Fala, Cinéfilo! #10 – X-Men: Apocalipse, Amores Urbanos, Alice Através do Espelho e Jogo do Dinheiro


No Fala, Cinéfilo! #10, conhecemos os trailers de “Assassin’s Creed” e “Personal Shopper”, comentamos o protesto da equipe de “Aquarius” em Cannes e a saída definitiva de Daniel Craig da franquia 007. Saiba qual empresa de games está pretendendo investir em cinema e conheça as principais estreias da quinzena: “X-Men: Apocalipse”, “Amores Urbanos”, “Alice Através do Espelho” e “Jogo do Dinheiro”.

Dica do Público: “Amantes Eternos” (2013)

Tema para o próximo programa: Fim do Mundo.

Trailers:

Assassin’s Creed: https://youtu.be/jTgzJ79KDsg

Personal Shopper: https://youtu.be/7hghXP4F3Qs

Críticas:

X-Men: Apocalipse: http://goo.gl/Xtcj8h

Amores Urbanos: http://goo.gl/0OM6LZ

Alice Através do Espelho: http://goo.gl/E1hfUl

Jogo do Dinheiro: http://goo.gl/dX8IyP

Amantes Eternos: http://goo.gl/QUNn2I

Crítica: “007 Contra Spectre” reflete o cansaço da franquia e do seu protagonista

Daniel Craig está cansado de ser James Bond. Numa entrevista recente à revista Time Out, o ator afirmou que não aguentava mais viver o papel do assassino mulherengo mais famoso dos cinemas e que preferiria “cortar os pulsos” a começar outro 007 naquele momento. Não que isso signifique muito: ele tinha acabado de encerrar as gravações e estava exausto.

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Craig pode não ter abandonado o barco ainda (ele admite a possibilidade de fazer um próximo Bond apenas pelo dinheiro), mas está claro que sua cabeça e seu coração não estão mais na franquia. Em “007 Contra Spectre”, a apatia é evidente: falta emoção, falta criatividade, falta tudo. E sobram todos os clichês que, até então, tinham conseguido se manter afastados da “era Craig”.

O Bond que vemos na tela não é mais o personagem soturno dos últimos filmes – aquele valentão que encarava a própria maturidade com amargor e permitia-se sentir dor e medo enquanto destruía alguns carros, vestia ternos incríveis e dormia com dezenas de mulheres maravilhosas. Neste, ele só destrói carros, veste ternos incríveis e dorme com mulheres maravilhosas (a principal, inclusive, tem metade da sua idade, mas vou tentar terminar esta crítica sem abordar os problemas sexistas do filme, pois isso daria outro texto completo). Enfim, ele faz tudo o que James Bond sempre fez, mas sem a ousadia e sem a complexidade emocional que fizeram de Craig o protagonista mais interessante da série em muitos anos.

A história, escrita a oito mãos, não é lá muito nova: Bond recebe pistas de M (Judi Dench) após a sua morte que levam a uma organização chamada Spectre. Enquanto isso, o programa 00 é colocado em cheque pelo novo Secretário de Segurança (Andrew Scott, o Moriarty de “Sherlock”), que conspira para eliminá-lo enquanto implementa um sistema de vigilância internacional. Ou seja, Bond terá que agir sozinho e clandestinamente, como sempre fez.

Se o roteiro está soando familiar, é porque você provavelmente já assistiu a outro filme com a mesma história neste ano: “Missão: Impossível – Nação Secreta”. Ethan Hunt também precisou agir em segredo quando sua organização foi fechada e também encontrou um inimigo que, de alguma forma, vinha do passado. A grande diferença entre os dois é que aquele explorou trabalho em equipe, teve uma protagonista feminina forte e soube dosar a tradição com a novidade.

Comparações à parte, é verdade que também existe uma equipe ao lado de Bond: Q (Ben Whishaw), Moneypenny (Naomi Harris) e o novo M (Ralph Fiennes) são o melhor do filme, trabalhando contra as autoridades e defendendo uns aos outros como uma família. Pena que Bond mal os percebe.

O filme tem muitos problemas além da falta de interesse de Craig. O roteiro, preguiçoso, resgata retalhos dos filmes anteriores e constrói um vilão genérico para amarrar todos os outros. Além disso, traz novas informações sobre a infância do herói como se isso fosse dar sentido a tudo o que aconteceu até ali. Mas não é esse o efeito: jogado de repente e sem a correspondência emocional de Bond, esse passado parece forçado, assim como a dupla de vilões interpretados por Christoph Waltz e Scott  – espertinhos e sorridentes como em todos os seus papéis. Não me levem a mal, eles são ótimos atores, mas parecem funcionar no modo automático em “Spectre”, entregando apenas o que você já espera deles, quiçá um pouco menos.

Além do reaproveitamento de outros filmes, “Spectre” recupera antigos clichês da série, tornando-se quase uma sátira de si mesmo. Há uma bomba-relógio em contagem regressiva. Há um momento em que o protagonista precisa escolher entre salvar a si mesmo ou tentar salvar a mocinha. Há uma mocinha que parece valente, mas precisa ser resgatada no final (desculpem, não resisti). Há um personagem que morre caindo de um prédio. Há uma luta num helicóptero. O vilão é um sádico que gosta de explicar suas intenções antes de agir. É déja-vu atrás de déja-vu.

O filme também traz algumas surpresas cômicas, deslocadas em meio a tanto tiroteio: logo no início, Bond tenta escapar de um edifício desabando e cai, sentado, num sofá, ajeitando o terno como se nada tivesse acontecido – é um 007 das antigas. Mais para o final, o herói faz uma saída triunfal, desfilando em direção à dama enquanto arremessa a arma para o lado. Parece piada, mas não é: é Bond abraçando os próprios estereótipos como há muito tempo não víamos.

O resultado de tudo isso pode ser o melhor ou o pior 007 dos últimos tempos, dependendo do quanto você compra a ideia. Este não é um “Craig”, nem parece um “Sam Mendes”, mas, definitivamente, é um 007. Infelizmente (ou não), ele parece ter regredido do século XXI de volta aos primórdios do XX, quando direitos humanos, feminismo e espírito colaborativo ainda eram conceitos inimagináveis.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Resumão#08 – Alice Através do Espelho, Animais Fantásticos e Onde Habitam e 007 Contra Spectre

No Resumão de hoje, conheça os primeiros trailers de “Chi-Raq” e “Alice Através do Espelho”, saiba tudo sobre o novo filme do universo de Harry Potter, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” e saiba o que esperar das estreias “007 Contra Spectre” e “A Floresta Que Se Move”. Na polêmica da semana, Quentin Tarantino se envolve na luta popular contra a polícia norte-americana e é recebido com ameaças.
Para encerrar, deixo aqui a dica de um evento que vai reunir blogueiros e jornalistas para falar de cultura pop em São Paulo no dia 14 de novembro (e eu estarei lá!). Detalhes abaixo:

Iniciativa Crossover #2
Quando? 14 de novembro, das 14h às 21h
Onde? Saraiva Megastore do Shopping Morumbi
O quê? Mesas de debate sobre cultura japonesa, Dr. Who e Sherlock, Star Wars, Games, Marvel e DC, Game of Thrones, Lost e Netflix.
Mais informações: http://iniciativacrossover.com.br

Outros links:
Trailer Chi-Raq: https://goo.gl/FBWBJd
Trailer Alice Através do Espelho: https://goo.gl/Trrlrl
Crítica 007 Contra Spectre: https://goo.gl/8mebZp
Crítica A Floresta Que Se Move: https://goo.gl/mZ8eNm

007 SKYFALL

E lá se foram 50 anos de James Bond. Meio século de investigações secretas na base da porrada e de brinquedinhos tecnológicos, sempre com muito charme, bebidas e mulheres – belas, traiçoeiras e cada vez mais numerosas. Com “Skyfall”, é claro que não é diferente: todo o charme do Mr. Craig-Bond, muito álcool na veia e nada menos que três belas mulheres (uma negra, uma latina e uma francesa exótica, de olhos puxadinhos. Nenhuma loira, pasmem).

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A história, porém, já testou todas as variações possíveis. Nem é preciso prestar atenção aos diálogos para saber que haverá uma perseguição inicial com alguma pista falsa ou truque do inimigo, que levará Bond como isca até ele, e em algum momento a situação se reverterá. Ah, e provavelmente ele sobreviverá a algum impacto absurdo, sem arranhões.

O que mantém um pouco o interesse em “Skyfall” são as histórias originais – ficamos sabendo o que aconteceu com os pais de Bond, como a senhora M (Judi Dench, ainda mais impenetrável) tratou seus antigos agentes, quem cuidou de Bond antes de ele ser quem é. Algumas referências aos antigos filmes fazem a homenagem necessária: um carro Astor Martin com metralhadoras nos faróis, referências a uma caneta explosiva e a volta do agente Q (atualizado para um jovem geek). O que se busca, a todo o tempo, é pensar a relevância do velho diante do novo e do moderno. Aqui, M e Bond são questionados em seus métodos e têm que provar seu valor.

Isso tudo são detalhes que dão uma graça a mais, mas não mudam muito o rumo da trama. O que se destaca, portanto, tem que estar fora do roteiro, tão inflexível em sua necessidade de ser franquia. Particularmente, escolhi passar o tempo reparando nas cores da fotografia e na trilha sonora. Boa escolha: assim como em todas as categorias de som, “Skyfall” está concorrendo ao Oscar de melhor fotografia.

O jogo é bastante evidente: temos o amarelo dando liga a todos os ambientes, dia ou noite, internos ou externos, e o que varia são as composições. Predomina o azul nos momentos mais investigativos ou de perseguição, quando vemos o 007 trabalhando do seu jeito. Vermelho para a China exótica e para cenas mais sedutoras. Branco quando o foco passa para a personagem M e para o passado de Bond. Preto para o vilão no auge da sua vilania.

Azul para o agente secreto em ação

Vermelho para o exótico e a sedução

Branco para o passado

Preto para o ataque do vilão

Apesar de previsível, o resultado é bonito e acrescenta um determinado sentido às imagens que muitas vezes não percebemos, assim como faz a trilha, que explora variações da canção de Adele e do tema clássico da série em diferentes intensidades.

Numa série tão infinita quanto 007, é função da música carregar aquele “clima” que queremos recordar ao assistir a cada sequência. A obra de Adele, nesse sentido, resgata com precisão o sentimento de “agente secreto noir” que é a base de tudo. Ao contrário das aberturas “pop” dos últimos três anos, ela se prendeu a uma ideia de cinema e não apenas a uma história, misturando-se ao filme como uma coisa orgânica.

“Skyfall” não vai marcar a história do cinema, nem tem pretensão de ser assim, porque nasceu para ser uma sequência. Para quem gosta da série, não há motivo para decepções. Para quem não gosta, o filme oferece um bom visual, boa música e ótimas atuações. Boa pedida para esta sexta-feira à noite.