples, quando se olha para o pequeno. 

O ponto de vista infantil, frequente nos filmes do diretor, ajuda a trazer uma visão menos viciada dos eventos: a criança entende que algo está errado, mas ainda não sabe dar nome às coisas. Ela sabe que roubar é proibido, sente que deveria estar indo à escola, percebe que a condição de uns não é a mesma que de outros; mas não consegue, ainda, juntar tudo isso numa análise sócio-histórica da sua realidade. E isso faz com que experimente a vida com mais transparência, reagindo com o que seu corpo lhe pede, não com o que é esperado. É por isso que Koreeda é tão refrescante: suas histórias soam sinceras.

Se você incluiu Minari na sua maratona do Oscar 2021, talvez perceba a semelhança com Assunto de família. O tom, a delicadeza, as cores, tudo leva a crer que o americano Lee Isaac Chung se embebedou de Koreeda antes de escrever e dirigir seu próprio conto sobre imigrantes japoneses (o que não é um problema – Minari é lindo). E, como Minari, Assunto de família também aborda a velhice com atenção e generosidade. Idosos e crianças, afinal, deveriam ser parte da vida tanto quanto os jovens e adultos que parecem dominar o cinema ocidental, e não é de hoje que os japoneses são famosos por valorizar seus senhores. Aqui, a “vovó” trambiqueira é interpretada por Kirin Kiki: colaboradora frequente de Koreeda que também fez Depois da Tempestade, Nossa irmã mais nova, Pais e Filhos e O que eu mais desejo.

Assunto de família foi o candidato japonês ao Oscar 2019, e perdeu o prêmio de Melhor Filme Internacional para Roma – um filme que também escolhe o olhar intimista no lugar do panorama social, mas que, para mim, não alcança a variedade de emoções pelas quais Koreeda transita com tanta naturalidade. Os personagens desse último são engraçados, errados, apaixonados, cheios de vida, cheios de medo, e é isso que faz com que seus filmes sejam tão fáceis de assistir: eles são leves, mesmo quando dolorosos. São reais, mesmo quando suaves. E, se quer saber, são a pedida perfeita para uma sexta-feira à noite.

*Escrevi sobre ela aqui

Synonymes – choque cultural move drama franco-israelense sobre beleza e identidade

Ultimamente, tenho procurado ver mais filmes em francês, tanto para treinar o idioma quanto para me “desintoxicar” das produções hollywoodianas – que, vira e mexe, começam a parecer todas iguais. Nessa busca, resolvi dar uma chance para “Synonymes”, vencedor do Urso de Ouro em 2019 que encontrei em cartaz na plataforma Filme Filme (que tem um acervo pequeno, mas bem interessante). 

O filme é uma co-produção entre França, Israel e Alemanha e tem um diretor/roteirista israelense: Nadav Lapid (que o escreveu junto com seu pai, Haim Lapid). A história segue um jovem que foge de Israel (por motivos que não ficam claros), abandona sua família e vai morar em Paris, onde é acolhido por um casal de artistas, ele escritor e ela, musicista. 

O elemento curioso nesse filme de gênero incerto (é um drama, mas tem um sarcasmo e um mistério sempre presentes) é que Yoav, o protagonista, quer deixar para trás suas origens e abandonar até mesmo sua língua-natal. Daí o título, que faz referência às palavras que ele aprende em francês, auxiliado por um dicionário ou por seus novos amigos. Os “sinônimos” também são um jeito de falar sobre as traduções cotidianas entre uma cultura e outra – semelhantes em muitos aspectos, mas não iguais. 

Esse “despir” das raízes é apresentado de forma bem literal: durante seu primeiro banho na cidade-luz, Yoav tem todos os seus pertences furtados e se vê nu, sozinho no frio congelante de um apartamento vazio. Muitas das ideias de “Synonymes” serão trabalhadas assim, com metáforas não tão sutis (como quando ele aponta um fuzil imaginário para a catedral, ou quando “empresta” suas histórias de vida para o amigo escrever), mas que rendem belas imagens; ou com cenas que ficam no limite entre o real e o absurdo, mas que nunca atravessam a linha com convicção. Faz-se um paralelo entre arte e violência, beleza e feiura, num estudo que chega muito perto de dizer algo importante.

Como vocês podem ver, a promessa de “Synonymes” acabou me agradando mais do que o filme em si. Talvez por falta de “fluência” nas duas culturas abordadas, talvez por impaciência com certos impulsos da masculinidade (um personagem passa todo o tempo tentando provocar uma briga) ou talvez porque falte, realmente, alguma peça crucial naquele mosaico. Achei difícil comprar a intensidade com que Yaov explode após um semestre vivendo “como francês” – como ele mesmo quisera desde o início – e não costurei suas memórias na forma de um passado particularmente traumático. Imaginei sua evolução indo para outro lado, talvez: do garoto que se recusava a enxergar a beleza à sua volta, pregando os olhos no chão mesmo diante da Notre Dame, ao jovem que a abraça, de alguma forma (como ele ameaça fazer). Mas não: esse é um jovem que finalmente olha para o belo, mas não gosta do que vê. Então encontra no dicionário as palavras mais feias para descrever o único mundo que consegue ter.

Pensar demais (ou como fazer as malas para o fim do mundo)

Existe uma palavra em inglês que me representa mais do que qualquer outra: “overthink”. Algo como “pensar excessivamente”. Mais que o necessário, mais que o limite do saudável. Como agora, quando tento escrever um texto sobre a dificuldade de colocar as coisas em prática por questionar cada passo exageradamente, e tudo o que me vem à mente são frases como “será que você deveria estar escrevendo esse texto?”; “quem vai ler?”; “você não sabe do que está falando”; “isso não combina com o resto do conteúdo do seu site”; “por que você inventou de fazer listas de estreias, mesmo?”; “essa frase aí está truncada”; “você tem esse vício no começo das suas orações, já reparou?”; “você precisa mesmo de mais um exemplo?”; etc, etc. 

Às vezes, o pensamento excessivo se expressa assim, em dúvida e auto-sabotagem, mas nem sempre. Às vezes, é preocupação pura e simples: tenho uma reunião marcada, ou um trabalho novo, ou uma burocracia qualquer para preencher, uma bagagem para despachar, e é o fim. Ou o começo, de uma espiral de cenários possíveis que começam a se materializar na minha cabeça, um atropelando o outro e me deixando exausta antes mesmo de começar. Não é que eu ache que as coisas vão necessariamente dar errado, mas pensar sobre tudo o que eu posso vir a fazer de errado e tudo o que eu preciso fazer para garantir que isso não aconteça, e repensar infinitas vezes até a hora da coisa-em-si é como viver a tensão da experiência em looping, multiplicada – e sempre, invariavelmente, descobrir que a realidade era muito mais simples do que qualquer uma das versões que antecipei. 

Não há conclusão possível quando sua cabeça sabe que tudo é relativo

Nada disso é muito produtivo, caso você esteja se questionando. Afinal, cada hora que eu passo refletindo sobre causas, consequências, cenários e possibilidades é uma hora a menos de concentração para o que eu realmente poderia estar fazendo. E já falei sobre o quão difícil é fazer escolhas quando se pensa demais? Ora, é óbvio: se você se vê diante de A, B e C, sua mente irá imediatamente listar – e questionar – todos os pontos positivos e negativos de cada opção, até começar a duvidar se os positivos eram realmente positivos e vice-versa. Não há conclusão possível quando sua cabeça sabe que tudo é relativo, e que qualquer caminho esconde múltiplas ramificações. Ela não está errada, mas também não está ajudando. 

O Chidi, da série The Good Place, me representa como ninguém.

the good place chidi anagonye gif | WiffleGif

Esta noite, sonhei que estava fazendo as malas para o apocalipse. Eu sei, meus sonhos são estranhos, mas, naquele momento, parecia claro que eu precisava escolher bem os meus pertences – aqueles que eu levaria numa mochilinha para encarar a vida fora de casa, na estrada e sem civilização até sabe-se lá quando. Pensei em tênis, sabonetes, comida, atrasei todo mundo tomando um último banho antes de sair porque isso ia fazer to-da a diferença e, em algum momento, comecei a perguntar onde estavam os carregadores (de celular e computador, ítens essenciais em qualquer fim de mundo). Absurdo, claro. Queria empacotar a vida inteira e colocá-la nas costas, então correr como se não houvesse peso nem amanhã… E não havia mesmo, ali na segurança do meu sonho. Mas eu nem estava com medo de o céu cair sobre minha cabeça, isso é o pior: o medo era de não saber do que eu ou as pessoas que iriam comigo precisaríamos, até que o céu caísse sobre nossas cabeças. O medo era de não estar preparada o suficiente, com ou sem apocalipse. 

Pensando agora, acho que era minha mente revivendo cada véspera de viagem em que tentei especular sobre absolutamente tudo o que poderia acontecer, e mesmo assim acabei esquecendo de algo importante. Pensando mais um pouco, eu provavelmente seria a primeira a morrer num apocalipse real.

“Por quê?” tem sido minha pergunta-armadilha

Ando pensando (evidentemente) nisso tudo na esperança de que me ajude a entender o que foi que deu errado. Por que desisti das coisas que desisti e por que cada projeto que comecei caiu tão rápido na caixinha de coisas questionadas – “por quê?” tem sido minha pergunta-armadilha desde que acabou a estrada bem asfaltada da vida escolar. E percebo que ela não tem me deixado aproveitar o “o quê” das experiências da vida. Ela me diz que, se não houver um motivo que resista a todas as indagações, então não posso, não devo – preciso desesperadamente olhar para o outro lado. Uma daquelas (outras) opções deve ser “a coisa certa”, o “meu propósito”… 

E eu sei muito bem o que você está pensando. Meses atrás, a Pixar e sua (mal-resolvida, mas persistente) animação Soul também me disseram isso: que devo sim, que posso o que for. Que o propósito é supervalorizado, o caminho certo é uma ilusão, e que passar todos os dias olhando para o passado com medo de errar no futuro é um ótimo jeito de não viver. Sou especialmente boa nisso, e você?

E, falando em porquês, por que será que escrevo isso, para todo mundo ver (adicionando mais algumas dúvidas à coleção)? Bem, acho que é porque, como Ethan Hawke surpreendentemente falou outro dia neste TED Talk, o trabalho de escritores, poetas e outros artistas da palavra é tentar dar sentido e colocar certa ordem nos sentimentos que muitos temos, mas que alguns de nós não conseguem expressar, e ficam sufocados. Mostramos, com nossos próprios sentimentos traduzidos, que essas pessoas não estão sozinhas. E esperamos descobrir que também não estamos.

Mas será…?


Foto de Andrew Neel (via Unsplash)

Sweet Tooth – fofura e humanidade nos limites do fim do mundo

Aparentemente, o combo de medo e tédio que esta pandemia sem fim injetou na cultura no último ano não vem rendendo apenas histórias horríveis em mundos apocalípticos com a humanidade à beira da extinção, mas, também, histórias fofinhas em mundos apocalípticos com a humanidade à beira da extinção. 

Uns meses atrás, a Netflix lançou Amor e Monstros: uma espécie de comédia com ação, um romancezinho de fundo e algumas lições de vida cheias de otimismo, tudo ambientado num mundo tomado por insetos gigantescos e assassinos. O filme foi um sucesso – e é mesmo uma delicinha de assistir. Agora, chega ao catálogo a primeira temporada da série Sweet Tooth, igualmente despretensiosa, igualmente feel good, e potencialmente mais viciante.

Sweet Tooth é a adaptação de uma HQ da Vertigo, linha da DC Comics, lançada originalmente entre 2009 e 2013. O piloto para a Netflix foi feito em 2019, mas quem assiste logo saca que o grosso dos episódios foram produzidos em 2020, bebendo da expertise de uma pandemia real. Isso porque a série tem como contexto uma doença, parecida com uma gripe, que aniquila boa parte da humanidade, e diversas cenas mostram detalhes mais do que familiares para quem viveu o último ano: frascos de álcool gel espalhados pelo cenário, placas pedindo o uso de máscaras, distanciamento social marcado em adesivos no chão. Fala-se em teorias envolvendo a fabricação do vírus em laboratório, mostra-se a exclusão dos contaminados e, numa cena perto do fim, vemos um homem zombando da doença, afirmando com toda a convicção que “eles querem que surtemos” e retirando o equipamento de proteção para fumar e ainda dar uma baforada na cara do amigo incrédulo. Se não são esses os momentos mais distópicos da realidade, não sei quais são.

O foco da série não é a doença, o que é um alívio, mas sim a misteriosa “epidemia” secundária que acompanha o evento, quando centenas de bebês começam a nascer diferentes… Com atributos físicos de animais. Chamam-nos de “híbridos”, mas são crianças geradas por casais humanos. O protagonista, como você já deve ter percebido pela imagem no topo desta página, é uma dessas crianças: um garotinho (Christian Convery) que é a fofura em forma de gente (meia-gente?) e que é “híbrido” de cervo, com chifres e orelhinhas que se movem de acordo com seu humor. 

Como é de se esperar de uma história distópica, essas crianças passam a ser caçadas por todo o tipo de “homens maus” – governo, exército, mercenários, escolha o seu. Afinal, eles representam iconicamente o drama do pós-humano: uma “nova espécie” que promete substituir a humanidade (ela nasce enquanto você morre), mas que é, ao mesmo tempo, uma evolução dela. Uma evolução mais conectada com a natureza, único futuro imaginável hoje em dia. E é claro que as pessoas têm medo de que a “velha” humanidade, sem orelhas dançantes ou focinhos peludos, desapareça, e acham que eliminar a novidade vai fazer o mundo voltar ao que era antes. 

Tolinhos, não são sempre?

Por outro lado, espécies misteriosas são sempre alvo de experimentos científicos, tanto quanto do ódio e do extermínio, e, mesmo quando esses experimentos têm a melhor das intenções – como buscar a cura para uma pandemia, por exemplo –, também sabemos que, para o bem da narrativa, nenhum tipo de estudo pode ser feito sem que o “objeto” morra uma morte terrível. Está formado o dilema moral que acompanhará a jornada do nosso protagonista e dos outros personagens que serão apresentados, um a um, ao longo de oito episódios de 40 a 50 e poucos minutos.

Sweet Tooth já está disponível na Netflix e é uma pedida certeira para quem procura um pouco de leveza e humanidade em meio a todo esse caos. 

Verão de 85: tem Ozon estreando nos cinemas

Acho que, depois de seis ou sete filmes, já posso dizer que sou fã do François Ozon. Não que eu AME todos os trabalhos do diretor francês, mas suas contradições me fascinam desde Dentro da Casa, de 2012 – meu favorito até hoje. Para mim, Ozon representa a intersecção entre a ousadia e a delicadeza, os temas polêmicos e a forma suave. Seus filmes sempre carregam uma tensão sexual que se equilibra entre a curiosidade e a obsessão, suas histórias sempre explorando relações de poder, identidades ambíguas e os mistérios da ficção – o quanto nos transformamos em personagens quando contamos nossas histórias. Seu novo trabalho, Verão de 85, não é diferente.

O filme, que se inspira no livro Dance on my grave, de Aidan Chambers, e teria sido lançado no Festival de Cannes de 2020 se esse não tivesse sido cancelado, conta a história de um adolescente certinho, Alexis (Félix Lefebvre), que conhece um garoto um pouco mais velho (David, interpretado por Benjamin Voisin) que é praticamente seu oposto – alto, corajoso, confiante – e, é claro, se apaixona intensamente. Porém, o filme começa com uma narração de Alex, detido e irreconhecivelmente soturno, falando sobre morte, cadáveres e… Bem, sobre como David se transformou em um.

E é assim, com a sugestão de uma tragédia e um crime ainda não explicado, que começa essa história ensolarada sobre o amor e a inocência juvenil. Verão de 85 não é um suspense nem um horror, como a abertura faz parecer, mas Ozon gosta de deixar seu espectador com a sensação de que ele tem uma carta extra na manga – algo que você não sabe, e que torna tudo um tanto mais misterioso. Como a mãe de David (Valeria Bruni Tedeschi), que flerta com Alex de um jeito que beira o impróprio, e às vezes repousa alguns segundos numa expressão de loucura, provável reflexo da perda recente do marido.

A relação entre Alex e David também não é simples. Talvez o amor homossexual, tema frequente no cinema de Ozon, seja ideal para exprimir a tensão latente que ele tanto gosta de explorar. Não que eles hesitem em assumir qualquer coisa um ao outro ou a si mesmos, mas seu romance ainda se esconde do mundo – e das mães – sob paredes finas e portas fechadas. 

Para complicar, David propõe a Alex um pacto eterno: o último a morrer dançará no túmulo do outro. É uma proposta poética que combina com a personalidade imprudente de um e com o gosto pelos rituais fúnebres do outro. Alex se encanta por múmias, pirâmides e culturas que valorizam o além-vida, mas tenta explicar que isso não faz dele um psicopata ou um suicida. Não é que ele queira morrer, mas, aos 16, a morte está distante o suficiente para não ser ameaçadora. Ou isso é o que ele pensava.

É uma pena que Verão de 85 crie tantas expectativas sobre o seu final, que não corresponde. Ainda assim, o conjunto funciona e tem beleza, como um Me chame pelo seu nome em que os dois lados são adolescentes extremos e perdidos. O longa estreia nos cinemas neste fim de semana (a partir de 3 de junho), e deve chegar nos próximos meses às plataformas digitais. Já o próximo filme de Ozon, Tout s’est bien passé, já está no forno e, vejam só, competirá em Cannes no mês que vem. Não sei nada sobre ele e já quero ver.