10 Filmes sobre cozinheiros

Se a cozinha é o seu lugar favorito da casa, seus amigos estão sempre se convidando para jantar, e você até andou aproveitando o isolamento para aprender novas receitas, prepare-se para se deliciar com esta lista:


First Cow

O sucesso indie “First Cow”, dirigido por Kelly Reichardt, já está no catálogo do Mubi com um cardápio do tipo “improvisadão”. Ambientado no início do século XIX, o filme conta a história de um cozinheiro que viaja até o extremo Oeste americano procurando começar uma vida por lá. Chegando a um pequeno povoado, ele se une a um imigrante chinês e começa a produzir bolinhos fritos – que parecem bolinhos de chuva –, trazendo a esse ambiente bruto um gostinho de infância e uma lembrança da vida urbana. Os quitutes são um sucesso, mas há um problema: a receita usa leite, só existe uma vaca na região, e ela não pertence a eles.


Meu eterno talvez

Procurando algo mais açucarado? A dica é a comédia romântica “Meu eterno talvez”, em cartaz na Netflix. Com Ali Wong e Randall Park, o filme acompanha um casal de amigos que se conhece desde a infância, mas acaba se afastando e se reencontra depois de 15 anos em posições radicalmente opostas. Ela se tornou uma chef renomada, enquanto ele não conseguiu evoluir muito desde que os dois se viram pela última vez. Será que duas pessoas tão diferentes vão conseguir se entender?


A 100 passos de um sonho

Agora pense num filme com pratos de encher os olhos, dignos de revista. É assim em “A 100 passos de um sonho”: essa é a história de uma família indiana que emigra para a França e decide abrir um restaurante, começando uma rivalidade com seu vizinho de frente: um tradicional restaurante francês que ostenta uma estrela Michelin. 


Julie e Julia

Todo grande cozinheiro precisa começar por algum lugar, não é mesmo? Em “Julie e Julia”, de Nora Ephron, Amy Adams é uma mulher que decide aprender a cozinhar com a ajuda de um livro de receitas da famosa Julia Child, e documenta todo o processo num blog. A história de Child, interpretada por Meryl Streep, vai sendo contada em paralelo, mostrando como ela, também, enfrentou suas dificuldades para entrar nesse mundo até então exclusivamente masculino.


Chef

O multitalentoso Jon Favreau escreve, dirige e protagoniza a comédia inspiradora “Chef”, que tem sabor de comida de rua. No filme, ele vive um chef de cozinha que abandona o trabalho num grande restaurante após receber uma crítica negativa e perceber que não estava feliz. Então, ele decide abrir um food truck junto com seu melhor amigo e o filho, e pegar a estrada.


Ratatouille

Uma das animações mais fofas da Pixar consegue juntar a paixão francesa pela gastronomia e uma das figuras mais temidas por qualquer dono de restaurante: um rato. Pois Ratatouille é justamente sobre um ratinho com talento para a cozinha, cujas intenções são obviamente frustradas por sua natureza. As coisas começam a dar certo quando ele se une a um cozinheiro aprendiz, humano, e começa a levar suas receitas para um respeitado restaurante, sem que ninguém desconfie.


Sem reservas

Passando para uma proposta meio-doce, meio-azeda, recomendamos o romance “Sem reservas”, com Catherine Zeta Jones, Aaron Eckhart e uma pequenininha Abigail Breslin. O filme adota o clichê da mulher bem-sucedida que é temida por todos os seus colegas e não consegue conciliar a vida familiar com a profissional, mas complica a questão ao colocar, na vida da chef Kate, uma responsabilidade repentina: cuidar da sobrinha de dez anos após a morte da irmã. Para piorar, um novo chef é contratado por seu restaurante, e ela teme que ele tenha vindo roubar o seu lugar.


Pegando fogo

Seguindo na linha de chefs problemáticos, que tal conhecer Adam Jones? O chefe de cozinha vivido por Bradley Cooper em “Pegando Fogo” conseguiu arruinar a própria carreira com seu comportamento irresponsável e vício em drogas. Agora, sóbrio e queimado, ele tenta retornar à ativa assumindo o comando de um importante restaurante londrino.


Os sabores do palácio

Falando em trabalhos importantes, você já parou para pensar em quem prepara a comida para as autoridades? Em “Os sabores do palácio”, a chef Hortense Laborie é convidada para ser a cozinheira particular do presidente francês, amante da gastronomia e sedento por novos sabores. Competente e firme em suas escolhas arriscadas, Hortense consegue conquistar seu novo patrão, mas logo perceberá que, num lugar tão cheio de egos e poderes, não é só ele que precisa aprovar seu trabalho… 


The Lunchbox

Para encerrar o menu com aquela “comfort food” de aquecer o coração, sugerimos o indiano “The lunchbox”. Nele, uma dona-de-casa prepara marmitas para o marido numa tentativa de melhorar a relação; mas, certo dia, o almoço é entregue no endereço errado e vai parar nas mãos de um homem solitário, prestes a se aposentar. Depois de explicado o engano, os dois começam a trocar cartas por meio das marmitas e desenvolvem uma profunda amizade, mesmo sem nunca terem se conhecido. 


Já ficou com fome? Então aprecie este vídeo com personagens cozinhando no dia-a-dia em filmes do Studio Ghibli:


Este conteúdo também está no Youtube, numa versão mais enxuta! Siga nosso canal:

Tela grande, tela pequena – a chegada da HBO Max e algumas reflexões sobre cinema e plataformas digitais

Estreou hoje no Brasil a nova plataforma de streaming da HBO, HBO Max – consertando alguns dos problemas bizarros da antiga HBO Go e trazendo uma pequena seleção de novas dores de cabeça para quem tentou logar (foi preciso fazer um novo cadastro, mesmo já sendo assinante), assinar (houve problemas com o pagamento nas primeiras horas) ou assistir (as legendas estavam abominavelmente desconfiguradas).

Para impulsionar o tão aguardado e atrasado lançamento, o serviço trouxe alguns títulos inéditos por aqui, mas já extensamente discutidos lá fora, como Friends – The Reunion e The Flight Attendant, além da comédia pandêmica Confinamento (Locked down), com Anne Hathaway e Chiwetel Ejiofor, e da série Raised by wolves, parcialmente produzida e dirigida por Ridley Scott. Mulher Maravilha 1984 também já chega no catálogo, junto com toda a família DC (incluindo, sim, a Liga da Justiça de Zack Snyder) e as franquias de sucesso da Warner, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Invocação do Mal. Animações clássicas do Cartoon Network também aparecem, como As meninas superpoderosas, O laboratório de Dexter e Coragem, o cão covarde, assim como Looney Tunes, Os Jetsons, Os Simpsons e Scooby Doo

O cardápio é variado e promissor – a HBO sempre teve boas produções originais, e a tendência é que elas se multipliquem agora. Porém, sempre que uma nova (ou meramente renovada) plataforma é anunciada, algumas questões sobre cinema, filmes e acessibilidade voltam à tona, reacendidas como lâmpadas sensíveis ao aperto de um botão: até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais? Até que ponto o streaming torna o produto audiovisual mais democrático, ou ainda mais fechado em nichos do que era quando só se tinham cinemas e locadoras? E como fica o papel dos cinemas nisso tudo, hein? Será que eles sobrevivem à explosão do digital?

Até quando conseguiremos bancar uma cultura de assinaturas digitais?

Essa última pergunta tem me incomodado um pouco mais desde que comecei a usar meu computador para ver parte dos filmes sobre os quais queria escrever. Faço isso pela praticidade – consigo assistir e escrever ao mesmo tempo, na minha mesa, e posso usar o headphone para não interferir nas reuniões do Gabriel (pois home office ainda é uma realidade por aqui). E essa situação – necessária no momento – me fez perceber a falta que eu sinto de uma sala escura, de uma poltrona estofada, de uma tela enorme, e de um grupo de pessoas compartilhando aquele espaço e aquele tempo silenciosamente. 

Acredito no equilíbrio, é claro. Cinema é caro e demanda um tempo muito maior do que a sessão caseira. Tem ainda o custo do deslocamento, da pipoca, do refrigerante, ou da refeição que acompanha a saída… E preciso dizer que a pipoca do Gabriel é melhor que a de qualquer lugar. Qualquer dia vou filmar pra vocês.

O cinema escolhe o filme por você (ou te dá opções para contar nos dedos), mas carrega o risco de você não gostar e, pior, não poder trocar na metade. Porém, ultimamente até isso tem soado como uma grande vantagem: em casa, às vezes a paciência é tão curta que me vejo pulando de um título ao outro, mergulhando por não mais que dez minutos em cada. E isso não é bom: filme nenhum se constrói em dez minutos. Mas tente dizer isso para a minha mão no controle remoto. 

As distrações são reais, e entregar-se tão completamente à hipnose do cinema (como escreveu Barthes) é missão vinte vezes mais complicada na conveniência do lar. Na TV, a coisa é um pouco mais fácil: minha família sempre valorizou o momento do filme como algo quase sagrado, e só se levantava do sofá para um xixi e olha lá. Hoje, eu e o Gabriel ainda somos assim: estouramos o milho, apagamos as luzes, puxamos o edredom e não levantamos mais. Às vezes, só para guardar o balde ou encher os copos. Mas eu falo. Adquiri a mania de comentar as cenas enquanto assistimos, e isso me transporta a um lugar radicalmente diferente do cinema de verdade – esse é o cinema discutido em tempo real, consciente de si. Sem hipnose. Sem aquela coisa de sair meio zonzo tentando lembrar quem você é ou onde está.

Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

No computador, a história é outra: tenho desenvolvido a capacidade de ver filmes picotados, como minisséries aleatoriamente fatiadas. “Vamos descer com a Cacau?” – pausa. “Opa, chegou um email aqui!” – pausa. “Deixa eu responder essa mensagem…” – pausa. “Nossa, tá meio cansativo né…” – pausa. Ora, não é à toa que está cansativo, você nunca embarcou nessa viagem: é como se estivesse apenas olhando os vídeos de quem foi e te contou. Será que ver um filme sem imergir nele é mesmo ver um filme?

Bem, talvez esses filmes em pedaços sejam como livros: você lê algumas páginas por noite e, ao final de uma semana ou duas (ou alguns meses, vai saber), a história finalmente se fecha e você se vê com uma sensação de completude – mesmo que já tenha esquecido os detalhes.

A verdade é que, idealmente, tem espaço para tudo. Cada plataforma funciona melhor em sua hora e lugar, e cada momento pede uma escolha diferente – às vezes é preciso se virar sem sair de casa. Às vezes, nem há cinema na cidade, ou você quer ver alguma coisa que não está em cartaz; ou você está gripado, e está chovendo, e nada seria capaz de te tirar da cama. Ou você só precisa assistir a um trecho daquele clássico para relaxar enquanto passa a roupa. Ou a grana está curta, e o jeito é esperar até o filme entrar num dos streamings que você divide com o resto da família, em vez de pagar um ingresso cheio no cinema na estreia.

O digital tem motivo de sobra para ser o sucesso que é. Mas tenho cada vez mais certeza quando falo que o filme que você vai ver aí, no escritório, no quarto ou na sala de estar, não é o mesmo que você veria na sala escura e isolada de um cinema fora do seu casulo. Que aquela aventurinha boba que não te empolgou dessa vez talvez tivesse sido capaz de te levar a outro mundo, enquanto você estivesse lá, enfeitiçado. E aquela cena final que te emocionou, mas que você logo esqueceu, talvez tivesse te acompanhado no caminho para casa, e crescido com a ajuda das luzes coloridas dos carros e daquela chuva fina e bonita na calçada.

Hoje eu entendo por que alguns cineastas têm tanto medo de que seus filmes sejam vistos apenas em telas individuais. O filme é o mesmo, mas você não é. E a gente precisa se lembrar disso enquanto ainda dá para comparar.

Assunto de Família – Koreeda numa sexta à noite

Demorei para ver Assunto de família, não sei exatamente por quê. Talvez porque tenha perdido o timing da estreia, e vocês sabem o que acontece com filmes que caem no limbo da “minha lista”… Ou talvez tenha sido porque, sem a justificativa do trabalho (“preciso ver para escrever”, o que geralmente se limita ao fim de semana de lançamento), as sessões de “cinema” em casa acabaram gravitando rumo a filmes mais mainstream, bons para ver em família com um balde de pipoca, sem a culpa na consciência de ter indicado algo pesado ou lento demais.

Sei lá. A verdade é que vivo pedindo e inventando desculpas, como a personagem da Helen Mirren na nova série Solos, da Amazon (que estou terminando, mais sobre ela em breve*). Então, a novidade é que decidi parar com essas besteiras e me organizar para que todos aqueles filmes que eu quero-ver-mas-são-cult-demais-para-uma-sexta-à-noite tenham seu espaço reservado na semana. E comecei, é claro, desrespeitando meu novo cronograma: assisti a Assunto de família numa sexta-feira. À noite. E amei.

Para você que está meio perdido, Koreeda é Hirokazu Koreeda (ou Kore-eda, depende de quem escreve): um diretor japonês nos seus cinquenta e tantos anos com um dom muito especial para contar histórias banais. Seus filmes falam sobre famílias e relações humanas com empatia e sem julgamentos; são filmes sobre o dia-a-dia, feitos de diálogos e olhares, sem grandes eventos. Mas são filmes imensos.

Meu primeiro Koreeda foi Ninguém pode saber, de 2004, que vi numa Mostra Internacional de Cinema de SP quando ainda estava no colégio (era meu último ano, se não perdi as contas). O filme era inspirado numa história real e acompanhava quatro irmãos que precisavam viver escondidos e trancados em casa, porque sua mãe não tinha autorização para ter tantos moradores no mesmo apartamento. Assunto de família repete essa situação, sugerindo que o controle sobre o número de cabeças por teto talvez seja parte da cultura imobiliária japonesa. O que acontece em Ninguém pode saber é que a mãe começa a passar longos períodos fora de casa, até que essas crianças se veem obrigadas a desbravar o mundo sozinhas – suas roupas e tênis novos ganhando as cores sujas do tempo, cena após cena. Koreeda é assim, de partir o coração.

Dare mo Shiranai (Nobody Knows) (2004) - The Book, The Film, The T-ShirtThe  Book, The Film, The T-Shirt
“Ninguém pode saber”, de 2004, também explora o tema das crianças em situação de abandono ou de pobreza

O cineasta estourou pouco depois com O que eu mais desejo (2011), Pais e filhos (2013), Nossa irmã mais nova (2015), Depois da tempestade (2016), O terceiro assassinato (2017) e, enfim, levou a Palma de Ouro em Cannes com Assunto de Família (2018). Todos esses, mais o curioso Boneca inflável (2009), que eu ainda não vi, estão disponíveis na plataforma Reserva Imovision, exceto por Ninguém pode saber. Esse, infelizmente, é difícil de encontrar.

A boa notícia é que Assunto de família também está na Netflix. Seu nome original é “Manbiki kazoku”, algo como “família de ladrões”, que é um título mais ou menos preciso. Afinal, essa é a história de uma família que não é bem uma família, de ladrões que não são bem ladrões. Vejam bem: são cinco (depois seis) pessoas que moram juntas numa casa, mas que não são oficialmente aparentadas. A senhorinha, dona do imóvel, é chamada de avó, mas não é a avó verdadeira de ninguém: seu marido era o avô biológico de uma adolescente que vive com ela, mas fruto de uma segunda família. O casal adulto, que sustenta o grupo com trabalho e furtos em supermercados (apesar de a “avó” receber uma pensão), também não tem relação sanguínea com a idosa, mas retribui a estadia ajudando a cuidar da casa e da rotina. Já o garotinho mais novo foi encontrado sozinho dentro de um carro e resgatado, anos antes, até se tornar parte da “família” – mesmo hesitando em chamar os adultos de “pai” ou “mãe”. A trama começa quando uma nova criança – uma menininha de três ou quatro anos, no máximo – é resgatada também. O “pai” e o “filho” a encontram sozinha e com fome numa noite gelada e decidem trazê-la apenas para jantar. Depois, os adultos ouvem os pais da menina brigando e deduzem o resto. 

Koreeda, mais uma vez, tenta não fazer julgamentos. Podemos pensar que essas crianças foram sequestradas, pois nunca há, da parte da “nova família”, uma tentativa de contato com os pais originais. Podemos nos incomodar com o fato de que elas aprendem com os adultos a cometer pequenos furtos, complementando a renda irrisória (“se está no mercado é porque ainda não pertence a ninguém”, ensina o “pai”); ou podemos vê-las felizes e cercadas de carinho e imaginar que aquilo é uma família de verdade. Mesmo que saibamos que até a vovozinha tem seus esquemas obscuros para ganhar dinheiro. 

O segredo para apreciar esse quadro fragmentado e incomum é perceber que o foco não está no contexto social, mas no doméstico: a câmera tem consciência do entorno, mas se concentra mesmo é nas relações entre aqueles seis personagens, e apenas eles. E tudo fica mais complicado, ou mais simples, quando se olha para o pequeno. 

O ponto de vista infantil, frequente nos filmes do diretor, ajuda a trazer uma visão menos viciada dos eventos: a criança entende que algo está errado, mas ainda não sabe dar nome às coisas. Ela sabe que roubar é proibido, sente que deveria estar indo à escola, percebe que a condição de uns não é a mesma que de outros; mas não consegue, ainda, juntar tudo isso numa análise sócio-histórica da sua realidade. E isso faz com que experimente a vida com mais transparência, reagindo com o que seu corpo lhe pede, não com o que é esperado. É por isso que Koreeda é tão refrescante: suas histórias soam sinceras.

Se você incluiu Minari na sua maratona do Oscar 2021, talvez perceba a semelhança com Assunto de família. O tom, a delicadeza, as cores, tudo leva a crer que o americano Lee Isaac Chung se embebedou de Koreeda antes de escrever e dirigir seu próprio conto sobre imigrantes japoneses (o que não é um problema – Minari é lindo). E, como Minari, Assunto de família também aborda a velhice com atenção e generosidade. Idosos e crianças, afinal, deveriam ser parte da vida tanto quanto os jovens e adultos que parecem dominar o cinema ocidental, e não é de hoje que os japoneses são famosos por valorizar seus senhores. Aqui, a “vovó” trambiqueira é interpretada por Kirin Kiki: colaboradora frequente de Koreeda que também fez Depois da Tempestade, Nossa irmã mais nova, Pais e Filhos e O que eu mais desejo.

Assunto de família foi o candidato japonês ao Oscar 2019, e perdeu o prêmio de Melhor Filme Internacional para Roma – um filme que também escolhe o olhar intimista no lugar do panorama social, mas que, para mim, não alcança a variedade de emoções pelas quais Koreeda transita com tanta naturalidade. Os personagens desse último são engraçados, errados, apaixonados, cheios de vida, cheios de medo, e é isso que faz com que seus filmes sejam tão fáceis de assistir: eles são leves, mesmo quando dolorosos. São reais, mesmo quando suaves. E, se quer saber, são a pedida perfeita para uma sexta-feira à noite.

*Escrevi sobre ela aqui

Synonymes – choque cultural move drama franco-israelense sobre beleza e identidade

Ultimamente, tenho procurado ver mais filmes em francês, tanto para treinar o idioma quanto para me “desintoxicar” das produções hollywoodianas – que, vira e mexe, começam a parecer todas iguais. Nessa busca, resolvi dar uma chance para “Synonymes”, vencedor do Urso de Ouro em 2019 que encontrei em cartaz na plataforma Filme Filme (que tem um acervo pequeno, mas bem interessante). 

O filme é uma co-produção entre França, Israel e Alemanha e tem um diretor/roteirista israelense: Nadav Lapid (que o escreveu junto com seu pai, Haim Lapid). A história segue um jovem que foge de Israel (por motivos que não ficam claros), abandona sua família e vai morar em Paris, onde é acolhido por um casal de artistas, ele escritor e ela, musicista. 

O elemento curioso nesse filme de gênero incerto (é um drama, mas tem um sarcasmo e um mistério sempre presentes) é que Yoav, o protagonista, quer deixar para trás suas origens e abandonar até mesmo sua língua-natal. Daí o título, que faz referência às palavras que ele aprende em francês, auxiliado por um dicionário ou por seus novos amigos. Os “sinônimos” também são um jeito de falar sobre as traduções cotidianas entre uma cultura e outra – semelhantes em muitos aspectos, mas não iguais. 

Esse “despir” das raízes é apresentado de forma bem literal: durante seu primeiro banho na cidade-luz, Yoav tem todos os seus pertences furtados e se vê nu, sozinho no frio congelante de um apartamento vazio. Muitas das ideias de “Synonymes” serão trabalhadas assim, com metáforas não tão sutis (como quando ele aponta um fuzil imaginário para a catedral, ou quando “empresta” suas histórias de vida para o amigo escrever), mas que rendem belas imagens; ou com cenas que ficam no limite entre o real e o absurdo, mas que nunca atravessam a linha com convicção. Faz-se um paralelo entre arte e violência, beleza e feiura, num estudo que chega muito perto de dizer algo importante.

Como vocês podem ver, a promessa de “Synonymes” acabou me agradando mais do que o filme em si. Talvez por falta de “fluência” nas duas culturas abordadas, talvez por impaciência com certos impulsos da masculinidade (um personagem passa todo o tempo tentando provocar uma briga) ou talvez porque falte, realmente, alguma peça crucial naquele mosaico. Achei difícil comprar a intensidade com que Yaov explode após um semestre vivendo “como francês” – como ele mesmo quisera desde o início – e não costurei suas memórias na forma de um passado particularmente traumático. Imaginei sua evolução indo para outro lado, talvez: do garoto que se recusava a enxergar a beleza à sua volta, pregando os olhos no chão mesmo diante da Notre Dame, ao jovem que a abraça, de alguma forma (como ele ameaça fazer). Mas não: esse é um jovem que finalmente olha para o belo, mas não gosta do que vê. Então encontra no dicionário as palavras mais feias para descrever o único mundo que consegue ter.

Verão de 85: tem Ozon estreando nos cinemas

Acho que, depois de seis ou sete filmes, já posso dizer que sou fã do François Ozon. Não que eu AME todos os trabalhos do diretor francês, mas suas contradições me fascinam desde Dentro da Casa, de 2012 – meu favorito até hoje. Para mim, Ozon representa a intersecção entre a ousadia e a delicadeza, os temas polêmicos e a forma suave. Seus filmes sempre carregam uma tensão sexual que se equilibra entre a curiosidade e a obsessão, suas histórias sempre explorando relações de poder, identidades ambíguas e os mistérios da ficção – o quanto nos transformamos em personagens quando contamos nossas histórias. Seu novo trabalho, Verão de 85, não é diferente.

O filme, que se inspira no livro Dance on my grave, de Aidan Chambers, e teria sido lançado no Festival de Cannes de 2020 se esse não tivesse sido cancelado, conta a história de um adolescente certinho, Alexis (Félix Lefebvre), que conhece um garoto um pouco mais velho (David, interpretado por Benjamin Voisin) que é praticamente seu oposto – alto, corajoso, confiante – e, é claro, se apaixona intensamente. Porém, o filme começa com uma narração de Alex, detido e irreconhecivelmente soturno, falando sobre morte, cadáveres e… Bem, sobre como David se transformou em um.

E é assim, com a sugestão de uma tragédia e um crime ainda não explicado, que começa essa história ensolarada sobre o amor e a inocência juvenil. Verão de 85 não é um suspense nem um horror, como a abertura faz parecer, mas Ozon gosta de deixar seu espectador com a sensação de que ele tem uma carta extra na manga – algo que você não sabe, e que torna tudo um tanto mais misterioso. Como a mãe de David (Valeria Bruni Tedeschi), que flerta com Alex de um jeito que beira o impróprio, e às vezes repousa alguns segundos numa expressão de loucura, provável reflexo da perda recente do marido.

A relação entre Alex e David também não é simples. Talvez o amor homossexual, tema frequente no cinema de Ozon, seja ideal para exprimir a tensão latente que ele tanto gosta de explorar. Não que eles hesitem em assumir qualquer coisa um ao outro ou a si mesmos, mas seu romance ainda se esconde do mundo – e das mães – sob paredes finas e portas fechadas. 

Para complicar, David propõe a Alex um pacto eterno: o último a morrer dançará no túmulo do outro. É uma proposta poética que combina com a personalidade imprudente de um e com o gosto pelos rituais fúnebres do outro. Alex se encanta por múmias, pirâmides e culturas que valorizam o além-vida, mas tenta explicar que isso não faz dele um psicopata ou um suicida. Não é que ele queira morrer, mas, aos 16, a morte está distante o suficiente para não ser ameaçadora. Ou isso é o que ele pensava.

É uma pena que Verão de 85 crie tantas expectativas sobre o seu final, que não corresponde. Ainda assim, o conjunto funciona e tem beleza, como um Me chame pelo seu nome em que os dois lados são adolescentes extremos e perdidos. O longa estreia nos cinemas neste fim de semana (a partir de 3 de junho), e deve chegar nos próximos meses às plataformas digitais. Já o próximo filme de Ozon, Tout s’est bien passé, já está no forno e, vejam só, competirá em Cannes no mês que vem. Não sei nada sobre ele e já quero ver.

De volta para casa: drama italiano para ver de graça em junho

Desde maio, o Belas Artes à la Carte vem oferecendo uma programação bem bacana de filmes italianos de graça na sua plataforma, em parceria com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo. Com o nome de Cine Clube Italiano, o evento exibe um filme por mês, que fica disponível por uma semana para assinantes e não-assinantes. É isso aí: de graça, online e pra todo mundo! Melhor não fica, né?

Em junho, o filme escolhido é o drama com um toquezinho de suspense De volta para casa, da diretora Cristina Comencini, de 2019. Ele ficará em cartaz entre os dias 4 e 10, com direito a um bate-papo especial no dia 9, às 18h30, com o crítico Miguel Barbieri Jr. e o gerente de inteligência do grupo Belas Artes, Léo Mendes.

Não sei bem o que me atraiu para esse filme, mas, desde que bati o olho nas primeiras imagens, fiquei interessada. Talvez tenha sido a descrição da protagonista, Alice (Giovanna Mezzogiorno), como uma jornalista de 40 anos que se reconecta com seu passado numa cidadezinha litorânea. Ou talvez tenha sido a beleza do lugar, da luz, do figurino e dos olhares meio receosos dessa mulher que hesita em lembrar de quem um dia já foi. 

Na verdade, a profissão se mostra irrelevante para a história, mas todo o resto fez jus às impressões iniciais: sob o sol italiano, vibrante e límpido como se quisesse revelar mais claramente cada movimento, essa mulher revisita momentos-chave de sua infância e juventude. Percorrendo cômodos e refazendo percursos, ela tenta entender quando foi que aquela garota alegre e despreocupadamente sedutora se perdeu, dando lugar à profissional distante, mãe, divorciada e cheia de preocupações e medos que vemos agora.

Il trailer di Tornare, il nuovo film di Cristina Comencini arriva on demand

Alice retorna a Nápoles para enterrar o pai, com quem não tinha a melhor das relações. Apesar disso, um homem desconhecido aparece no velório e diz a ela que seu pai tinha muito orgulho, sim, e que falava frequentemente da filha. Ele se apresenta como Mark, e conta que tinha sido contratado para ler para o idoso nos últimos seis meses de sua vida. 

É curioso como, desde o início, o filme nos deixa com um pé atrás, mas não sabemos ao certo por quê. Alice e sua irmã, por exemplo, parecem estranhar a informação de que seu pai fosse um grande apreciador de livros, mas ninguém volta a tocar no assunto. Logo, a irmã volta para sua cidade, Alice fica sozinha no casarão da família e é aí que a jornada realmente começa.

Atribuo um “toquezinho” de suspense à obra porque, apesar de apresentar um senso mais forte de perigo nas sequências finais, o filme trabalha muito mais o drama psicológico, explorando o lado terapêutico do retorno a um local do passado. A forma como Comencini escolhe mostrar esse retorno é delicada e fascinante: ela coloca Alice literalmente em diálogo com suas versões mais jovens – uma Alice adolescente, de 18 anos, e uma criança. Assim, a protagonista não apenas assiste às suas memórias, mas participa ativamente delas, trocando conselhos com suas outras Alices e descobrindo detalhes que já estavam há muito esquecidos.

A história se revela aos poucos, em pequenos comentários como os de moradores da cidade que lembram da rebeldia da jovem Alice, ou o de uma freira que lamenta a saída precoce da estudante. O que aconteceu ali é o que nós e Alice queremos descobrir, mas os fatos são apenas representações de uma discussão muito maior. Uma discussão sobre homens e mulheres – homens maus, homens bons, mulheres livres e aprisionadas, pais e filhas, maridos e esposas. A diretora, que assina o roteiro ao lado de Giulia Calenda, questiona o discurso de proteção que se impõe sobre meninas e mulheres (especialmente nos anos 60 daquelas memórias) e convida o espectador a encarar o lado podre dessa crença. Afinal, protegida de quê? De quem? Emerald Fennell, diretora e roteirista de Bela Vingança, teria muito a conversar com Comencini.

O que faz um filme ruim?

Antes de ontem, quis assistir a alguma coisa boba. Um filme que não prometesse muito, nem decepcionasse, para ver comendo pipoca de cérebro semi-desligado. Parece fácil, mas vocês ficariam surpresos com o quão raro é encontrar um desses por aqui – na maioria das vezes, me irrito com os primeiros dez minutos e vou ver outra coisa, que pode ser ótima, mas nem de longe era o petisco relaxante que eu procurava. O eleito, dessa vez, foi um filminho de ficção científica da Netflix que já tínhamos considerado mais do que algumas vezes só porque o protagonista era o Michael Peña e, pelo menos como coadjuvante em Homem Formiga, ele tinha sido simpático. Queríamos alguém simpático para aquela sexta-feira à noite.

Continuar lendo “O que faz um filme ruim?”

Críticas do Oscar – Meu Pai

Pouco a pouco, vou me atualizando sobre os filmes indicados ao Oscar – se é que faz sentido pensar em Oscar no ano-sem-cinema de 2021. Neste ano, o ritmo está mais lento, e nem o grande favorito nem a possível zebra da vez chegaram ainda, mas alguns outros títulos já estão disponíveis e, já que não se pode excluir ninguém depois que Green Book e Moonlight levaram a estatueta, vamos conferindo tudo o que dá. Já risquei da categoria de Melhor Filme O Som do Silêncio (em cartaz na Amazon Prime), Os 7 de Chicago (na Netflix) e, agora, Meu Pai, que chega às plataformas no dia 9 de abril para compra e no 28 para aluguel, mas foi exibido com um pouco de antecedência para os ansiosos da imprensa. Espero escrever sobre todos esses e alguns outros antes do dia 25, quando acontece a premiação. Torçam por mim!

Continuar lendo “Críticas do Oscar – Meu Pai”

Novos e velhos heróis

Zack Snyder não é exatamente meu exemplo de diretor de cinema. Apesar disso, passei quatro horas da última quinta-feira conferindo a sua versão do pipocão-sessão-da-tarde Liga da Justiça, filme lançado em 2017 que ele começou, mas não pôde terminar em decorrência de uma tragédia pessoal. Na época, Joss Whedon assumiu o volante e se deu mal: misturar duas visões de uma mesma obra, assim, às pressas, nunca poderia ter dado muito certo, e o resultado foi visivelmente caótico. Mas por que me dar ao trabalho de assistir à nova versão? Bem, um pouco para poder acompanhar as discussões na internet, um pouco porque conseguimos acessar uma promoção bem baratinha do Google Play (se fosse para pagar R$ 50 a história seria outra), e um pouco por curiosidade sobre o que ele poderia me dizer dos novos caminhos do cinema de massa.

Continuar lendo “Novos e velhos heróis”

Thelma e Louise e Hunter

Quase trinta anos separam os filmes Thelma & Louise, clássico de 1991 escrito por Callie Khouri (que ganhou o Oscar pelo roteiro) e dirigido por Ridley Scott; e Swallow, novidade cult de Carlo Mirabella-Davis lançada entre 2019 e 2020, em cartaz no Mubi. De um lado, um roadmovie com sua dose de humor, uma dose de ação e outra dose generosa de Geena Davis e Susan Sarandon. Do outro, um drama um tanto aflitivo conduzido pela ainda desconhecida, mas interessantíssima Haley Bennett. Em ambos, mulheres aprisionadas. Em ambos, mulheres que machucam a si mesmas. 

Continuar lendo “Thelma e Louise e Hunter”