Resumão#12 – Especial CCXP 2015 (Parte 1)

Nesta semana, o Resumão vai à Comic Con Experience – maior evento de cultura pop/nerd da América Latina. De quinta a domingo, traremos vídeos diários para mostrar tudo o que rolou na feira e garantir que você não perca um detalhe! Hoje, os destaques vão para o Artists’ Alley, a presença de Frank Miller, as atrações da Aleph (incluindo a linda da Evangeline Lilly) e as novidades da Sony. Acompanhe e conte para nós o que você está achando do evento!

 

Crítica: “Ted 2” mostra que a mesma piada nem sempre funciona duas vezes

Quando o ursinho Ted apareceu pela primeira vez nos cinemas, fumando maconha e falando palavrão, o público até achou engraçadinho. O enredo, sobre o dono do urso que precisava se desapegar do amigo de infância para amadurecer, também não era ruim e muita gente conseguiu se divertir. O problema é que a mesma piada, contada duas vezes, não tem mais o mesmo efeito.

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Ted 2” traz de volta Ted (Seth MacFarlane), agora já casado com Tami-Lynn (Jessica Barth), pensando em adotar uma criança para salvar o relacionamento em crise. Quando o casal dá início ao processo, porém, uma questão legal vem à tona: perante a lei, Ted não pode ser considerado uma pessoa. A partir daí, Ted, Tami, John (Mark Wahlberg) e a jovem advogada Sam (Amanda Seyfried) iniciam uma batalha judicial contra o Estado para recuperar os direitos do urso.

O problema não é apenas a história cheia de buracos (a crise conjugal, por exemplo, se resolve de uma hora para a outra), mas o humor do diretor e roteirista MacFarlane. Como em seus outros trabalhos, “Ted 2” repete os mesmos temas de sempre: maconha, objetos fálicos, negros e mulheres que parecem doces mas são tão lesadas quanto seus colegas masculinos. Fica difícil rir quando já se sabe exatamente o que está por vir – e não são poucos os momentos em que a piada é recebida com um silêncio constrangedor da plateia.

A comédia ainda tem outros problemas pontuais: a sequência de abertura, por exemplo, não dialoga em nada com o restante do filme. Como uma referência genérica a Hollywood, Ted protagoniza um foxtrot com dançarinos em roupas de gala, lembrando os maçantes números musicais das cerimônias do Oscar e ainda trazendo à memória a lamentável ocasião em que MacFarlane foi o anfitrião da festa.

Outro ponto questionável são as cenas com o advogado vivido por Morgan Freeman – cuja presença força uma lição de moral, com direito ao velho discurso vocês-me-fizeram-lembrar-da razão-pela-qual-eu-escolhi-minha-profissão. Também é um pouco incômodo o relacionamento entre John e Sam, que nem mesmo se mostram interessados um no outro, mas ainda assim se unem porque pede a cartilha.

“Ted 2”, não por acaso, vem amargando uma trajetória bem menos entusiástica que seu antecessor: nos EUA, arrecadou apenas US$ 81 desde a estreia em junho, contra US$ 219 mi do primeiro filme – e o orçamento ainda foi um pouco mais alto. Por aqui, o longa estreia no dia 27 de agosto e o desempenho não deve ser muito diferente. Fuja dessa roubada.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Dior e Eu” registra o recomeço de uma das marcas mais tradicionais da alta costura francesa

Quando o belga Raf Simons foi anunciado como o sucessor de John Galliano para a grife francesa Dior, o clima na casa foi de apreensão: afinal, conseguiria um estilista com experiência em moda masculina e inclinação para o minimalismo manter a identidade de uma marca famosa pela feminilidade?

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Frédéric Tcheng, diretor francês que já investigara a carreira de outro estilista em “Valentino: The Last Emperor” e biografara a editora de moda Diana Vreeland em “The Eye Has to Travel”, decidiu mergulhar nessa história e registrar a estreia de Simons na Dior, com os bastidores de seu primeiro desfile pela marca e sua primeira coleção de alta costura em toda a vida. O resultado é o belíssimo “Dior e Eu“.

O longa é uma viagem envolvente para quem gosta de moda, mas pode ser entediante para quem espera uma abordagem mais humana, como nos filmes “Coco Antes de Chanel” e “Yves Saint Laurent”, por exemplo. O foco, aqui, são as roupas na passarela e o processo criativo que as antecede.

Tcheng não deixa o lado humano, porém, completamente de lado. Pegando emprestadas frases de um livro autobiográfico de Christian Dior (intitulado, justamente, “Christian Dior e Eu”), o diretor faz uma colagem de reflexões do fundador da casa, nos anos 40, com as experiências vividas pelo novo estilista em meados de 2012, criando um diálogo e uma identificação surpreendente entre os dois.

Outro paralelo interessante é feito entre Simons e uma jovem modelo, que também se prepara para fazer na passarela da Dior sua grande estreia. O conflito entre a geração estabelecida e os novos personagens é expresso em comentários sutis, como “esta sala está bem moderna, não acha?” ou “podem chamá-lo de ‘Raf’, mas a mim continuem chamando de ‘Senhor’”. Fica claro que o desejo de renovação convive com um apego igualmente forte às tradições e com um medo generalizado de mudança. Rompê-lo é o verdadeiro desafio do estilista.

Diferente de outros documentários, que às vezes permitem um desleixo formal em nome do realismo, “Dior e Eu” trabalha com uma câmera firme, trazendo imagens limpas e bem enquadradas como num reality show, impressão que fica ainda mais forte quando se nota o roteiro bem planejado e amarrado. Tudo é cuidadoso e intencional, sem fios soltos – o que significa, também, que muito material deve ter sido deixado na ilha de edição e que nem todos os depoimentos, é claro, são tão autênticos assim.

Realidade ou ficção, o fato é que o filme se sai muito bem na proposta de transportar o espectador para dentro de um ateliê de alta costura, revelando os diferentes profissionais envolvidos na criação, o estudo da história da marca aliado às inspirações contemporâneas, a rotina das costureiras e todo o processo de construção de uma coleção, do conceito à passarela. Até mesmo o conflito entre arte e mercado é explorado numa sequência curta, mas reveladora.

“Dior e Eu” estreia no Brasil no dia 27 de agosto e engrossa a lista de filmes obrigatóriospara quem estuda ou se interessa por moda – mas o melhor é que nem é preciso ser especialista para aproveitar o espetáculo.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.