Vem aí: vídeos e podcasts

Depois de muito tempo andando em câmera lenta e oscilante rumo a nenhum lugar particularmente interessante, comecei este ano tentando colocar a vida de volta aos trilhos. Esta vida, quer dizer, a produtiva. O que só foi possível depois de entender que eu teria que criar novos trilhos sobre os quais colocá-la. Pois, mãos à obra: respirei fundo, olhei bem para minhas frustrações dos últimos anos e separei o que eu gosto e sei fazer do que eu escolhi abandonar completamente da minha vida (no fim, não era todo o jornalismo que eu abominava, mas parte dele. No fim, eu não queria ficar assim tão longe dele). Se vai dar certo? Ora, desta vez vamos ter que fazer dar. (Gostam desse otimismo, né? Esperem mais um mês. Ou uma semana).

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Minhas noites com Gigi

“…num instante, como um anjo guardião impedindo o caminho com o esvoaçar de um traje preto em lugar de asas brancas, um cavalheiro desaprovador, prateado e gentil, lamentou em voz baixa, à medida que me dispensava com um gesto, que só se admitiam damas na biblioteca se acompanhadas por um estudante da universidade ou munidas de uma carta de apresentação.”

Um teto todo seu, Virginia Woolf (p. 17)

Gigi = Virginia Woolf. Li um único livro dela e já somos melhores amigas, agora vocês que me aguentem.

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Dica de livro: “Adultos”, de Emma Jane Unsworth

“– Você precisa confiar em si mesma.

– Não sei em quem confiar, porque não sei quem sou. Tenho trinta e cinco anos, estou na metade do caminho, e ainda estou esperando a minha vida começar.”

Adultos, Emma Jane Unsworth

Eu ia colocar um título engraçadinho – “Adultos (e outras palavras vagas)” ou algo assim. Mas cheguei à conclusão de que talvez vocês quisessem saber que isso aqui é uma dica de livro, não uma reflexão amargurada sobre certa fase da vida. Há muito o que dizer sobre ser adulto, é claro… Mas não me sinto especialmente amargurada hoje. Sinto que é um bom dia para recomendar um livro.

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Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

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Treinando francês com Omar Sy

Salut, mes amis! Acordei afrancesada. É que comecei ontem uma série deliciosa e, mesmo não tendo terminado ainda (vi dois episódios), vim dividir essa dica com vocês. Chama Lupin e, como podem imaginar, é francesa. Nova na Netflix, ela já está virando um pequeno fenômeno na internet, ao menos na minha timeline, e o fato de termos só cinco episódios disponíveis provavelmente ajudou com o burburinho. Pelo que entendi, o que o streaming liberou foi apenas a primeira parte da primeira temporada, e não há previsão de estreia da continuação… É tortura que chama, né? Sejamos fortes.

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Retrato de uma jovem em chamas

Soube que havia algo diferente com Retrato de uma jovem em chamas quando, numa das primeiras cenas, a diretora Céline Sciamma escolheu balançar a câmera sem piedade simulando a ondulação do mar, e a tontura foi tanta que tive que tirar os olhos da tela. Então, uma caixa apareceu boiando e a protagonista – a pintora Marianne, interpretada por Noémie Merlant – se jogou à água, de vestido e tudo. Um vestido volumoso e pesado, já que estamos no final do século XVIII, e nenhum dos homens a bordo se ofereceu para ajudar.

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“A incrível história da Ilha das Rosas”: Utopia feel-good para abrir 2021

Quando ouvi falar num novo filme que se chamava A incrível história da Ilha das Rosas, lembrei imediatamente do curta de Jorge Furtado, Ilha das Flores – aquele sobre um lixão, que mostrava porcos, tomates e polegares opositores sucedendo-se uns aos outros num ciclo sem fim. Talvez você tenha visto na escola, sabe? Aquele. E achei curioso como, mesmo tão diferentes, as duas “ilhas” com nome de flor tinham alguma coisa em comum: ambas eram lugares fora da realidade, fora da civilização, longe dos olhos, apartadas do que se entenderia em qualquer tempo ou espaço por “terra firme”. Nenhuma das duas era uma ilha. E ambas eram incríveis.

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10 Coisas (meio aleatórias) que eu amei em 2020

“2020 foi um ano esquisito” deve ser o eufemismo da década. Este ano foi meio bizarro para todos, especialmente para aqueles que, como eu, se trancaram em casa pela maior parte dos últimos dez meses colecionando pesadelos sobre máscaras esquecidas, visitas descuidadas e aglomerações. Mas a verdade, se querem saber, é que ficar em casa talvez nem tenha sido o mais estranho por aqui. 

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Depois do fim do mundo

Sempre achei este período entre o Natal e os primeiros dias de janeiro um momento especial. Tenho a tradição de arrumar meus armários, minhas gavetas, meus cadernos, consolidar todas as listas de filmes, séries, livros e o que quer que seja que resolvi anotar naquele ano e virar uma página nova, abrir um caderno novo ou pregar uma nova folha na parede (ou todas as anteriores) e escrever os quatro números que me acompanharão todos os dias do ano que está por vir. Gosto de começos. Gosto de ciclos fechados, metas e planos. Raramente os cumpro, mas isso pouco importa. O prazer está em fazê-los.

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Do reino dos porquês

Já faz um tempo que tenho cultivado um carinho especial pelos porquês. Sei que são um capricho, que mais inspiram dor de cabeça e ódio à gramática do que amor pela língua portuguesa, mas essa sou eu. Gosto de coisas assim. Acho um mimo ter uma língua que se dá ao trabalho de eleger grafias diferentes para diferentes usos da mesmíssima palavra: uma para perguntar, uma para explicar, uma para a coisa explicada e uma última apenas para enfatizar a indignação de quem indaga. Me parece uma língua encantada com perguntas e respostas, uma língua provocadora que talvez um dia tenha pertencido a uma nação indignada, cheia dos porquês acentuados e devidamente separados ao final de suas frases gritadas.

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