A grama dos outros é mais fácil de cuidar

Desde que virou o ano, tenho andado meio workaholic. Desesperada para produzir alguma coisa, seja lá o que for, seja lá como for, desde que seja agora. Acho que é a iminência do fim do mestrado, e com ele do sentido da vida que vem junto com o ritual de conquista de mais um diploma universitário. Não que uma dissertação (que é basicamente um livro) não seja produção suficiente, mas, profissionalmente falando, ela não vale muita coisa. Não depois da defesa. E a necessidade aliada ao tédio de um ano cheio de referências bibliográficas e nenhuma vida social é a mãe da inspiração. E da produtividade. Então podem vir textos, podem vir vídeos, podem vir posts que eu to topando!

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Sem internet

Eram umas onze horas quando apertei o play para assistir ao novo queridinho da Netflix, Malcolm e Marie. Estava oscilando entre começar a rascunhar uns parágrafos para a dissertação ou preparar alguns posts para as redes do Caderno e decidi que um filme assim no meio do dia era uma boa terceira opção: repertório nunca é demais, não é mesmo? Mas ando desconfiando de que o destino gosta de me repreender, e nem me espantei quando a página não carregou. Esperei alguns minutos, tentei de novo. Nope. Da sala, o Gabriel gritou: “Você também está sem internet?”. Ora ora, pelo jeito estou.

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Depois do fim do mundo

Sempre achei este período entre o Natal e os primeiros dias de janeiro um momento especial. Tenho a tradição de arrumar meus armários, minhas gavetas, meus cadernos, consolidar todas as listas de filmes, séries, livros e o que quer que seja que resolvi anotar naquele ano e virar uma página nova, abrir um caderno novo ou pregar uma nova folha na parede (ou todas as anteriores) e escrever os quatro números que me acompanharão todos os dias do ano que está por vir. Gosto de começos. Gosto de ciclos fechados, metas e planos. Raramente os cumpro, mas isso pouco importa. O prazer está em fazê-los.

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Do reino dos porquês

Já faz um tempo que tenho cultivado um carinho especial pelos porquês. Sei que são um capricho, que mais inspiram dor de cabeça e ódio à gramática do que amor pela língua portuguesa, mas essa sou eu. Gosto de coisas assim. Acho um mimo ter uma língua que se dá ao trabalho de eleger grafias diferentes para diferentes usos da mesmíssima palavra: uma para perguntar, uma para explicar, uma para a coisa explicada e uma última apenas para enfatizar a indignação de quem indaga. Me parece uma língua encantada com perguntas e respostas, uma língua provocadora que talvez um dia tenha pertencido a uma nação indignada, cheia dos porquês acentuados e devidamente separados ao final de suas frases gritadas.

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Fazendo você mesmo

Desculpem a demora em escrever, andei ocupada reinventando a vida.

Numa dessas, inventei de procurar (na internet, pois Covid) um organizador de mesa. Coisa simples, só pra deixar os papéis na vertical e ocupar menos espaço, juntar canetas, tesoura, cola, régua, aquela coisa toda que transforma qualquer meio metro quadrado em incompreensível caos. Era para a mesa de jantar, no caso, que resolvemos cooptar para trabalhos artesanais porque no escritório já não cabe mais… Lá fui eu: papelaria – escritório – organização…

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“Beijos, Mama”

A primeira vez que minha mãe me mandou um postal, ela estava em Nova York. O cartão só foi chegar semanas depois e achei a maior graça, porque foi ela mesma que o recebeu na casa da minha avó. Eu devia ter uns sete ou oito anos e não entendia direito para que servia aquele papel.

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Mulheres não fazem poesia

Mulheres não fazem poesia. A poesia meio que brota delas como mato descontrolado, invadindo o espaço inóspito feito bandeirante civilizador. Às mulheres, não cabe escolha senão aceitar, agradecer. Recitar tal qual caixa de som.  Continuar lendo “Mulheres não fazem poesia”

Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

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O vento não liga para nada

Nem todos os dias fluem em coerência. Há sábados, por exemplo, que começam com pão e café, mas terminam com punhos apertados e vontade de gritar. O que foi que deu errado entre o nascer e o pôr do sol?

Ah, sim, a quarentena… Continuar lendo “O vento não liga para nada”